
Atualizada às 22h21 Antonio Corrêa de Lacerda
A inflação está em alta? Há risco de hiperinflação no Brasil? Essas são preocupações recorrentes, embora nem sempre justificadas. A quem interessa jogar tanta lenha na fogueira? A julgar pelo alarde, parece que a muita gente!
O IPCA (Índice de preços ao consumidor ampliado) é o indicador oficial da inflação no Brasil e o balizador das metas de inflação, definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) em 4,5% ao ano, podendo variar 2 pontos percentuais, para cima ou para baixo. É esse o parâmetro que o Banco Central (BC) leva em conta para conduzir a política monetária, principalmente a taxa básica de juros (Selic), que são revisadas nas reuniões periódicas do Comitê de Política Monetária (Copom).
Algumas das virtudes desse modelo são a transparência e previsibilidade, que logo já vai completar dez anos, revelando uma significativa estabilidade. O modelo foi criado para contemplar relativa flexibilidade para poder absorver os choques de custos exógenos, aqueles que independem de decisões domésticas. É o caso que vivemos agora com o aumento dos preços do petróleo e dos produtos agrícolas.
Um bom balizador para juros e as metas de inflação no Brasil são as expectativas do mercado. Uma medição dessas expectativas é o Boletim Semanal Focus, do Banco Central, que ausculta as projeções dos principais indicadores da economia, de cerca de cem bancos, consultorias e outras organizações.
Embora excessivamente enviesado pela opinião do mercado financeiro, trata-se de um indicador das expectativas médias, até mesmo pelo seu poder de formação de opinião. Na sua mais recente edição, O Focus indica uma expectativa média de inflação de 6,3% para 2008, 4,8% para 2009 e 4,5 para 2010. Confira em www.bcb.gov.br.
Ou seja, a se confirmar essa projeção, apenas em 2008, muito devido às pressões e choques internacionais de custos, superaremos o centro da meta, ainda sem ultrapassar, no entanto, o limite da banda superior de tolerância, cuja função é exatamente de dar flexibilidade para acomodar choques localizados de custos.
Medidas clássicas de combate à inflação como aumento de juros e aumento do superávit primário já foram tomadas pelo governo brasileiro. Outras poderão ainda vir, mediante necessidade. Mas, convém lembrar que demandam tempo para surtir efeito.
Também vale ressaltar que, no médio e longo prazos, inflação se combate mesmo é com ampliação da capacidade de oferta da economia. Daí a importância de que o aperto de juros, ou de crédito, se vier, seja o mais curto possível para não contaminar o ambiente para investimentos produtivos.
O desafio é preservar o controle da inflação, mas, sem prejudicar desnecessariamente o crescimento. Qualquer exagero na adoção de medidas de contenção representará um "tiro no pé" do crescimento e do apetite para a continuidade da elevação do investimento produtivo, única forma de garantir a ampliação da oferta, para além da demanda, a verdadeira forma de se combater a inflação de modo estrutural, e não apenas episódico e reativo.
A aceleração da inflação no Brasil tem gerado preocupações exageradas. Há fatores locais, mas o mundo vive uma fase de pressão inflacionária decorrente da incorporação de 200 milhões de novos consumidores ao ano que estimulam a demanda e também especulação com commodities no mercado financeiro.
A inflação mundial tem crescido. Os dados de doze meses acumulados até abril, considerando-se os índices de preços ao consumidor, os EUA tem 4,2%, a Região do Euro, 3,7%. O Brasil, com 5,6% de inflação denota um quadro sob relativo controle, comparativamente a outros países. Na América Latina, apenas o México (5,0%) e o Peru (5,4%), apresentam indicadores um pouco abaixo. Na média da região, é de 10,6%. O sempre elogiado Chile já tem 8,8% acumulado. A Argentina tem oficialmente 9%, mas há estimativas do mercado de que a inflação real é de cerca de 30%!
Dentre os BRICs, o Brasil também é o que apresenta a mais baixa taxa de inflação, seguido por China (7,7%), Índia (7,8%) e Rússia (15,1%).
Portanto, não há motivo para alarde. Tampouco para acomodação. É preciso sim agir, mas convém que se leve em conta que o quadro continua muito favorável ao Brasil. Dadas as condições macroeconômicas é possível controlar razoavelmente a inflação, sem gerar custos desnecessários ao incipiente crescimento econômico.
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