
Atualizada às 09h08 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
The Chinatown Death Cloud Peril, Paul Malmont. New York: Simon & Schuster, 2006, 371 páginas.
A certa altura deste romance de estréia do publicitário novaiorquino Paul Malmont, escritores da era de ouro dos pulps se reúnem num bar freqüentado pelos membros do seu sindicato, e tentam definir o que é pulp, em termos culturais: "Se é uma mentira, então é real", diz Lester Dent, que, escrevendo como Kenneth Roberson, era autor das aventuras de Doc Savage. Ele então completa: "se é um monte de mentiras, então é pulp." Só por isso, Malmont entendeu melhor do que os precedentes, a natureza da ficção pulp. O escandaloso, o melodramático, o aventuresco e o maravilhoso elaborados por um autor que põe fé absoluta no que narra, mesmo que temperado com humor.
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O romance é uma animada e cativante mistura de homenagem e recriação da era das pulp magazines. É ambientado em fins da década de 30, às vésperas da Segunda Grande Guerra, e seus protagonistas são grandes nomes da Era pulp - Walter Gibson, que, como Maxwell Grant, escrevia as histórias do herói pulp O Sombra (The Shadow); Lester Dent; L.P. Lovecraft, o mestre do horror sobrenatural; L. Ron Hubbard, autor da Era de Ouro da FC nas revistas americanas, e criador da "cientologia"; e Robert A. Heinlein, que viria a ser, a partir de sua estréia em 1938, um dos maiores nome da FC americana na Era de Ouro. Outros nomes, como E.E. "Doc" Smith e Chester Himes, fazem aparições especiais. O local, evidentemente, é Nova York, a capital da indústria dos pulps. A pesquisa é vasta e embasa toda a textura do romance.
O enredo - e que enredo! - trata de como um cadavérico Lovecraft conseguiu sair de Providence e informar seus colegas - de maneira sorumbática e enigmática, é claro - que havia trabalhado num laboratório clandestino que desenvolvera um gás capaz de manter a animação dos corpos mortos. Antes (ou depois) de morrer ele mesmo. Gibson vai investigar e se depara com um homem misterioso que lhe parece a encarnação do seu herói, o Sombra, mas com um detalhe perturbador, e genial da parte de Malmont: esse homem é um chinês.
O enredo então envereda por uma intriga internacional envolvendo um carregamento de armas químicas que deve favorecer uma facção chinesa em luta na Ásia, enquanto Gibson, Dent e sua esposa, e Robert Heinlein (que se apresenta com o nome gozador de "Otis P. Driftwood"), então um vagabundo sem eira nem beira, formam uma equipe que tentará, seja em Chinatown ou numa ilha ao largo de Manhattan, descarrilar os planos orientais. Hubbard, descrito como um ambicioso trapalhão, na época em que foi o cabeça da associação de escritores pulp, fica a cargo de acionar o químico (de alimentos) Smith para encontrar um antídoto para o monstruoso gás. As rivalidades entre os milionários Gibson e Dent também é explorada, assim como o interesse de Gibson por prestidigitação, e os conhecimentos enciclopédicos do atlético Dent. As dificuldades e os variados aspectos da carreira de um escritor pulp, e suas ansiedades quanto a reconhecimento literário, também.
O "perigo amarelo" foi um dos temas centrais da pulp fiction, com todos os seus contornos racistas. Malmont, que resgata o pulp e o homenageia neste romance, não fica só nisso e atualiza e inverte o tema, ao caracterizar, sem fugir do melodrama, o vilão Zhang Mei como um herói da resistência na China e um homem de motivações fortes e humanas. Há até uma pitada de sentido trágico, no final do romance.
Malmont não fez da homenagem literária apenas uma performance - há esforços reais de caracterização, ambientação, ação e enredo, por trás das piscadelas dirigidas ao leitor; piscadelas que serão particularmente deliciosas a quem conhece o período, os autores citados e as características emuladas a partir da pulp fiction dessa época. E é isso o que resolve o paradoxo aparente de que a mistura de fato e ficção e a cultura popular como tema sejam aspectos da ficção americana pós-modernista, que enfraqueceu tanto os contos de McSweeney's Mammoth Treasure of Thrilling Tales.
"Se é uma mentira, então é real. Se é um monte de mentiras, então é pulp..." Provavelmente isso explica por que esse "retorno" e essa referência ao pulp se tornou um fenômeno internacional no final do século 20 e início do século 21. Política, econômica ou socialmente, vivemos na nova era pulp do "monte de mentiras".
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