
Atualizada às 12h26 Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)
Na literatura há uma opção narrativa que ausenta a personagem principal e - sem que a pessoa apareça, interaja com as demais (e até com o seu antagonista, quando houver; não se enganem, sempre há) - é a sua existência o principal elemento de organização da trama.
É inevitável não deixar de pensar em Deus, numa perspectiva dessas. Não é de graça o sucesso do texto "Esperando Godot", do dramaturgo e escritor irlandês Samuel Beckett, Prêmio Nobel de literatura em 1969. Infelizmente - embora, aqui, meus escritos mais polêmicos, segundo o número de e-mails recebidos, tenham sido os que se relacionaram à religião - não será esse o foco.
Por razões óbvias, a libertação de Ingrid Betancourt Pulecio na semana passada - junto com o megaconcerto no final de junho em Londres, o 46664, em homenagem a Nelson Mandela -, de súbito e de novo, me trouxe a importância dos protagonistas ocultos. O cenário parisiense se ocupou por diversas vezes da sua figura incomum para ebulir e também, num contexto de novela da vida privada à custa da autopromoção política, mais recentemente, o presidente francês Nicolas Sarkozy.
No pacto republicano está dito que todo poder emana do povo. O povo não é personagem, é uma convenção retórica só plausível como reação política frágil em época de eleições. Na ficção, o povo não chega a repercutir, não tem agudez, não tem unidade, sequer é a personagem ausente; mas, ressalto, é paisagem.
Aqui está o ponto: qual o custo de ser paisagem. Sigo a dissociar.
Na maturidade republicana, a condução orçamentária é a prova definitiva de seriedade. Se o governo barganha impunemente com os créditos e dotações do orçamento, sem controle, sem resistência cidadã imediata, não há de se falar em conduta legítima, em gestão fiscal responsável. Num quadro desses, a culpa é tanto do Executivo quanto do Parlamento.
Um dos protagonistas ausentes da literatura universal (mas que surge ao final; será que estou forçando?) é o Rei Ricardo Coração de Leão na história "Robin Hood". O grande antagonista é o Príncipe João, que depois se tornaria o Rei João Sem Terra, aquele que em 1215 foi forçado a assinar a Carta Magna, a primeira grande referência de estatuto limitador das voluntariedades dos governantes na história britânica e ocidental.
As tramas orçamentárias são verdadeiras tragicomédias porque quem paga, com sua frustração, seu desencanto e com a própria vida - se considerarmos o número de pessoas que morrem nas filas do SUS por falta de recursos públicos - são as pessoas do povo.
É um exercício interessante esse do protagonista ausente, não? No caso brasileiro, parece que há um medo de viver - por isso o protagonista não é assumido -, mas acho que é um medo de sofrer ou, mais que isso, medo de querer (e não apenas desejar), como quiseram, e ainda querem, Nelson Mandela e Ingrid Betancourt.
Terra Magazine