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Segunda, 7 de julho de 2008, 12h26 Atualizada às 12h26

Ingrid, Mandela e o protagonista ausente

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Na literatura há uma opção narrativa que ausenta a personagem principal e - sem que a pessoa apareça, interaja com as demais (e até com o seu antagonista, quando houver; não se enganem, sempre há) - é a sua existência o principal elemento de organização da trama.

É inevitável não deixar de pensar em Deus, numa perspectiva dessas. Não é de graça o sucesso do texto "Esperando Godot", do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, Prêmio Nobel de literatura em 1969. Infelizmente - embora, aqui, meus escritos mais polêmicos, segundo o número de e-mails recebidos, tenham sido os que se relacionaram à religião - não será esse o foco.

Por razões óbvias, a libertação de Ingrid Betancourt Pulecio na semana passada - junto com o megaconcerto no final de junho em Londres, o 46664, em homenagem a Nelson Mandela -, de súbito e de novo, me trouxe a importância dos protagonistas ocultos. O cenário parisiense se ocupou por diversas vezes da sua figura incomum para ebulir e também, num contexto de novela da vida privada à custa da autopromoção política, mais recentemente, o presidente francês Nicolas Sarkozy.

No pacto republicano está dito que todo poder emana do povo. O povo não é personagem, é uma convenção retórica só plausível como reação política frágil em época de eleições. Na ficção, o povo não chega a repercutir, não tem agudez, não tem unidade, sequer é a personagem ausente; mas, ressalto, é paisagem.

Aqui está o ponto: qual o custo de ser paisagem. Sigo a dissociar.

Na maturidade republicana, a condução orçamentária é a prova definitiva de seriedade. Se o governo barganha impunemente com os créditos e dotações do orçamento, sem controle, sem resistência cidadã imediata, não há de se falar em conduta legítima, em gestão fiscal responsável. Num quadro desses, a culpa é tanto do Executivo quanto do Parlamento.

Um dos protagonistas ausentes da literatura universal (mas que surge ao final; será que estou forçando?) é o Rei Ricardo Coração de Leão na história "Robin Hood". O grande antagonista é o Príncipe João, que depois se tornaria o Rei João Sem Terra, aquele que em 1215 foi forçado a assinar a Carta Magna, a primeira grande referência de estatuto limitador das voluntariedades dos governantes na história britânica e ocidental.

As tramas orçamentárias são verdadeiras tragicomédias porque quem paga, com sua frustração, seu desencanto e com a própria vida - se considerarmos o número de pessoas que morrem nas filas do SUS por falta de recursos públicos - são as pessoas do povo.

É um exercício interessante esse do protagonista ausente, não? No caso brasileiro, parece que há um medo de viver - por isso o protagonista não é assumido -, mas acho que é um medo de sofrer ou, mais que isso, medo de querer (e não apenas desejar), como quiseram, e ainda querem, Nelson Mandela e Ingrid Betancourt.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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