Atualizada às 08h50 |
Divulgação
Jeanne Moreau e Sami Frey na peça "Quartett", de Heiner Müller
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Deolinda Vilhena
De Paris
Verdadeiro ícone da cultura francesa e do cinema mundial, Jeanne Moreau comemora 80 anos de vida nesse ano de 2008 e 60 de carreira... opa, olha eu arrumando encrenca... "carreira" não... ela não gosta. Numa entrevista recente a jornalista cometeu o mesmo erro, e La Moreau prontamente corrigiu: "eu não faço carreira. Ser atriz, para mim, é uma vocação, uma ética, uma moral, uma maneira de viver. Eu lutei para ser atriz". Sou capaz de ouvi-la dizendo isso, com sua voz grave, cuja rouquidão é acentuada pelo cigarro, companhia inseparável dessa Dama que, a cada entrevista, faz respeitar o seu estatuto de musa do cinema francês.
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A França presta a essa grande dama todas as homenagens devidas. Aliás, nesse capítulo a França excede como excede em quase tudo na área cultural. Quem dera no nosso Brasil os grandes valores tivessem o mesmo reconhecimento.
Quando penso na exposição e na retrospectiva em homenagem a Jeanne Moreau, na Cinemateca de Paris, em janeiro desse ano, com a presença de Christine Albanel, ministra da Cultura da França e de toda a classe artística, não posso deixar de me lembrar de Bibi Ferreira em 1991 comemorando o seu Jubileu de Ouro.
Para montar "Bibi in Concert", espetáculo recusado por mais de 50 empresas, e para o qual o ministério da Cultura não mexeu uma palha, Bibi bancou do próprio bolso a sua festa. Só depois do reconhecimento do público, que lotava o Teatro João Caetano a ponto de o mesmo tornar-se pequeno com seus mais de 1200 lugares, obrigando à mudança para o Canecão, o "finado" Banco Nacional e depois o Banco do Brasil decidiram que o espetáculo era digno de um dinheirinho e, a maior atriz do Brasil, digna de uma festa ao completar meio século de trabalho. Sem falar no centenário de nascimento de Procópio... nem um selo para comemorar a data o governo autorizou!
Voltemos à civilização. Aliás aqui os grandes da nação são levados para o Panthéon depois da morte, mas muitos deles conseguem ser reconhecidos em vida mesmo...
A sedução da voz de Jeanne Moreau a
serviço da cólera fria de Heiner Müller
Um texto de David Kessler no programa de "Quartett" conta que nos anos 80, Heine Müller, numa conversa com Jean Jourdheuil, seu tradutor e grande divulgador de sua obra, confessa que gostaria muito de ver um dia Jeanne Moreau interpretar a Marquise de Merteuil, um dos personagens e "Quartett".
Um desejo que ficou guardado durante anos até o dia em que Jourdheuil foi incumbido de organizar uma homenagem a Müller para France Culture. Nasceu então a idéia de fazer uma leitura dessa peça "vertiginosa, pensada como um incessante jogo de papéis, uma estranha troca entre masculino e feminino", com Jeanne Moreau e Sami Frey, dois monstros sagrados do teatro e do cinema, duas "bêtes de scène" como se diz por aqui. O local escolhido para a primeira apresentação foi nada mais nada menos que a Cour d'Honneur do Palácio dos Papas em Avignon, a mesma que em 1947, ano do primeiro festival, havia recebido a jovem Jeanne Moreau com as peças "L'Histoire de Tobie et Sara", de Paul Claudel, "La Terrasse de midi", de Maurice Clavel, e "La Tragédie du Roi Richard II", de Shakespeare. Aliás, a carreira de Dame Moreau tem fortes ligações com Avignon pois voltaria outras tantas vezes para apresentar "Le Cid", de Corneille, ao lado do grande Gérard Philipe, em 1951; "Le Prince de Hombourg", de Kleist, em 1951 e 1952; "Lorenzaccio", de Alfred de Musset, em 1952, e "La Célestine", de Fernando de Rojas em 1989.
Sempre quis ver Jeanne Moreau em cena, tenho por ela uma afeição particular, gosto acima de tudo da hombridade com que encara seu trabalho: "sou completamente autodidata, tudo o que sei devo ao cinema. Digo que o cinema é uma arte e estou ao seu serviço. É um artesanato. Orson (Welles) gostava muito desta idéia, é amor, não é uma profissão". Ela integra a minha famosa lista dos que mantém uma coerência na vida e na arte, diferente da média que faz a linha "faça o que eu mando, mas não faça o que eu faço".
Infelizmente não pude vê-la em Avignon 2007 (como não irei a Avignon 2008 que abre as portas da sua 62.ª edição hoje) por isso fiquei tão feliz quando vi que este ano ela faria uma temporada no Théâtre de la Madeleine e justo no período que estaria em Paris...
Tive a oportunidade de ver duas montagens de "Quartett", uma no Brasil, dirigida por Gerald Thomas, com Tônia Carrero - divina! - e Sérgio Britto, lá na Casa de Cultura Laura Alvim, meados dos anos 80. E, mais recentemente vi aqui em Paris, no Théâtre de l'Odéon, a versão de Bob Wilson com Isabelle Huppert e Ariel Garcia Valdès, ator fetiche de Georges Lavaudant. Confesso que prefiro de longe a leitura de Moreau-Frey, a escolha por um tom sutil de confissão sussurrada dá a impressão de que eles nos falam em particular e estes ícones do cinema e do palco têm em comum a capacidade de sedução na voz, a de Jeanne Moreau rouca e ligeiramente velada, a de Sami Frey, belo homem e excelente ator que até então desconhecia, séria e profunda. Vozes cujo material está a serviço da expressão das palavras tenras e da abundância do sentimento apaixonado.
No programa da peça, a reprodução de uma declaração de Müller me impressiona: "Quartett é uma reação ao problema do terrorismo, com um conteúdo, um material, que superficialmente não tem nada a ver com isso. O suporte, 'Les liaisons dangereuses' de Laclos, eu nunca li inteiro. Minha principal fonte foi o prefácio de Heinrich Mann para a tradução feita por ele".
Não satisfeita com o fato de ter visto uma bela leitura, com uma bela prestação de dois grandes atores, ao sair do teatro decido que uma vez tiete, sempre tiete, e quis encontrar Jeanne Moreau. Ultimamente tenho um pouco de medo disso, afinal nada obriga um grande artista a ser um grande ser humano, longe disso...
Na porta de serviço do Théâtre de la Madeleine, umas vinte/trinta pessoas esperavam pela saída de Dame Moreau. Estacionado ao lado, um táxi estava à sua espera... Poucos minutos depois sua voz se fez ouvir por trás da pesada porta... quando ela aparece, classuda como ninguém, cigarro entre os dedos e gentil a mais não poder com cada uma das pessoas que lá estavam, inclusive comigo, tive a certeza que só os grandes são delicados e generosos... o resto é apenas um equívoco... Aos 80 anos de idade, após uma sessão de trabalho, um dos mais respeitados nomes do cinema francês (e do teatro!) atendeu pacientemente, educadamente, em pé, na beira da calçada de uma rua do 8ème arrondissement de Paris, fãs de todas as idades, demonstrando um carinho especial pelas "velhinhas" de sua idade, as quais beijava as mãos em sinal de respeito. Impossível não pensar naquela corja de Bozós que após uma novela ou uma edição do BBB pensa que é alguém... natural para quem vive entre duas culturas tão díspares.
Aviso aos navegantes: "Quartett", cuja temporada no Théâtre de La Madeleine terminou no final de semana passado, fará uma turnê mundial que deverá passar pelo Brasil em 2009, como contou a esta colunista a própria Jeanne Moreau. Oportunidade única e imperdível de ver uma GRANDE atriz em cena e, para os incautos, a possibilidade de uma aula de humildade e profissionalismo.
Para quem não conhece Dame Jeanne Moreau
Jeanne Moreau deu seus primeiros passos como atriz na Comédie-Française, mas trocou o primeiro teatro da França pela aventura ímpar do Teatro Nacional Popular de Jean Vilar, seu gosto pela liberdade não combinava com as regras e a disciplina da Maison de Molière. Na época foi muito criticada pela escolha e lembra com carinho da carta de incentivo que recebeu de Louis Jouvet parabenizando-a por sua escolha.
Em 1956, quando fazia "Gata em teto de zinco quente" encontra Louis Malle. O encontro marcaria o início de longa uma odisséia cinematográfica que começa por "Ascensor para o cadafalso", passando por "Os amantes", "Jules e Jim", "Le Journal d'une femme de chambre", de Luís Buñuel, e "O Processo", de Orson Welles. Mas foi dirigida por Peter Brook em "Moderato Cantabile" (1960), que conquistou o prêmio do Festival de Cannes, que a tornaria mundialmente famosa.
Atriz fetiche de Orson Welles, que a considerava "a melhor atriz do mundo", Jeanne Moreau filma com os grandes do cinema: Demy, Renoir, Losey, Antonioni, Duras, Kazan... A partir dos anos 60 se junta à nova geração de diretores, entre os quais, Blier, Téchiné, Wenders, Angelopoulos, ou Fassbinder. Não satisfeita, resolve se aventurar do outro lado das câmeras. É bem recebida pela crítica com seus filmes "Lumière" (1975) e "L'Adolescente" (1979) no qual dirige ninguém menos que Simone Signoret.
Jeanne Moreau impregnou com o seu talento personagens indeléveis. Talvez por isso sua Catherine de "Jules et Jim" tenha sido uma das minhas paixões de adolescente que não gostava - continuo não gostando - de cinema... Aposto que entre meus 17 leitores, Xexéo incluso, todos conhecem a canção do filme, "Le Tourbillon". Tenho o disco até hoje e vira e mexe estou cantarolando "on s'est connu on s'est reconnu/on s'est perdu d'vue on s'est reperdu de vue/ on s'est retrouvé on s'est rechauffé/ Puis on s'est separe", assim como a trilha sonora de "Les Demoiselles de Rochefort" a música de "Jules et Jim" me acompanha há décadas. Freud talvez explique o fato de todos os filmes que marcaram minha vida terem em comum o fato de serem filmes franceses...
Sua carreira é das mais premiadas ao longo de inúmeros festivais (Leão de Ouro em Veneza em 1992, Tributo no Festival de Los Angeles em 1998, Donostia no Festival San Sebastian em 1998, Urso de ouro em Berlim em 2000). No teatro não foi diferente. Conquistou em 1988 o prêmio Molière pela peça "A balada de Zerline" (1988), montada no Brasil por Nathalia Timberg no começo dos anos 90.
Na França, que a adora, foi laureada com o César de Melhor atriz pelo filme "La Vieille qui marchait dans la mer" de Laurent Heynemann em 1992 e suas experiências freqüentes na televisão a aproximam ainda mais do público, além de ser o verdadeiro talismã da diretora Josée Dayan com quem fez sucessos inesquecíveis como "Les Parents terribles", "Les Rois maudits" e "Sous les vents de Neptune".
Seus filmes mais recentes são "Le Temps qui reste" (2005), de François Ozon, "Roméo et Juliette" (2006), de Yves Desgagnés, "Trois minutes", de Theo Angelopoulos, fragmento de "Chacun son cinema", apresentado em Cannes ano passado. Mais recentemente filmou "Désengagement" do cineasta israelense Amos Gitaï.
PS: Eu sei que essa coluna fala sobre teatro, mas a maior emoção dessa semana veio da vida real e não dos palcos. Impossível não pensar na libertação de Ingrid Betancourt após uma temporada de mais de 6 anos no inferno. Vivi 5 anos e meio em Paris, acompanhando passo a passo as manifestações pró-libertação de Ingrid Betancourt. Assinei todos os abaixo-assinados, participei de diversas manifestações, e hoje, ela e seus filhos particularmente são meus próximos sem que nunca os tenha encontrado e é por isso que mesmo tendo um colóquio no final da tarde no Théâtre de la Ville, aberto por ninguém menos que Anne Ubersfeld, serei obrigada a conciliar todas as minhas atividades de maneira a poder celebrar com amigos de todas as nacionalidades, a chegada de Ingrid e sua família à França. Quero estar presente quando ela mesma tirar da fachada do Hôtel de Ville, sede da prefeitura de Paris, cidade da qual ela é cidadã honorária desde 2002, o seu retrato que lá esteve lembrando a todos os dias que ela passou em cativeiro na selva colombiana... Viva a Colômbia sem as Farc!
Fale com Deolinda Vilhena: deolindavilhena@terra.com.br
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