
Atualizada às 21h09 |
Célia Aguiar/Divulgação
O cineasta baiano Tuna Espinheira nas filmagens de Cascalho
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André Setaro
De Salvador (BA)
Um dos mais profícuos cineastas baianos, Tuna Espinheira, após décadas de militância na expressão cinematográfica documentarista, realizou, há quatro anos, o seu primeiro longa, Cascalho, uma adaptação do livro homônimo de Herberto Salles, que ainda em vida lhe concedeu os direitos autorais.
Várias vezes premiado em festivais por seus curtas metragens, Tuna sempre se reservou ao registro das imagens documentárias, à exceção de um média em 1982, O cisne também morre. Cineasta consagrado por Comunidade do Maciel, Samba não se aprende na escola, Dr. Sobral Pinto, Cosme de Farias, o último deus da mitologia baiana (é dele imagens raríssimas do velho rábula em ação), entre outros, Tuna Espinheira luta agora para conseguir exibir Cascalho. Aqui, uma entrevista com ele, que se caracteriza por não ter papas na língua. Sem mais delongas:
André Setaro - Você e Agnaldo Siri Azevedo sempre se caracterizaram pelo registro, nas imagens em movimento, do documentário, havendo apenas, em sua já extensa filmografia de documentarista, apenas um ensaio ficcional, e, agora, Cascalho. Como foi esta saída do documento em imagens para a criação ficcional? Creio que em Cascalho há muito do documentarista Tuna no registro do garimpo na bela Chapada Diamantina. Tem cabimento esta minha impressão?
Tuna Espinheira - Sempre tive o cinema documentário dentro de mim. Mas, por incrível que pareça, não faço muita distinção entre estes dois gêneros. Existe um olhar ficcional nos documentários que realizei. A literatura me deu régua e compasso, o pouco que sou e sei, devo, em maior escala, à literatura. Uma das minhas maiores admirações no cinema é Luchino Vinconti, coincidentemente o mesmo que Godard define: "Visconti faz romance". Esta proeza não é pra todo mundo. Também não ando medindo o tamanho dos filmes. Quando fazia filmes de curta metragem e me perguntavam quando iria deixar as calças curtas dos curtas, para dirigir um longa, eu brincava, parafraseando o contista, Dalton Trevisan, quando lhe perguntavam se não estava na hora de escrever um romance e ele retrucava: "Quero escrever contos, cada vez mais curtos, até atingir o HAI KAI". Eu contava esta estória, e dizia, vale o mesmo para meus filmes curtos.
Fale um pouco de sua luta para conseguir colocar em Cascalho o som Dolby.
A produção de Cascalho, como um todo, foi sempre uma caminhada franciscana, felizmente, sem perder o humor. Aplicar o Sistema Dolby Digital foi mais uma etapa do pega-prá-capar, mais um trabalho de Hércules, mais uma parte, acre/doce, da indefectível circunstância do filme. Foi conseguida, como não poderia deixar de ser, através de uma licitação pública do Fundo de Cultura da Secretaria de Cultura da Bahia (SECULT). Também não afastou o humor, apesar dos momentos kafkianos deste trâmite. Aproveito para completar, informando que este filme jamais obteve um tostão de captação nos labirintos das Leis de Incentivo. Por três anos, consecutivos, tentamos a sorte na licitação da Petrobrás, referente a distribuição de filmes, perdemos todas. O humor também não se foi embora, nem ficou mágoa de qualquer espécie. Cabe atribuir o mais óbvio: falta de charme, principalmente, falta de lobby.
Considerando que se encontra prestes a lançar o seu primeiro longa, Cascalho, que espera uma oportunidade no mercado exibidor há mais de quatro anos, como avalia a situação do cinema brasileiro diante do nó górdio produção-distribuição-exibição? Será que vale a pena se filmar para deixar o filme apenas produzido?
Parafraseando uma popular máxima filosófica: um filme é um filme e sua circunstância. Uma produção, como a nossa, de baixo orçamento, sem padrinhos lobbystas, que não carrega cenas picantes para os cadáveres ambulantes do voyerismo praticante e ululante, sempre terá uma pedra no seu caminho para o escurinho do cinema comercial. Encaro com a maior normalidade (que jeito!) as dificuldades para atingir este fim. Digo, com a maior convicção: o cinema não tem vocação para a clandestinidade. Não faço filmes para amigos, adoro o público.
Num comentário recente, você disse que o Cinema Novo na verdade não existiu, mas uma variedade de filmes que se inventou agrupá-los com este nome. Como você, Velho Tuna, explica sua opinião?
O DNA do dito Cinema Novo é o Neo Realismo do Roberto Rossellini, isto não é novidade pra ninguém. Mas, não tenho dúvida que foi um divisor de águas. Produziu filmes emblemáticos. Pra mim, nunca foi uma marca de linguagem, como a Nouvelle Vague e outros tantos ditos movimentos. Nunca entendi, por exemplo, a razão da exclusão do Pagador de Promessas, filme que trouxe a única Palma de Ouro, prêmio dos mais emblemáticos, do rol das realizações do chamado Cinema Novo. Teria sido a síndrome do Clube do Bolinha? Acho que, a grande façanha do CN foi a redescoberta, para a imagem em movimento, do Brasil. Dentro daqueles inspirados versos de Noel Rosa: "São nossas coisas, são coisas nossas". O Pagador não seria isto aí? Enfim, marketing é marketing... Quem contrariar o dito pelo dito, comete heresia.
Recentemente, um conhecido humorista de programa televisivo, dando asas à sua língua, disse, em alto e bom som, que Glauber Rocha é uma "merda". O que você acha disso? Uma provocação?
Este não foi o único, no caso dele, como se trata de um comediante, acho que falou pensando que estava fazendo graça, a ele cabe os versos de Palpite Infeliz (de novo Noel). Agora, o coveiro da Embrafilme, Ipojuca Pontes, ter escrito aquele longo artigo, eivado de mágoas, idéias tortuosas, com conotações de dedodurismo e outras baixezas, reflete bem o surto de idiotia que se abate sobre certo grupo. A obra de Glauber, representada por algumas Obras Primas, foram reconhecidas pelo Crítico Supremo: O Tempo, que bateu o martelo e deu fé. Aos detratores, sem luz própria, resta o afogamento no próprio vômito.
O que você acha da chamada "retomada" do cinema brasileiro? Houve, realmente, uma retomada ou tudo não passou de mistificação?
Desconheço esta propalada "retomada". Seria, talvez, a enxurrada de fitas, com uma pretensa estética televisiva, temperada com besteirol? Não sou crítico, graças a Deus! Portanto, não vou alongar esta resposta. Entretanto, nem tudo está perdido! Existe sim, vida inteligente, em algumas produções bissextas do nosso cinema. A luta continua! Não me peçam para citar quais produções são estas. Fazer cinema já é um contrato de risco. Tem muita bala perdida por aí. O velho Rosa já dizia: "viver é muito perigoso".
Teria alguma idéia para resolver o problema do nó górdio? Não seria o caso de o governo investir na criação de salas exibidoras que pudessem exibir os filmes brasileiros que não contam com as parcerias multinacionais?
Nelson Pereira disse uma vez: a história do cinema brasileiro é a história das suas crises. A distribuição comercial sempre foi um entrave. Nos tempos da Embrafilme havia uma distribuidora (pertencente ao complexo) que prestava um bom serviço. Acabou-se o que era doce. A política cultural do MINC, e da própria classe cinematográfica, dorme de touca e pouco rumina sobre esta questão. Existem as famigeradas Leis do Incentivo, tapando a boca de um pequeno grupo de privilegiados, marajás do cinema. Donos da bola.
Não posso deixar de lhe perguntar sobre o "seqüestro" do material filmado de Revoada, de José Umberto, que, apesar deste ter acionado judicialmente os "seqüestradores", está em vias de ser montado à revelia de seu autor. O que faz lembrar o golpe em Luiz Paulino dos Santos, que foi retirado da direção de Barravento pelos produtores. A história do cinema baiano precisa mesmo ser reescrita?
Esta é uma história cabeluda. Uma mancha que, provavelmente, se torne indelével, uma má tatuagem, na combalida, pálida, depauperada, sorumbática, saga do cinema da terrinha. O Zé Umberto, roteirista e diretor, vai ter que, nem que seja a ferro e fogo, reaver o seu material filmado para processar a montagem e edição do seu filme. É um legitimo direito de autor. No mais é um furdunço na casa dos mais abomináveis. Triste Bahia!
O que remete à semelhança dos dois episódios é a presença do Rex Schindler, produtor dos dois filmes em questão. Quase cinqüenta anos separa os lamentáveis acontecimentos. Caso esta sua dúvida levantada esteja certa, vai vigorar a máxima Marxista (antes fosse do Groucho), um fato lamentável, que, em qualquer história só pode ser repetido por farsa. Vade Retro! De novo: Triste Bahia!
Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br
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