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Segunda, 30 de junho de 2008, 08h02 Atualizada às 23h53

A prisioneira

Márcio Alemão
De São Paulo

Eu tenho uma teoria: ela está prisioneira de um personagem que a assessoria de marketing, ou o agente ou a agência ou sei lá quem determinou. No fundo ela não queria nada disso.

No fundo ela queria calma. Queria ter a vida de uma moça simples. Sonhava em ser professora. Um dia conheceria um moço bom, trabalhador, honesto e por ele se apaixonaria e com ele casaria e juntos teriam filhos, quantos Deus permitisse.

Difícil crer nessa possibilidade.

Digamos que já começou a sonhar, desde a mais tenra idade, com a fama. Mas, como alcançá-la? Podendo contar com predicados físicos, a passarela parecia ser um destino provável. Tentou. Deu-se relativamente bem. Não chegou a brilhar. Dona de uma "beleza" que ficou fora da moda rapidamente, teria de tentar outros caminhos.

Foi então que se deu o grande encontro que mudaria para sempre a vida da moça.

Mas a trágico e o inesperado se uniram e de repente, mais uma vez, tudo teve de tomar um novo rumo.

Mergulhada nos cinzas por um quase longo período, renasceu tal qual Fênix e concluiu: "eu estou viva!"

O que fazer doravante?

Reuniu pois sua equipe e todos se puseram a dar tratos à bola. Alguém teria sugerido que ela poderia, quem sabe, tentar ser uma nova Marilia Gabriela. Teria de estudar um pouco. Não descartou a possibilidade. Uma Fernandinha Torres? Apostar forte no teatro? Tinha talento para isso mas o teatro no Brasil ainda padece de pouco apoio financeiro. A TV seria o caminho natural. A sucessora da Hebe? A Hebe é imortal, pensou ela. Não teria paciência para esperar. Ainda assim a TV era o canal. Mas qual canal? Noites e dias foram ocupados com toda sorte de idéias e alguém, finalmente, teria sugerido: "você irá namorar."

"Como assim?"

"Você irá namorar com dezenas de pessoas. A primeira capa de revista insinuará que seu coração começou a bater por fulana. Na segunda vocês se unem. Na terceira vocês se separam e na quarta você curte a fossa sozinha na ilha ou no castelo ou em um novo apartamento que vier a comprar ou redecorar"

"Não acho totalmente ruim. Mas eu nunca vou viver um grande amor?"

"As pessoas acreditam que você já viveu."

"Putz! É verdade!"

"E mesmo que a carreira não chegue a ser nada de especial, você estará sempre e sempre e sempre em evidência. Será sua marca registrada."

"Mas até quando eu..."

"Veja a Suzana Vieira, a Ana Maria Braga. Sempre aparece alguém."

Márcio Alemão é publicitário, roteirista, colunista de gastronomia da revista Carta Capital, síndico de seu prédio, pai, filho e esposo exemplar.

Fale com Márcio Alemão: marcio.alemao@terra.com.br

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