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Segunda, 14 de julho de 2008, 12h46 Atualizada às 08h07

Alguém para pagar o pato

Paulo Scott
De Porto Alegre (RS)

Se a crônica é um gênero literário que se destaca no Brasil, a crônica política talvez seja a que mais fique devendo em termos de qualidade e, principalmente, abrangência nestes tempos de democracia. Há grandes cronistas, OK, mas a realidade política ainda é maior e mais rica do que a contundência (e a presença) desses textos nos jornais e revistas nacionais.

As eleições municipais são invariavelmente a oportunidade mais privilegiada para se sabatinar a ingerência, quase sempre irrisória, da sociedade nos rumos governamentais. Embora haja menos recursos, há, aqui, um espaço de barganha mais nítido na relação entre administrador e administrados e há também uma proximidade inevitável que jamais se verificará quanto aos governos estadual e federal.

Como se sabe é na distância, além da falta de parcimônia, que está um tanto do glamour das Assembléias Legislativas, do Congresso Nacional e dos Poderes Executivos correspondentes.

Nessa perspectiva, penso que serão poucas as disputas realizadas este ano no Brasil que se equipararão às eleições de Porto Alegre. Até recentemente a capital gaúcha foi palco de uma das experiências governamentais mais exitosas na história recente do país. Goste-se ou não os quatro mandatos sucessivos do Partido dos Trabalhadores mudaram radicalmente a configuração urbana da cidade, para melhor, servindo de modelo para todo país.

O governo atual, do Prefeito José Fogaça, deixou de atender uma série de compromissos essenciais, de maneira que é visível a falta de continuidade da gestão da coisa pública inaugurada pelo PT ¿ projeto este, diga-se, que se enfraqueceu no quarto mandato, talvez pela falta de coerência entre o que foi prometido na campanha e o que foi posto em prática posteriormente.

O fato é que há uma forte sensação de encerramento de ciclo, que ganha reforço com o fato da média de idade dos candidatos ser a mais baixa dos últimos anos. Somando-se a isso há o percentual de candidatas (Luciana Genro, Manuela D'Ávilla e Maria do Rosário) com boas chances de disputa no segundo turno e o fato de o candidato a vice-prefeito na chapa do Onyx Lorenzoni ser o mano Changes, vocalista da banda Comunidade Nin-Jitsu, sujeito que se ganhar algum espaço nos debates tornará ainda mais peculiar, mais interessante, a história (a retórica) desta eleição 2008 para o executivo municipal.

Imagino que seria viável um projeto de revista semanal com crônicas assinadas por escritores e jornalistas consagrados, dentro de alguma imparcialidade ou da sua falta completa sobre as idiossincrasias destas eleições. Será que haveria leitores, será que mesmo aqui no sul, como todo esse orgulho, as pessoas querem mesmo saber?

Talvez no formato de telenovela, alguém diria. E voltaríamos ao mesmo ponto, esquecendo que além do inusitado, da novidade e da comédia há boa dose de tragédia, tragédia vivida pelos que aguardam alguma resposta verdadeiramente nova dessa brincadeira de mau-gosto chamada de governo, sabendo que um deles está mais perto do irrisório social e que ainda assim nada consegue escutar, pouco consegue responder.

Paulo Scott é autor de Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina, 2001), sob o pseudônimo Elrodris. Também publicou o livro de contos Ainda orangotangos (Livros do Mal, 2003; Bertrand Brasil, 2007), Voláteis (Objetiva, 2005), A timidez do monstro (Objetiva, 2006) e Senhor escuridão (Bertrand Brasil, 2006).


Fale com Paulo Scott: pscott@terra.com.br

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