
Atualizada às 23h03 |
Divulgação
Imagem do livro "Necrópole: Histórias de Fantasmas", da Editora Alaúde
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Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Libby e eu chegamos ao evento no domingo e logo fui fotografar Vianco e as quase 50 pessoas que participavam de sua oficina sobre como criar personagens. Então pegamos parte da mesa "Desafios de Escrever Literatura Fantástica no Brasil", com J.Modesto, Cris Lasaitis, Nazarethe Fonseca e Claudio Villa. Ficou claro que a mediação de Nelson de Oliveira, no seu primeiro contato mais estreito com o fandom, trouxe nova dinâmica à conversa.
A prática deveria ser adotada em eventos futuros. Nelson somou uma retórica mais literária, o que também anda faltando em mesas sobre FC e fantasia. Uma proposta interessante, dele, é a de que, meio que incorporando as dificuldades estruturais do Brasil, na fantasia a magia podia ter "problemas de funcionamento", aproximando-se das idéias da oficina de Diegues e Celli no sábado.
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Achei, porém, que a discussão orbitou demais questões como analfabetismo e educação e criação do hábito de leitura, sobre as quais os escritores e editores têm poucos meios de intervir diretamente.
Dali saltei para a conversa de Alexandre Linhares com Libby Ginway, sobre o seu livro de lançamento previsto para novembro pela Devir, Visão Alienígena, sua primeira coletânea de ensaios acadêmicos sobre FC brasileira. Linhares se mostrou conhecedor da pesquisa de Libby, em Ficção Científica Brasileira, e dono de idéias próprias sobre os caminhos do gênero entre nós. O livro recupera argumentos presentes no livro anterior, e alarga o seu alcance, tratando de autores e textos não analisados antes por Libby.
Nos dois livros, ela busca oferecer uma bússola a quem não conhece a cultura brasileira, a partir da comparação dos nossos mitos culturais e com os ícones da FC. Nessa conjunção, Linhares percebe um papel para a FC, de criar novas faces para a identidade brasileira, fugindo ao decalque do estrangeiro. A atividade foi mais intimista, com um bate-papo com o público. Questões levantadas foram o temor do autor brasileiro pelo que às vezes chamamos de "estereótipo cultural", a desinibição americana em usar os seus estereótipos culturais. Finisia Fideli argumentou a respeito, citando a série Firefly, que combina western e FC. Alguém mais levantou o folclore e a história brasileiras como material interessante de integrar o gênero.
Braulio Tavares, que estava presente, não enxerga contradição entre regional e universal, contanto que o material seja verticalizado, explorado em suas complexidades. Falou de sua visão de Duna como um "romance sertanejo" - afirmativa que de certo escandalizaria Claudio Villa e outros. Outro escritor presente, Gerson Lodi, observou que o bandeirantismo é mais rico do que a conquista do oeste americano, e que o brasileiro tem o conhecimento de sua cultura e da americana, pela importação dos seus bens culturais, e portanto pode articular textos que integrem as duas. Foi uma conversa instigante.
Na seqüência, Braulio fez uma brilhante palestra sobre a vida e a obra de William S. Burroughs, autor mainstream americano que também se associa à FC, particularmente àquela da década de 1960. A personalidade magnética do palestrante cativou o público. Meu filho de 16 anos entrou para ficar dez minutos com a mãe, e não desgrudou do assento até o fim.
Gostei muito da palestra não apenas pela qualidade sempre estimulante e intelectualmente profunda, mas também porque estou estudando a New Wave anglo-americana no momento, e Braulio explorou as semelhanças entre a obra de Burroughs e as de Philip K.Dick, Philip José Farmer e Samuel R.Delany - este o mais próximo dos conteúdos de Burroughs, embora não o mencione como influência.
Braulio acha que em razão de certas posturas meio racistas (Delany é negro) e misóginas do autor de O Almoço Nu. Assim como a fala de Nelson de Oliveira, a de Bráulio ajuda o público consumidor de FC a entender melhor os argumentos da ficção literária. Novamente, Braulio Tavares se declarou embaixador do mainstream junto à FC, e embaixador da FC junto ao mainstream, campos que ele deseja aproximar.
O lugar dele foi ocupado por Jorge Luiz Calife e Marcello Branco, numa conversa sobre a publicação iminente da Trilogia Padrões de Contato num único volume pela Devir, o primeiro omnibus, como se costumava dizer há alguns anos, da história da FCB. Marcello ecreveu a introdução para o livro, que terá ilustrações internas de Vagner Vargas. Ele começou tratando da repercussão que a trilogia teve entre fãs e autores brasileiros entre 1985 e 1991, quando ela se completou, citando Gerson Lodi, Henrique Flory, Carlos Mores e outros, como autores que passaram pela porta que ele abriu, a da FC hard.
Fiquei impressionado com o modo como Calife tem tudo na ponta da língua, em termos das questões tecnológicas por trás de cada idéia da série Universo da Tríade, como a chama (e que inclui a trilogia e vários contos), e do momento histórico em que surgiram. Várias vezes Marcello precisou puxá-lo de volta para a importância da trilogia e sua repercussão.
Por fim, Marcello concluiu com a esperança de que a sua republicação reacenda o interesse pela FC hard, especialmente perante o atual debate pulp vs. coerência científica, e Terceira Onda vs. Segunda Onda (que Calife praticamente inaugurou). Da platéia, Clinton Davisson, autor do romance Hegemonia (prefaceado por Calife), identificado com a Terceira Onda, secundou a opinião de Marcello, afirmando que é interessante tentar aprender com os erros e acertos do passado.

(Imagem do romance "Hegemonia")
Observei que a densidade de idéias científicas nos romances de Calife, e a presença de temas como o pós-humano e a singularidade de inteligências artificiais o tornam um antecipador da nova space opera, que estava sendo discutida naquele mesmo instante na mesa-redonda sobre a FC/F atuais, com Fábio Fernandes, Guilherme Kujawski, Jacques Barcia e Sergio Kulpas.
Quem, como eu, ficou até o fim na palestra do Calife perdeu 70% dessa mesa. Entrei apenas para fotografar - e ouvi Barcia dizendo que em 2020 seremos todos pós-humanos. Acho que eu não. Sou um alérgico crônico, e com certeza vou me dar mal com implantes bio-eletrônicos no corpo.
Tentei conseguir alguém que assistiu a esse debate, na sala abarrotada, para escrever um relato a respeito, mas não consegui. Aliás, essa foi a tendência geral de um evento muito interessante, superior ao do ano passado: a impossibilidade de se assistir a um número substancial de encontros de interesse.
Na saída, comprei o livro de Davisson, mistura de FC hard com espada e feitiçaria, segundo Calife, e duas antologias da Editora Alaúde, Necrópole: Histórias de Fantasmas e Necrópole: Histórias de Bruxaria - para saber o que se anda fazendo em termos de horror fora do tema do vampiro. No estande, Libby e eu encontramos Flávio Medeiros, autor do elogiado romance Quintessência. Antes, nos corredores, tínhamos visto os escritores Giulia Moon, Renato Azevedo e Tibor Moricz, Ana Cristina Rodrigues, a presidente do CLFC, e o crítico Antonio Luiz M.C.Costa, colega colunista do Terra Magazine.
Lugar de encontros e reencontros, de debates, de renovação de idéias e perspectivas, a FantastiCon se firma como nexo dos diferentes caminhos da FC, fantasia e horror no Brasil. Esperamos o seu retorno em 2009, quando, segundo Silvio Alexandre, comemoraremos os 40 anos do histórico Simpósio de FC no Rio de Janeiro.
Terra Magazine