
Atualizada às 20h23 |
Anderson Barbosa/Futura Press
Rotina - Motoristas enfrentam congestionamento na Avenida 23 de Maio, em São Paulo
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Amália Safatle
De São Paulo (SP)
Da I Pedalada Pelada - manifestação recente dos ciclistas na avenida Paulista - às plataformas políticas dos candidatos à prefeitura em São Paulo: a questão do trânsito, assim como os congestionamentos nos centros urbanos, tornou-se inescapável.
Mas escaparam do debate as principais montadoras, instigadas uma a uma a responder sobre a participação que têm no caos do trânsito. Em uma reportagem publicada à revista Página 22 (autoria de Giovana Girardi), todas esquivaram-se das perguntas: Citröen, Fiat, Ford, General Motors, Peugeot, Renault, Toyota e Volkswagen. Somente a Anfavea, associação nacional das fabricantes, respondeu, em nome do setor.
As fabricantes de forma alguma são as únicas responsáveis. O nó viário é composto de várias cordas, que têm sido citadas à exaustão - falta de políticas públicas, investimentos insuficientes em transporte coletivo, falta de planejamento urbano, maus hábitos do consumidor, acomodado atrás de seus volantes. Mas, interessante: pouco se questiona, nos veículos de comunicação, o papel da indústria automobilística nesse imbroglio, ao mesmo tempo em se publica fartos anúncios de carros, com atrativos financiamentos de longo prazo a taxas irresistíveis - um excesso que já começa a mostrar efeitos, como atraso no pagamento das prestações, segundo dados do Banco Central.
Os automóveis são úteis, práticos e confortáveis. Mas seu uso excessivo é conhecidamente perverso - principal causador da poluição atmosférica e da emissão de gases de efeito estufa nos centros urbanos, toma espaços públicos, deteriora a qualidade de vida e chega a reduzir a sua expectativa em alguns anos. À exceção da tecnologia flex fuel - em que a produção doetanol também produz impactos socioambientais - avanços tecnológicos na direcnao da energia limpa andam em marcha lenta.
Enquanto isso, não só a venda de automóveis, como veículos comerciais leves, caminhões e ônibus fizeram com que a indústria automobilística registrasse no 1° trimestre de 2008 o melhor período de toda sua história no Brasil. É de se perguntar: não caberia à lucrativa indústria contribuir para diminuir parte do prejuízo socioambiental do uso excessivo de carros que ela mesma incentiva?
Questionamentos semelhantes já foram feitos à indústria de tabaco e de bebidas e, no primeiro caso, a publicidade sofreu restrições. Hoje, instaura-se uma lei seca espartana, mas o incentivo ao consumo de bebida alcóolica ocupa o horário nobre das tevês, em total clima de festa - anúncios, por sinal, que se revezam com o dos automóveis. E o consumidor que lide com tamanha contradição.
Na discussão sobre responsabilidade sociambiental das empresas, a indústria automobilística deveria juntar-se às predecessoras do tabaco e da bebida alcoólica.
Em resposta aos questionamentos da reportagem, Jackson Schneider, presidente da Anfavea, disse que a entidade participa de fóruns de debate sobre fluidez e mobilidade do trânsito, e que aventa investir parte da receita no tranporte coletivo, além de a venda gerar impostos que podem ser aplicados nessas melhorias. Afirma também que os veículos não causam danos à saúde como tabaco e bebida, e sim soluções, conforto, bem-estar social e dinamismo econômico.
Questionado sobre o fato de o próprio excesso de veículos inviabilizar o negócio diante de um apagão viário, ele responde que países como EUA, Japão e nações européias souberam harmonizar transporte público e coletivo - a despeito de congestionamentos que também tomam conta de vários centros urbanos nesses locais. E que o Brasil também haverá de encontrar uma solução.
Mas só se cada um fizer sua parte.
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