
Atualizada às 08h04 André Setaro
De Salvador (BA)
Quando, na década de 60, comecei a freqüentar o Clube de Cinema da Bahia, programado pelo ensaísta Walter da Silveira, e vim a constatar que o cinema, mais do que um simples espetáculo, era, também, uma expressão artística, escassa a bibliografia sobre o assunto para aqueles que queriam se iniciar. Os raros livros existentes, e em selecionadas livrarias, batiam na tecla de que o cinema é uma arte e procuravam dar os rudimentos de sua linguagem. Os estudos semióticos encontravam-se nos seus primórdios na Europa e aqui não se alastraram nesta época.
Os métodos críticos, a crítica estruturalista, textual, etc, precisaram esperar uma década para que fossem publicados, a exemplo dos livros de Christian Metz e Jean Mitry. Quem queria ler sobre cinema tinha que se contentar com as boas críticas dos jornais, principalmente as que saíam no Correio da Manhã e O Estado de S.Paulo, e, mais adiante, no Jornal do Brasil, e contar com os "manuais de sobrevivência", a exemplo de "O Cinema, sua arte, sua técnica, sua economia", do célebre historiador francês Georges Sadoul, da Editora da Casa do Estudante do Brasil, traduzido por Alex Viany. Ou com os publicados pela Agir: "Iniciação ao cinema", de J. P. Chartier e R.P.Desplanques ofereceu um certo embasamento introdutório às coisas do cinema, entre outros desta editora, pioneira no lançamentos de obras sobre a chamada sétima arte, como os escritos do Padre Guido Logger.
Sobre o cinema nacional, havia um livro pioneiro, de pesquisa exaustiva, hoje um clássico já reeditado várias vezes, "Introdução ao cinema brasileiro", de Alex Viany, cuja primeira edição saiu pelo Instituto Nacional do Livro (INL). Em 1963, Glauber Rocha em "Revisão crítica do cinema brasileiro" causou a polêmica necessária ao atacar o inatacável "O cangaceiro", de Lima Barreto, dizer que "Limite", de Mário Peixoto, não passava de um mito, entre outras diatribes peculiares ao controvertido cineasta e animador. Alguns anos se passaram para Jean-Claude Bernardet, como se descobrisse o gênio da lâmpada, afirmasse, em "Brasil em tempo de cinema" (1967), que os filmes do Cinema Novo refletiam a mentalidade classe média de seus autores.
Mas sobre o cinema internacional, sua evolução histórica, havia o indispensável "História do Cinéma Mundial", de Georges Sadoul, em dois volumes, uma redução dos oito ou nove volumes originais publicados na França pelo historiador, o alentado "Histoire du Cinema Mondial", numa tradução e "redução" de autoria de Sonia Salles Gomes, e editado pela Martins. Nele se tomou conhecimento da invenção do "cinematógrafo" dos Irmãos Lumière, dos primórdios, de Georges Méliès, da importância de Griffith como pai da narrativa cinematográfica, do expressionismo alemão, do neo-realismo italiano, etc.
Em meados da década de 60, numa iniciativa pioneira da Civilização Brasileira, à frente o intimorato Ênio Silveira, foi criada uma coleção, a Biblioteca Básica de Cinema (BBC), quando se teve a oportunidade de conhecimento de teóricos importantes da arte do filme. Bem editados, com índice remissivo, os livros da BBC fizeram a alegria daqueles que estavam impossibilitados de ler algo mais profundo sobre a linguagem e a estética cinematográficas (e receber livros do exterior era um processo difícil e demorado bem diferente dos dias de hoje, quando a internet "lhe manda" com o pedido feito diretamente de seu computador).
"O processo da criação cinematográfica", de John Howard Lawson, constituiu-se em acontecimento editorial que veio enriquecer a fraca bibliografia de cinema em português. Assim como "Elementos da estética cinematográfica", de Umberto Barbaro, "A aventura do cinema", de Renato May, "Luis Buñuel", de Ado Kyrou (com prefácio de Glauber Rocha intitulado "A visão do novo Cristo"). Todos estes pela BBC da Civilização.
Antenado com as novidades editoriais, homem culto, o editor Jorge Zahar não perdeu tempo e colocou na praça "O cinema como arte", de J. R. Debrix e Ralph Stevenson, "Reflexões de um cineasta", de Sergei Eisenstein, entre outros.
A sede de leitura de livros sobre a expressão cinematográfica foi sendo atendida no decorrer da segunda metade dos anos 60. Mas a Civilização deixou de publicar obras de teóricos para se dedicar, na sua coleção BBC, a roteiros de filmes. Há algumas preciosidades como os roteiros completos e análises e ensaios de obras-primas como "Viridiana", de Buñuel, "Rocco e seus irmãos" e "Os deuses malditos", de Luchino Visconti, "A doce vida", de Federico Fellini. A seguir, a BBC estacionou em Fellini com muitos roteiros seus publicados.
Em 1966, Walter da Silveira lança, em Salvador, pela editora Tempo Brasileiro, o essencial "Fronteiras do cinema", que reúne vários ensaios escritos ao decorrer do tempo, alguns magistrais como "Crítica e contracrítica", "Entrevisão a Ingmar Bergman", "Da oralidade em Alain Resnais", "Espaço e tempo no cinemascópio", etc. E um bem equivocado: "As vertigens de Alfred Hitchcock". Mas obra de referência de um dos maiores pensadores cinematográfico do país em todos os tempos. Foi sua obra de estréia (antes escrevia artigos caudalosos para os jornais e sua obra completa, em quatro grossos volumes, foi, ano retrasado, editada pelo governo do estado: "O eterno e o efêmero", título de seu discurso de posse na Academia Baiana de Letras em 1968). O segundo livro de Walter da Silveira, publicado pouco antes de sua morte (ocorrida em novembro de 1970), "Imagem e roteiro de Charles Chaplin", pela editora Mensageiro da Fé, reúne um dos mais lúcidos e brilhantes textos sobre os filmes do hoje quase esquecido Carlitos.
A partir dos anos 70, estudos mais teóricos e aprofundados foram sendo lançados, como a coleção da Editora Perspectiva, que deu a conhecer ao leitor "A significação do cinema", de Christian Metz e, em seu rastro, vários outros exemplares significativos.
Se a crítica de cinema dava sinais de fastio nos jornais, com estes a limitar o espaço e a determinar mais a feitura de resenhas como "guia de consumo" ao invés das análises perfuratrizes do pretérito, as editoras, pelo contrário, multiplicaram os lançamentos de obras sobre o processo de criação cinematográfica, desde manuais de roteiro, teoria do cinema, linguagem e estética cinematográficas, além da reunião em livros dos ensaios e críticas de renomados críticos de cinema: "Paulo Emílio no Suplemento Literário", "Cinema e verdade", de Francisco Luiz de Almeida Salles, e, recentemente, a Companhia das Letras presenteou os estudiosos da sétima arte com as notáveis antologias de "Um filme por dia", de Antonio Moniz Viana", "Um filme é um filme", de José Lino Grenewald, "Um filme é para sempre", de Ruy Castro. A Aplauso publicou uma pequena coletânea das críticas de Rubem Biáfora (que merecia um volume mais alentado).
Mas o que queria falar era mesmo do avanço que se verifica atualmente na oferta de livros sobre a arte do filme. O estudioso do cinema pode ter, agora, em português, uma biblioteca considerável sem a necessidade de importação de livros. E uma recomendação se faz aqui necessária: "Hitchcock/Truffaut", que saiu ano retrasado, em reedição, não é apenas uma aula sobre o cinema de Hitchcock, mas uma aula sobre o processo de criação no cinema. Essencial e imprescindível.
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
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