
Atualizada às 19h46 Amilcar Bettega
De Paris
Tenho dias de nada, períodos inteiros em que nada acontece, não se trata dessas passagens em branco, uma amnésia repentina ou coma profundo, de onde se sai - se se sai - sem consciência do tempo transcorrido e nenhuma memória, como se a vida fosse uma fita de onde cortássemos uma parte e colássemos as pontas restantes.
Não se trata disso. Aqui a questão é o nada consciente, a ausência de qualquer evento importante além da passagem do tempo, ou melhor, quando a passagem do tempo, como que tomada por um inchaço anômalo, elimina a possibilidade de que qualquer coisa coexista no mesmo instante. Os minutos, as horas, escoam com toda a sua precisão, nem mais lentos nem mais rápidos do que sempre costumam fazer, sem que nada ocorra para imprimir nesse tempo a marca de um fato.
Mesmo a vontade inexiste, nada parece apetecível, nenhum estímulo é forte o suficiente para que a expressão de um desejo se produza, a energia tende a zero, e não há nada a fazer senão sentir o tempo passar.
Todas as atividades que dizem respeito à continuação do ciclo vital se cumprem de forma automática, independentes do sujeito, e os dias de nada passam branca e silenciosamente, enchendo o tempo de nada.
Como tudo, isto também passa. E é essa certeza que permite esperar. Como por milagre, as cores retornam, e a sensação de ser produtivo e estar à frente de uma tarefa, por mais insignificante que seja, traz a fé na capacidade repentinamente redescoberta.
Avançar, sentir que a hora passada, o dia de ontem, a semana anterior, foram preenchidos por algo que me coloca um pouco além de onde estava na hora passada, no dia de ontem, na semana anterior. Avançar, construir uma frase - suprema alegria -, chegar ao fim de um parágrafo, por mais insignificante que ele seja, e perceber que o nada existe por ele e para ele.
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