
Atualizada às 22h31 Alberto Fonseca
De Londres
Duas formigas filósofas encontram-se, na fila para pegar o próximo grão de areia para o formigueiro novo, que está em construção.
Uma diz à outra:
- Resta-me a sensação de inutilidade da vida, nesta fila para colher um grão de areia.
- E precisava, ela (a vida), ser útil? - diz a segunda.
- Sim, claro. Mas, para ser útil, era preciso ter um objetivo. Um objetivo nobre, digo. Não a estúpida construção de mais um formigueiro que será derrubado, logo depois, por um dos humanos que passarem por aqui.
- Ah, eles, sim, os seres humanos, podem perseguir objetivos maiores na vida. Podem dedicar-se à busca do belo e do bom, por exemplo.
- Verdade. - responde a primeira. Mas, os seres humanos, você sabe muito bem, vivem desperdiçando seu precioso tempo debatendo-se por dinheiro, prestígio social, mais ou menos impostos, saúde, paz universal, casa própria...
- ...conta no banco, carro do ano, férias na Europa e essas baboseiras todas!
- Além disso, eles sempre querem que as pessoas a seu redor lhes dêem algo: reconhecimento, segurança, legitimação.
- Não se contentam em estar bem com eles próprios, eis o problema. Não pensam que essas coisas realmente não lhes faria falta, se conseguissem deixar de lado suas vontades e vaidades, concentrando-se no que é realmente importante na vida.
- Ah, mas há coisas belas. Veja como cuidam de seus filhos. Quando nascem os bêbês, preocupam-se em abrigá-los, alimentá-los, mantê-los aquecidos. É comovedor.
- Olha, olha: as formigas da guarda estão anunciando uma ameaça de pisada humana, corra, corra pra cá!
...
- Ufa, passou. Quase fomos esmagadas dessa vez.
- Por que você não usa pontos de exclamação em suas falas?
- Tenho um problema com os pontos de exclamação. Não os detesto, veja bem, apenas sou indiferente a eles. Às vezes, procuro usá-los, para dar alguma ênfase a certas idéias, mas a ênfase é um processo em que você interfere no modo como o seu interlocutor recebe a mensagem. Ou seja, uma forma de dirigir a atenção dele ao que VOCÊ acha importante. E eu não gosto de nenhum tipo de dirigismo.
- Bem, isso não importa. O importante é que estamos aqui, vivas, há um belo sol... o entusiasmo com a vida é importante.
- Concordo, é melhor estar aqui nessa fila idiota do que no estômago de algum tamanduá-bandeira.
- Mudando de assunto, você tem escrito algo?
- Sim estou agora escrevendo um livro em que sou duas formigas. Uma para quem o mundo é fácil e bonito; outra para quem ele é difícil, atolado, às vezes bastante feio. Sou essas duas. No livro, cada capítulo é vivido por uma delas.
- Deve ser bem confuso, escrever assim.
- Não. É só convocar a formiga-criança que existe em mim para um capítulo, depois a formiga-adulta para o seguinte.
- De minha parte, meu novo livro vai chamar-se "Manual de Instruções para Jovens Formigas Entenderem Tudo na Vida". O motivo pelo qual eu o escrevo é que eu entendo coisas do mundo que as jovens formigas de hoje não entendem. Já fiz vários testes: há formigas inteligentes, nessas novas gerações, mas elas não sabem pensar como eu sei, não viveram o que eu vivi e não se interessam pelos livros que me interesso. Portanto, nunca aprenderiam o que aprenderão no meu livro se eu não o escrevesse.
...
Ao que a primeira formiga, suspirando, resolve encerrar a conversa, pois está chegando seu momento de carregar o pesadíssimo grão de areia ao topo do formigueiro:
- Parece que está muito bem. As jovens formigas do mundo de hoje ficarão muito agradecidas. Desculpe, o papo está ótimo, mas, como você vê, tenho de pegar agora o meu grão.
- Sim e em seguida será a minha vez de tomar a carga brutal. Mas o que é mesmo que estamos fazendo aqui, recolhendo grãos de areia para a construção de um formigueiro que logo será destruído, como todos sabem?
- Você tem razão. Logo ele desaparecerá e teremos de recomeçar todo esse trabalho. A mim, me agradaria muito mais se pudéssemos passar nossas horas sentados no Starbucks da esquina, tomando um Caffè Latte e discutindo filosofia.
- Qual o quê... No reino das formigas não há Starbucks, nem Caffè Latte, infelizmente, querida amiga.
- Mas há filosofia, que é o que interessa. E há também os grãos de areia que carregamos em nossos dias de trabalho, penosamente, montanha acima. Para depois voltarmos abaixo para buscar novos grãos. Assim será, pela eternidade afora, pelo fio de nossas vidas... até que um dia uma pisada humana nos leve daqui.
Terra Magazine