
Atualizada às 22h53 Lecticia Cavalcanti
Do Recife (PE)
Não tem sido fácil. Ando procurando, sem sucesso, um loureiro pra plantar em Gravatá (serra pernambucana). Junto a outras árvores que, sem falsa modéstia, se deram muito bem no lugar - acerola, araçá, banana, caqui, cajá, caju, carambola, coco, goiaba, graviola, jabuticaba, jambo (rosa, branco e do Pará), laranja-baía sem caroço (que trouxemos de Portugal), maçã (verde e vermelha), manga, melancia, pêra, pinha, pitanga, romã, tangerina, umbu, uva. Mas, haverá o leitor de perguntar - e porque um loureiro? Vou logo respondendo que a folha de louro, usada ao natural, em pó ou seca (com perfume mais intenso) é ingrediente indispensável em toda cozinha. Vai bem com quase tudo: bacalhau, carnes (boi, bode, carneiro, porco), peixes; conservas, cremes, marinadas, molhos, sopas. E feijoada também, claro.
Até na medicina popular; que é digestivo, baixa a febre e acalma dores reumáticas. Só não se presta mais ao uso que tinha desde a Grécia, de eficiente protetor de raios. O templo de Apolo, não por acaso era todo coberto com folhas de louro para proteger contra doenças, bruxarias e esses raios. Uma superstição que perdurou até a Idade Média. Pierre Corneille, por exemplo, um dos fundadores da tragédia francesa, cantava loas em louvor do "Louro, sagrado ramo que se quer reduzir a pó,/ Vós que nos protegeis dos raios...". Aliás, nossos políticos bem que poderiam se inspirar nele. Porque seus personagens exaltam sentimentos nobres dos homens (Cid), ensinam que políticos não estão acima da lei (Horácio) e que nunca um governante deve usar seu prestígio para beneficio próprio (Cinna).
Voltando ao loureiro (Laurus nobilis L.), trata-se de árvore nativa da Ásia, que logo se espalhou por todo o Mediterrâneo. Tem porte médio, entre 5 e 10 metros, com folhas bem lustrosas que podem ser usadas frescas ou secas. Para todos os gostos e quase todos os fins. Atletas, heróis gregos e imperadores romanos usaram coroas de louro - que simbolizavam triunfo, glória e fama. Ovídio, em sua "Metamorfoses", mostra como a ninfa Dafne foi transformada num loureiro para fugir às tentações de Apolo - por conta disso louro, em grego, é Dafne. Ramos de louro eram lançados ao fogo, para ajudar a prever o futuro - bom e promissor, caso as chamas desse fogo fossem brilhantes, altas e claras. Na Idade Média, foi usado também para coroar homens sábios e bons estudantes. Suas folhas (em latim laurus) acabaram significando vitória - daí vindo laureado. Dos frutos (em latim bacca), veio bacca laurea - daí, em francês, baccalauréat, que corresponde ao bacharelado.
Por mera coincidência, Bachelier é nome do botânico a quem coube o mérito de trazer, de Constantinopla, o primeiro pé dessa árvore plantado em Paris (1615). A vida, às vezes, imita mesmo a arte. Assim, caso algum leitor saiba onde posso encontrar um loureiro, por favor avise. E desde já prometo cuidado grande com ele - que, segundo outra velha superstição, quando loureiro morre é sinal de desgraça grande. E desgraça é praga que ninguém quer.
Ingredientes:
10 folhas de louro
1 galinha (de preferência de capoeira)
250 ml de vinho branco seco
1 cebola média picada
2 dentes de alho em fatias
Sal
Pimenta
20 ml de azeite
Tiras de bacon
500 ml de leite
1 colher de sopa de farinha de trigo
125 ml de leite
2 gemas
Preparo:
- Tempere, de véspera, a galinha com as folhas de louro, vinho, cebola, alho, sal, pimenta.
- Frite o bacon e na mesma panela refogue a galinha no azeite até que doure. Junte o vinho com os temperos e 500 ml de leite. Deixe cozinhar, até que a galinha fique bem macia. Separe caldo e galinha.
- Coloque a galinha em um refratário. E o caldo, coe e coloque em panela, junto com farinha de trigo dissolvida em 125 ml de leite e gemas batidas. Deixe no fogo até que fique um creme. Despeje o creme sobre a galinha, enfeite com as folhas de louro e, na hora de servir, leve ao forno médio por 20 minutos.
Fale com Lecticia Cavalcanti: lecticia.cavalcanti@terra.com.br
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