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Terça, 8 de julho de 2008, 17h13 Atualizada às 16h36

BrOi: emissários de Dantas tentam chegar a Dilma

Valter Campanato/Agência Brasil
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante seminário no Tribunal de Contas da União
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante seminário no Tribunal de Contas da União

Bob Fernandes e Samuel Possebon

Daniel Dantas foi preso nesta terça, 8 de julho. Ele e as principais peças de seu grupo, tais como sua irmã Verônica Dantas, o cunhado Arthur Carvalho e o ex-cunhado Carlos Rodenburg, seu sócio e presidente do Banco Opportunity S/A.

Terra Magazine apurou que o ápice da investigação da Polícia Federal coincidiu com o clímax das negociações para a venda da Brasil Telecom para a Oi, nos primeiros meses deste ano.

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O conteúdo das investigações é explosivo. Detecta-se no meio da apuração um intenso trabalho de lobby e pressão de Dantas junto a setores do governo e também do PT.

A gênese da BrOi foi palmilhada atentamente pela Polícia Federal, seja do ponto de vista dos contatos políticos para que ela saísse do papel, seja do ponto de vista das pressões e manipulações feitas junto à imprensa. Muito ainda deverá ser revelado em capítulos nos próximos dias.

Em diversos momentos, personagens dantescos referem-se a personalidades do governo. Na percepção dos investigadores, algumas das referências - uma delas de codinome Margaret - seriam à ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Em uma conversa a 13 de março último, por exemplo, Greenhalgh diz a Humberto Braz (ex-presidente da Brasil Telecom Participações) que "tentou" conversar com "minha amiga". Entendeu o delegado Queiróz quem seria a "amiga":

-...possivelmente a ministra Dilma.

Registra o delegado que o ex-deputado relata o fracasso da tentativa de diálogo com a ministra, que teria recomendado um entendimento entre "eles", pois o governo já havia "se metido demais nesse assunto".

No dia 20 de março, Guilherme Sodré Martins, assessor de Dantas em áreas várias, comenta com Carlos Rodenburg que na "segunda-feira" estará em Brasilia para uma reunião "com Dilma". Aponta a PF, no dia 24 não há registro de tal compromisso na Casa Civil. No mesmo dia, contudo, Guilherme comenta com um certo Bernardo que a audiência seria às 14h30 para tratar do assunto "leite longa vida".

Findo o suposto encontro, às 15 horas, 53 minutos e 45 segundos, Guilherme conversa com Bernardo e diz que "eles" falaram a respeito da reunião com Dilma e que ela teria feito de conta que não o conhecia, e ele ficou quieto.

Em tempo: Dilma e Guilherme Sodré se conhecem ao menos de vista, pois foi Guilherme, o Guiga, quem providenciou a lancha para um passeio, revelado pela Operação Navalha, na Baía de Todos os Santos. Ainda em relação a esta conversa, Guilherme comenta que o pessoal "da indústria do leite" saiu impressionado com a esperteza dela, principalmente em descobrir "onde está a sacanagem".

Três dias depois, em 27 de março, às 20 horas, 36 minutos e 12 segundos Dantas liga para Guilherme e diz que acabou, "fecharam o acordo".

Greenhalgh


O ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh
(Crédito: Gervásio Baptista/Agência Brasil)

Luiz Eduardo Greenhalgh, ex-deputado federal do PT, foi quase presidente da Câmara dos Deputados (perdeu para Severino Cavalcanti). Ele é renomado advogado e influente integrante da cúpula do partido.

Greenhalgh, segundo apurações da PF, manteve contatos intensos e freqüentes com Humberto Braz em defesa dos interesses de Dantas. Humberto Braz, recorde-se, foi presidente da Brasil Telecom Participações durante a gestão Dantas, quando cuidava dos interesses do Opportunity junto à imprensa, Marcos Valério e mais uma série de episódios, todos devidamente apurados pelas auditorias feitas pela BrT. Depois que fundos e Citibank demitiram Dantas do controle da BrT, Humberto Braz continuou prestando serviços ao Opportunity.

Braz e Greenhalgh negociavam a BrOi. Faziam lobby junto ao governo, apontam as investigações. A prisão preventiva de Greenhalgh foi pedida pela polícia, mas não foi concedida.

No âmbito das negociações para a fusão entre Brasil Telecom e Oi, Daniel Dantas conseguiu vender suas participações por mais de US$ 1 bilhão, segundo cálculos da revista TELETIME, acertou um acordo judicial com os fundos de pensão em que levou R$ 145 milhões, pagos pela Oi, se livrou de um processo de pelo menos US$ 300 milhões movido pelo Citibank em Nova Iorque.

 

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