
Atualizada às 11h20 |
Luciano Borges/Terra Magazine
Marcos Senna, jogador chave do esquema de Luis Aragonés, com medalha de ouro após título da Euro
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Luciano Borges
De São Paulo
Marcos Senna da Silva, é do Brasil. E da Espanha. O volante titular do time espanhol, campeão da Eurocopa 2008, se diz um homem privilegiado. Afinal, ele chega aos 32 anos com o respeito dos europeus, com uma medalha de ouro que nenhum outro brasileiro tem e com a certeza de que está no auge da carreira.
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Ela começou na equipe do Rio Branco, de Americana. Em 1999, Senna foi contratado pelo Corinthians e fez parte - mas como reserva - do time bicampeão paulista, campeão Brasileiro e primeiro vencedor do Mundial de Clubes da Fifa, em 2000. Mas, por veto do técnico Vanderlei Luxemburgo, não permaneceu na terceira temporada.
Depois de passar pelo Juventude de Caxias do Sul (RS), o atleta nascido na zona oeste de São Paulo, se transferiu para o São Caetano. Em 2001, liderou o meio-campo do time vice-campeão da Libertadores da América.
Há seis anos, Marcos Senna foi contratado pelo Villareal, na Espanha. É referência no time que vem evoluindo no Campeonato Nacional (terminou em segundo lugar na temporada 2007/2008) e nos torneios europeus (semifinalista da Copa da Uefa-2004 e da Liga dos Campeões-2006).
O técnico da Fúria, Luis Aragonés, foi o responsável pela presença de Marcos Senna na seleção da Espanha. Em 2006, ele propôs ao brasileiro que conseguisse a cidadania espanhola, porque queria convocá-lo. Há uma semana, a parceria Aragonés/Marcos Senna chegou ao auge. A Espanha bateu a Alemanha (1 x 0) na fina da Euro 2008 e o - agora - volante espanhol foi escolhido o melhor do torneio na posição.
Marcos Senna comemorou o título em Madrid. Ficou maravilhado com a festa dos espanhóis. "Foi impressionante. Sabia que eles esperavam por isso há 40 anos, mas a recepção foi inesquecível". Na terça-feira, ele tratou um dente, jantou com o presidente do Villarreal, falou sobre esticar o atual contrato em mais dois anos e viajou para o Brasil.
Na quarta-feira, comendo pizza com a família, quebrou de novo o dente da frente. Por isso, quando falou em uma entrevista coletiva num hotel de São Paulo, sempre lembrava o incidente na hora de sorrir. "Foi um filé duro que minha mulher me deu", brincou com Elisângela, com quem é casado e tem um filho.
Foi ela quem lembrou Marcos Senna de levar a medalha de ouro da Euro 2008 para ser fotografado na coletiva. Antes de entrar ao vivo na TV Bandeirantes, ele ainda comentou com o repórter Fernando Fernandes que esta conquista era a prova de que valeu não guardar ressentimentos e tocar o vida em frente. "Esta é a prova de que a vida dá volta", disse.
Senna nunca se desligou do futebol brasileiro. Pela televisão, ele acompanha os jogos da seleção do Brasil, que - pelo jeito - não percebeu o talento encontrado pelo espanhol Luis Aragonés. Senna pede calma ao torcedor brasileiro e lembra que em 2002, o selecionado andou mal nas eliminatórias e conseguiu o título no Mundial da Ásia.
O volante também conta, nesta entrevista a Terra Magazine, que se tornou um "vira casaca" contumaz, torcendo para times diferentes em cada campeonato no Brasil que acompanha. A seguir, a íntegra da conversa com o atleta dispensado pelo Corinthians, não reconhecido pelos técnicos do selecionado brasileiro e grande ídolo da Espanha.
Terra Magazine - Para qual time você torcia quando era criança?
Marcos Senna - Torcia para o Santos, mas isso só quando era criança. Hoje, como os espanhóis costumam dizer, "me dá igual". Tanto faz. Eu acompanho o futebol brasileiro e, engraçado, torço para times diferentes a cada ano. Torci para o Palmeiras ganhar este Campeonato Paulista. Estou torcendo para o Flamengo ser campeão brasileiro. O Corinthians, no ano passado, foi tão mal que me deu pena.
O que você espera do Corinthians na Série B este ano?
Ah, o Corinthians não vai ficar muito tempo na Série B. Só não sobe este ano se der muito azar. Futebol anda muito equilibrado. É preciso atenção. Depois, eu achei muito bom que o Corinthians tenha caído porque serve de exemplo para os dirigentes não cometerem nunca mais os erros que cometeram. Depois (com ar de brincadeira), o time ainda vai ganhar um título que o Palmeiras tem e o Corinthians não tem (risos).
Você tem mágoa por ter sido dispensado pelo Corinthians?
Não, de maneira alguma. Quando joguei lá (1999/2000), o Corinthians tinha um timaço. Tinha muito cara bom por lá. Em 2000, eu estava para renovar contrato quando o Vanderlei Luxemburgo (hoje, técnico do Palmeiras) chegou. Ele apareceu com uma lista e eu me vi perguntando: "Lista, que lista é esta?". Eu não estava nela e saí. Mas não guardo mágoa. Consegui um vice-campeonato da Libertadores em 2002 com o São Caetano.
"O Corinthians não vai ficar muito tempo na Série B. Só não sobe este ano se der muito azar"
O fato de você não ter jogado mais tempo num time grande pode ter prejudicado sua carreira na seleção brasileira?
Pode ser. Acho que tudo tem seu tempo. No Corinthians, eu não era titular absoluto. Mas para chegar à seleção precisaria ter jogado mais tempo, ser reconhecido no país. Na Espanha, consegui crescer com o Villarreal, estou há seis anos lá. Na seleção brasileira ia ser difícil eu debutar.
"Imagine se eu tivesse recusado jogar pela Espanha. Hoje, estaria arrependido"
Foi difícil aceitar o convite do técnico Luis Aragonés?
Eu já vinha jogando bem no Villarreal. Nesta temporada, terminamos como vice-campeões do Espanhol. Foi aí que o Aragonés me convidou, Eu pensei: "Não sei se vou ter uma oportunidade na seleção brasileira. Lá se pode montar três times com grandes jogadores". Acho que no meu lugar, qualquer jogador aceitaria. Fico contente por ter topado esta proposta. Imagine se eu tivesse recusado jogar pela Espanha. Hoje, estaria arrependido.
Você vai fazer 32 anos no dia 17. O que pretende fazer na carreira? Quer continuar no Villarreal?
Na terça-feira, em Valência, eu jantei com o presidente do clube, Fernando Roig Alfonso, e disse a ele - brincando - que não me deixe sair. Quero ficar no clube. Sei que apareceram alguns boatos de outras equipes, mas minha intenção é permanecer no Villarreal. Meu procurador, Eli Coimbra, vai conversar com eles. A idéia é estender meu contrato em mais dois anos. O atual termina em 2010.
Você virou o "Rei de Villarreal"?
Rei, eu não sei. Mas um pouquinho mais conhecido. As pessoas lá sempre me trataram muito bem e acho que vão continuar a me tratar bem. Bom, lá é minha casa, onde me sinto bem, num clube que me abriu as portas para a Europa. Eu admiro muito o Villarreal. A estrutura é muito boa e sempre fui recebido com carinho. Na verdade, acho que vou torcer pelo clube pro resto da vida.
Quais as chances do Villarreal no próximo Campeonato Espanhol?
São boas. O time está crescendo. Fomos muito bem na temporada passada e acho que podemos até brigar pelo título. Além disso tem a Liga dos Campeões e nosso clube já consegue atrair jogadores de peso. Eles se interessam pelo Villarreal e isto é muito bom.
Voltando à seleção espanhola. Depois desta conquista da Euro 2008, como você vê a Espanha nas eliminatórias e na Copa do Mundo de 2010?
Vejo um grupo com mais confiança, mais alegria, depois de um título como esse. Foi um jejum de 44 anos. Por isso, acredito que não só os jogadores, mas também o povo espanhol está mais confiante agora.
"Virou até brincadeira do zagueiro Marchena. Depois de cada partida ele vinha e ficava dizendo: 'Muito obrigado, muito obrigado mesmo, muito obrigado'"
Qual seu papel no time, dentro e fora de campo. Você é líder?
Eu sempre fui uma pessoa muito tranqüila. Sou muito brincalhão, mas não tenho aquela coisa de capitão, que se impõe fora de campo. Mas dentro de campo, quero ser protagonista jogando com simplicidade. Aos poucos, os jogadores da seleção espanhola foram percebendo que eu tenho personalidade, quero a bola sempre e jogo sério. No começo, algumas pessoas diziam que os caras não me passavam a bola. Nada disso. Quem viu a Euro percebeu que eles confiam e tocam a bola pra mim. Depois, no final de cada jogo, eles vinham me elogiar. Virou até brincadeira do zagueiro Marchena. Depois de cada partida ele vinha e ficava dizendo: "Muito obrigado, muito obrigado mesmo, muito obrigado". (risos)
Você é daquele que chamam a atenção dos companheiros com palavrões?
Ah sou.
Em espanhol?
É. Eles usam muito duas coisas: "p... madre" e "car....". E eu falo né. Contra a Alemanha, na final, os caras começaram em cima da gente, naquele ritmo louco, e eu fui ficando com raiva, pensando que a gente era melhor do que eles, mas estávamos deixando de tocar a bola. Uma hora, o goleiro Casillas começou só a repor a bola com chutão. Aí cheguei nele e falei mesmo: "Casillas, p... madre, car...., vamos sair jogando, tocando a bola". Pô o cara é o capitão da Espanha. O Fabregas também ouviu umas broncas porque estava esticando demais a bola. Mas sempre numa boa, para dar certo. Este time da Espanha é um timaço, de uma qualidade impressionante. A bola sempre chega redondinha.
E o curioso é que você começou na seleção espanhola já num torneio como a Euro 2008. Foi um desafio e tanto.
Mas eu gosto. Sabe que teve uma hora em que a gente poderia enfrentar a
Turquia ou a Alemanha. Tinha gente torcendo para pegar os turcos e eu queria os alemães. Porque se a gente ganha da Turquia, ganhou porque era a Turquia. Mas se perde, perdeu para a Turquia. Eu prefiro que venha o chumbo grosso logo. É melhor encarar uma Itália, França, do que passar por testes menos pesados.
"Aí cheguei no Casillas e falei mesmo: 'Casillas, p... madre, car...., vamos sair jogando, tocando a bola'. Pô, o cara é o capitão da Espanha"
A Espanha foi o time com alto aproveitamento nos passes. Este foi o segredo da conquista do título?
Foi. Trocar bem os passes é uma arma. O Aragonés tem uma frase que ele usa com a gente e é perfeita: "O dono da bola é o dono do jogo". Isso não quer dizer que a vitória está garantida, mas é um caminho eficiente para chegar lá. Veja contra a Rússia. No primeiro jogo, os caras correram como loucos. Nós jogamos na proposta de ficar um pouco mais fechados e ir desgastando os caras. Fizemos um gol no contra-ataque e eles foram morrendo em campo. Ganhamos de 4 a 1. Na semifinal, eles puseram correria de novo. Aquele lateral esquerdo deles voava. Mas no fim, estava mortinho de tanto correr atrás da bola. Metemos 3 a 0.
A Alemanha também morreu no segundo tempo da decisão.
É, eles começaram de um jeito que me deixou até com raiva. Depois que passamos a impor nosso jogo, mudar o lado do campo, tocar a bola, eles foram cansando. No fim dava até para fazer mais gols.
Por quê você diz que a partida contra a Itália foi a mais difícil?
Para você ter uma idéia, quando o jogo acabou eu liguei para a minha mulher e quase não consegui falar de tanto cansaço. Para a Espanha, era uma questão de vida ou morte passar pela Itália. Porque tinha esta história se ser eliminada pelos italianos em outros torneios. E eles jogando daquele jeito deles, lá atrás, esperando para dar o contra-ataque. Mas depois que ganhamos deles, senti que a Espanha estava no caminho do título.
"Se a Espanha não é a melhor do mundo, está entre as melhores"
A seleção espanhola é candidato ao título do Mundial de 2010?
A gente tem que aproveitar o momento. Ganhamos um título merecido. Ao contrário de Portugal e Holanda que começaram a Euro muito bem e pararam no meio do caminho, a gente soube manter o nível. O grupo tem muita qualidade. Eu diria que se a Espanha não é a melhor do mundo, está entre as melhores.
Você se diz um cara privilegiado. Por quê?
Porque tenho a dupla nacionalidade, por jogar pela seleção espanhola e ganhar este título. E também por ser brasileiro e poder desfrutar deste país maravilhoso. Para mim, o Brasil é minha mãe e a Espanha é meu pai. Vou fazer 32 anos, quero jogar até os 36 no Villarreal e depois encerrar a carreira por aqui. Talvez passe por um time grande, mas é certo que quero ainda jogar pelo Rio Branco.
Você está sofrendo muito com a seleção brasileira?
Olha, a seleção brasileira não está fazendo o melhor futebol. Se você olhar a tabela da classificação (das eliminatórias sul-americanas), ela não está no lugar onde deveria estar. Dói quando vejo a Argentina lá em cima e o Brasil ali no meio. O Brasil sempre tem que estar um escalão acima da Argentina.
"Dói quando vejo a Argentina lá em cima e o Brasil ali no meio. O Brasil sempre tem que estar um escalão acima da Argentina"
Que conselho você daria para a seleção?
Quem sou eu para dar conselhos para a seleção do Brasil. Acho que é só o brasileiro não perder seu jeito de jogar. Porque lá fora, todos respeitam isso. Nosso técnico (Luis Aragonés) tem uma admiração enorme pela seleção brasileira. Toda vez que ele pede uma coisa, usa o Brasil como exemplo.
A desenvoltura como a Espanha trocou passes e buscou o ataque na Euro pode servir de exemplo para o Brasil?
Olha, o futebol brasileiro é tão rico que tem jogadores capazes de tocar a bola com leveza, velocidade, mas também tem atletas que têm força, vão para o choque. O torcedor brasileiro pode ficar tranqüilo. Nas eliminatórias para o Mundial de 2002 foi meio parecido. O Brasil sofreu para se classificar e depois se tornou campeão. Isso vai passar.
Está faltando o Marcos Senna naquele time?
Acho que não. O Brasil tem uma quantidade grande de jogadores e eu sei que vão dar a volta por cima e logo vão superar tudo isso.
Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br
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