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Sábado, 12 de julho de 2008, 07h55 Atualizada às 22h46

Fantasticon 2008

Divulgação
Imagem do livo Enciclopédia dos Monstros, de Gonçalo Júnior, publicado pela editora Ediouro
Imagem do livo "Enciclopédia dos Monstros", de Gonçalo Júnior, publicado pela editora Ediouro

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

Com uma programação mais encorpada do que a edição de 2007, a FantastiCon 2008 conseguiu, graças às habilidades diplomáticas do seu organizador, Silvio Alexandre, reunir sob o teto do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo, representantes de correntes e grupos diferentes e opostos, dentro da ficção especulativa nacional.

De fato, o simpósio foi instantâneo de tendências, com várias aberturas para fora do fandom, mesmo quando elas não participaram do programa. A FantastiCon 2008 foi mais um passo na consolidação desse evento, como o mais importante da ficção especulativa no Brasil.

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Para mim, porém, ela começou no sábado anterior, quando fui buscar M. Elizabeth "Libby" Ginway e seu filho Matthew, no Aeroporto de Cumbica. O vôo, vindo de Atlanta, chegou adiantado, mas o avião parou longe do terminal, de modo que a saída dos passageiros foi demorada. Havia um smog de poluição e umidade em Cumbica - que significa, em tupi-guarani, "Terra da Neblina" (ótimo lugar para se construir um aeroporto internacional!). Ao sentir o cheiro, Matt exclamou: "Hum, pollution!". Ele mora no sul do Texas, onde a única poluição deve vir da China, cruzando o Pacífico.

Pena perder a reunião do CLFC-SP nesse dia, mas chegamos quase à meia-noite, à casa da família com a qual Libby fica quando vem a São Paulo. No caminho, quase batemos três vezes e vimos um cara aliviar a bexiga pela janela de um carro em movimento. Sábado à noite em Sampa...

Na quinta, às vésperas de uma convenção de FC, o Estado de São Paulo sofre o primeiro "apagão" da história da Internet (da história da humanidade!), mostrando que a esfera virtual não está livre dos azares mundanos.

Devido a um problema de comunicação, Jorge Luiz Calife, autor da trilogia Padrões de Contato, enviou um e-mail a Silvio Alexandre na sexta, informando que não viria ao evento. Silvio esclareceu a confusão e Calife embarcou no sábado de manhã. Ficamos preocupados, porque são 11 anos que ele não vem a São Paulo falar com os fãs.

Na manhã do sábado dia 6, fui apanhar Libby Ginway e fomos para o colégio, no bairro de Santa Cruz. Deixei-a no auditório Paulo Autran, para a apresentação sobre mundos partilhados (Taikodon e Intempol). Ela teve a bondade de nos preparar um relato desse painel aqui.

Fui procurar o estande da Devir, ansioso para ver as novidades prometidas para lançamento na FantastiCon. Queria ter alguns livros em mãos para apanhar autógrafos dos autores, durante o evento.

Já sabia que dificuldades operacionais vinham atingindo a Devir e a Aleph, neste ano. A Aleph parece tê-las contornado, pois lá estavam Count Zero, de William Gibson, e A Mão Esquerda da Escuridão, de Ursula K.Le Guin, dois aguardados lançamentos. Mas outras editoras pelo jeito sofreram da mesma praga. Não obstante, a bancada de livros recentes era grande e variada, com muitos títulos de autores nacionais e estrangeiros, evidência do dinamismo que o mercado assumiu nos últimos anos.

Uma ausência que me preocupou foi a do livro de Cristina Lasaitis, Fábulas do Tempo e da Eternidade, que fora lançado no dia anterior. Mais tarde, soube por Richard Diegues, da Tarja Editorial, que o livro apenas não estava na área de vendas. Comprei-o com ele e peguei o autógrafo de Cris. É o primeiro livro dessa autora de 24 anos, com 12 contos de FC e fantasia, apresentação de Fábio Fernandes e uma ótima capa de Marcelo Tonidandel. O formato é o das antologias Ficção de Polpa, de Samir Machado de Machado - um pouco maior que um paperback americano. Sem dúvida um formato gostoso e evocativo para a literatura popular, e é bom saber que está ganhando terreno.


(Imagem do livro "Fábulas do Tempo e da Eternidade")

A reunião do Grupo de Estudos de Literatura Fantástica, da escritora Rosana Rios, já estava em andamento, e eu apenas a cumprimentei. Rosana distribuiu esta mensagem na lista do GELF, para sabermos como foi: "Era dia 5 de julho de 2008, na sala 115 do Colégio Marista Arquidiocesano, e nosso horário foi das 9h às 11h. Houve algum atraso para começar, pois ninguém achava a sala! Mas depois algumas pessoas se encontraram naquele verdadeiro labirinto e o encontro contou com 16 presenças... O tema, "Contos de Fadas: Arquétipos e Fantasia Através dos Séculos", foi discutido a partir de uma apostila elaborada com versões e análises sobre a história de Chapeuzinho Vermelho.

Foi feita a leitura do conto, na versão de Perrault, seguido por algumas comparações com a versão dos Irmãos Grimm e comentários de Bruno Bettelheim (A Psicanálise dos Contos de Fadas) sobre a simbologia e os elementos recorrentes do conto. Tais elementos aparecem em suas várias versões, incluindo-se versões arcaicas em que aparecem fatos ainda mais bizarros do que o convite do lobo para que Chapeuzinho entre a cama com ele, como versões em que o lobo faz a menina comer a carne da avó e beber seu sangue. Depois foram lidos textos de autores diversos que se utilizaram dos elementos da história ou recontaram o conto de Chapeuzinho: Monteiro Lobato, Aurélio de Oliveira e Raphael Draccon (que também estava presente ao FantastiCon!)". (Mais a respeito, no blog de Rosana, em http://rosana-rios.blogspot.com).

Fui então conferir parte da oficina "A Criação de Mundos Fantásticos", com os editores da Tarja, Diegues e Gianpaolo Celli. Percebi que os dois falavam, para as mais de 20 pessoas presentes, da necessidade de se inovar e sair do lugar comum, na construção de mundos de FC e fantasia. Falaram da saturação da sociedade medieval na fantasia, e recomendaram se evitar o que é mais usado e inverter clichês, buscar verticalizar as descrições em termos geográficos, climáticos, políticos, econômicos, familiares, sexuais e mágicos. Em suma, buscar a complexidade do mundo ficcional.

Concordo 612% com tal postura, e fiquei feliz em ver jovens editores fazendo esse tipo de intervenção junto a autores e leitores. Falando com Celli mais tarde, soube que a dupla quer estender essa perspectiva com outras ações, no futuro.

Dali, fui ver a palestra de Martha Argel e Humberto Moura Neto, "O Vampiro antes de Drácula", com uma freqüência de mais de 30 pessoas. A palestra divulga o livro, com o mesmo título (a sair oportunamente pela Aleph), e se baseia na pesquisa que o casal - que também organizou essa antologia de histórias de vampiro anteriores à famosa obra de Bram Stoker - realizou para montar o livro, ao longo de três anos. Foi uma fala de alto nível, resgatando origens européias do mito e sua vinculação com o movimento romântico, que o contaminou com a aura de sedutor. Agora é aguardar o lançamento desse livro que sugere um momento de maior maturidade para esse tipo de ficção de horror entre os brasileiros.

Então saltei para o painel "A Invasão do Cinema na Literatura Fantástica" (as atividades desta FantastiCon tinham uma sobreposição de meia hora a uma hora, para facilitar esses pulos de uma para a outra). André Vianco, o best-seller do horror nacional, e que tem tentado filmar seus livros Os Sete e Bento, apontou a falta de ousadia do cinema nacional, que tem medo de efeitos especiais. Também disse que os intelectuais condenam se escrever pensando em cinema, mas observou que há autonomia no processo de escrita, que vem primeiro, livrando-o da pecha de subordinado a um meio de maior difusão comercial. Vianco pretende dirigir suas adaptações.

Raphael Draccon, autor do romance de fantasia Dragões do Éter, elogiado por Vianco, é também roteirista de cinema e leitor de roteiros submetidos à produtora de Fernando Meirelles, O2. Para ele, a relação literatura/cinema é natural. Comentou que "os autores clássicos não tiveram concorrência multimídia, ou também teriam pensado em cinema". Contrariando profissionais como Doc Comparato, que acham que o roteirista está mais próximo do diretor, do que o escritor, Draccon pensa que o roteirista está mais próximo da literatura.

De fala mansa e ponderada, Draccon disse que a maioria dos roteiros que chegam até ele são mal escritos e esquemáticos, mas informou que um dos que passaram por ele está rodando em Hollywood. Enfim, defendeu que "a geração de hoje é visual - ela escreve vendo um filme", e não necessariamente tendo o cinema como um segundo passo. Como roteirizar está próximo da literatura, é contato com literatura que os novatos devem priorizar. Mais da sua fala está no blog de Draccon: http://www.raphaeldraccon.com/blog.

Vivi Amaral falou da Mostra Curta Fantástico (http://www.mostracurtafantastico.com.br), que ela ajuda a coordenar, e concorda que o cinema sofre de preconceito sobre o aspecto comercial. Conhece produções amadoras de FC e horror, a filmes nacionais feitos com imagens de computador perfeitas, em parte por causa da qualidade profissional encontrada no meio publicitário. Perante a pergunta de se a atual vibração na área poderá sair de moda, ela disse que "tudo é cíclico", mas que não dá sinais de arrefecer.

Alfredo Suppia, doutor em cinema pela UNICAMP e especialista em cinema brasileiro de FC, também enxerga parentesco entre a sétima arte e a literatura; mencionou que, por exemplo, o cinema americano clássico também nasce da adaptação literária. "Verbo e imagem estão mais ligados do que pensamos", disse. Concorda com Vianco, de que o cinema brasileiro é muito tímido, e notou que os argentinos são mais ousados. Na questão dos efeitos especiais como limitadores, pergunta se "não seria uma alternativa investir mais na criatividade". Deu exemplos de filmes de FC e horror menos dependentes dos efeitos especiais, entre eles o curta nacional Barbosa. Para ele, "há muita criatividade na FC brasileira", faltando mesmo a atenção dos produtores. Suppia também tem fala mansa e nenhum ranço acadêmico.

Enfim, foi uma mesa de participações sólidas, mas um tanto truncada pelo atraso inicial. Achei que as de Amaral e Draccon (que claramente havia preparado a sua comunicação antes) acabaram abreviadas.

Na seqüência, na mesma sala, Gonçalo Júnior fez a apresentação do seu novo livro, o fabuloso guia ilustrado Enciclopédia dos Monstros, recém-lançado pela Ediouro. Falando de cinema, quadrinhos e literatura, ocupou o mesmo continuum da mesa anterior. Baiano de fala tranqüila, Gonçalo encantou por ser, ele mesmo, uma enciclopédia viva.

No livro, seu "critério de monstruosidade" é a aparência física, seja na vida real, nas lendas ou nas produções populares de cinema, HQ e TV, mas também explora os monstros no rock. A sanha de esgotar o assunto, diz Gonçalo, gozador, só não se realizou por inteiro porque ficaram de fora "monster trucks, monstros do cordel, e políticos". Na platéia, Álvaro de Moya, o pioneiro intelectual dos quadrinhos e outra enciclopédia viva.

O livro, que tem Osmane Garcia Filho como diretor de arte (e co-autor, segundo Gonçalo), é ricamente ilustrado em p&b, com a verve de um fã que deseja resgatar os aspectos de uma vasta iconografia da cultura popular que preenche as vidas de tanta gente da geração dele (e da minha). Não ficaram de fora os monstros do cinema e das telenovelas brasileiras! Altamente recomendado.

No mesmo horário, aconteceu a mesa com os editores. Pedi a Marcello Branco, que a assistiu, um comentário sucinto: "A expectativa sobre esta mesa era grande, pois como acompanho de perto o mercado e tinha acabado de escrever o artigo anual sobre o tema para o Anuário, tinha argumentos para discutir e números para ilustrar. Mas infelizmente e de forma não explicada pelo organizador, dois dos três participantes não apareceram. Foram substituídos por três outras pessoas que, pegas de surpresa, não tinham preparado nada. Obviamente isto contribuiu para o improviso e a superficialidade das colocações.

Mas pior que isso foi a súbita e também não explicada mudança no tema da mesa, que foi aberto também para o chamado mercado editorial na Internet. Mas esse 'mercado' pode ser comparado ao mercado editorial constituído como tal? Parecia que estavam comparando banana com laranja, isto é, ambas são frutas mas com características muito diferentes. Apesar do público acompanhar de forma atenta as participações, a discussão foi muito dispersa, superficial e autocongratulatória, principalmente dos encarregados de falar da Internet. Enfim, para mim ao menos, foi um desperdício".

Mais tarde, Silvio Alexandre me informou que o editor Gumercindo Rocha Dorea viajou à tarde (a mesa inicialmente fora programada para a manhã, sendo depois transferida para a tarde), e que Adriano Piazzi estava na Flip.

E por falar na Festa Literária de Parati, no corredor encontrei o pessoal do Fabulário, recém-chegados de lá, onde foram fazer sua ação de distribuição do charmoso fanzine - e para ver Neil Gaiman, perseguido pelas ruas históricas da cidade por uma legião de fãs. Na Flip (e na FantastiCon) distribuíram Fabulário "Special Edition 1", com uma seleta de textos já publicados, mas em inglês! E em três versões diferentes de capa, assinadas por Diogo Nogueira. Os textos são de Paula Beterelli e Tadeu Andrade, com uma HQ de horror de Luiz Daniel Pires. Mais sobre a iniciativa em http://www.fabulariozine.blogspot.com.

Outra iniciativa interessante distribuída na FantastiCon foi "O Caminho do Poço das Lágrimas", de André Vianco, como um "papiro" - folha comprida de papel vegetal com o conto ilustrado por Eduardo Mendes e Wilson André e impresso a cores. O conto de horror e de ambientação contemporânea tem cara de ser excerto de um texto maior, mas com certeza vai virar item de colecionador entre os muitos fãs do autor.

Leia mais:
» Fantasticon 2008 - parte II

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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