
Atualizada às 21h13 |
Maria Alice Rocha/Terra Magazine
A estilista Ma Ke em seu atelier em Cantão, China, em novembro de 2005
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Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)
Para quem ainda pensa que a China só oferece cópias ou produtos de carregação, um acontecimento marca definitivamente esta história. Nesta quinta-feira (03) na Semana da Alta Costura de Paris, será lançada a coleção Outono-Inverno 2008-09 de uma designer chinesa: Ma Ke.
Não é a primeira vez que Ma Ke desfila em Paris. Em fevereiro do ano passado ela já ganhou destaque quando apresentou sua coleção Wu Yong (algo como inútil, em mandarim) de modo performático na Semana do Prêt-a-Porter Feminino da capital francesa.
Na ocasião, sua inspiração no exército de terracota do imperador chinês Qin Shi Huang trouxe uma maneira inusitada de tratar as roupas: enterrá-las por um período de tempo e deixar que a terra (ou a natureza) desse a sua contribuição. O resultado foram roupas majestosamente sujas e rígidas.
Todo o processo foi filmado por ninguém menos que o premiado diretor Jia Zhang-Ke, gerando um interessante documentário, com o mesmo nome da coleção, a respeito do desenvolvimento de uma coleção de moda e da inserção da China da produção de roupas em nível mundial.
A diferença é que agora Ma Ke reaparece como convidada especial do seleto grupo que controla a alta costura no mundo como Christian Dior, Chanel, Christian Lacroix, Givenchy, Jean Paul Gaultier, Valentino, entre outros nomes de peso, e adotando o nome Wu Yong para a sua "maison".
Na verdade, o trabalho de Ma Ke é bastante sedimentado, tendo cerca de 60 lojas próprias em diversas cidades chinesas sob a marca Exception (exceção, em inglês) e Mixmind (algo como mente confusa, em inglês). Esta colunista que vos escreve teve a oportunidade de entrevistá-la em 2005, no seu atelier em Cantão, como parte das suas atividades de doutoramento. Naquela época Ma Ke já mencionava o seu projeto para conquistar a capital mundial da moda: Paris.
Sua estratégia: estudar profundamente os valores chineses. Para ela, as trocas entre oriente e ocidente tendem a se intensificar cada vez mais, e a filosofia e a herança oriental podem ajudar o mundo a melhorar. Neste começo de século 21, à medida que a influência ocidental materialista tende a se esgotar como modelo, cria-se a oportunidade para o alargamento do espaço para as idéias e necessidades espirituais, diz Ma Ke.
Por conta das suas declarações, a criadora já foi rotulada de anti-moda, o que não a faz temer o futuro. Ao contrário, apesar de nunca ter estudado no exterior, sua atitude é bastante próxima da escola belga de moda, a Academia de Arte da Antuérpia, que formou nomes como Dries Van Noten, Ann Demeulemeester e Martin Margiela.
Ma Ke ainda expressa o seu desejo em ver a China não ser lembrada apenas como o maior exportador de roupas do mundo, mas também como um celeiro de idéias.
Não por acaso, em maio passado o museu Victoria & Albert de Londres realizou mais um evento da série Fashion in Motion (moda em movimento, em inglês), tendo como atração a chinesa Ma Ke. A proposta da série é trazer exemplos vivos e pulsantes relacionados com moda, arte e design para desfilar entre as galerias que guardam um acervo riquíssimo.
Não por mera coincidência, o Victoria & Albert exibe no momento e até meados deste mês uma espetacular exposição totalmente dedicada ao design chinês. Todas as peças deste quebra-cabeça parecem se encaixar, e os preconceitos quanto à capacidade chinesa em emocionar, a ruir.
Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br
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