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Segunda, 14 de julho de 2008, 16h02 Atualizada às 16h53

Bahia diz não ter recebido US$32 mi do Opportunity

Claudio Leal

O escândalo do grupo Opportunity embrenha-se pelo futebol. Torcedor do Esporte Clube Bahia, campeão brasileiro de 1988, o banqueiro Daniel Dantas encontrou no clube baiano um porto para investimentos. Celebrado em 1998, o acordo é crivado de suspeitas pela Polícia Federal e pela Justiça. A torcida ainda lhe pôs uma outra pecha, a de "pé frio" - desde a aliança com o Opportunity, o time gramou a Terceira Divisão e joga às cegas na Segundona.

No pedido da prisão preventiva de Dantas, em 4 de julho, o juiz Fausto Martin de Sanctis citou um trecho do relatório do delegado da PF, Protógentes Queiroz, em que se puxa o novelo do capital investido no clube. Como antecipou o jornalista e blogueiro Juca Kfouri, na Folha de S. Paulo (10/07), a PF identificou investimentos do Opportunity Fund na empresa Parcom. Cifra elevada: US$ 32 milhões.

Trecho da peça da Sexta Vara Federal Criminal:

"Por meio do Relatório 08/2008 (Anexo 3 - fls. 780 dos autos n.º 2007.61.81.011419-3) foi também possível identificar um parecer de auditoria no qual estão relacionados os investimentos deste Fundo em data de 31.12.2006, dentre eles: Argolis (TELEMAR indiretamente) - U$ 93 milhões; Opportunity Zain (Brasil Telecom Indiretamente) - U$ 61 milhões; PARCOM (BAHIA Futebol Clube Indiretamente) - U$ 32 milhões; Opportunity Invest III (IG Indiretamente) - U$ 8 milhões; Opportunity Gama - U$ 7 milhões." (grifo nosso)

Em duas notas, o Esporte Clube Bahia nega a entrada de capital dessa ordem em seu caixa. Desmentido que só amplia a gama de suspeitas. "O Esporte Clube Bahia S/A, no ano da sua constituição (1998) recebeu, como aporte de capital, do seu sócio Liga Futebol S/A R$12 milhões. A partir daquela data não houve outro aporte de capital (aumento de capital social)". O clube nega qualquer vínculo com a Parcom.

"Conforme mencionado "Estrutura Societária" divulgada na imprensa, e comprovados nos atos societários e livros contábeis do Esporte Clube Bahia S/A, os acionistas do Esporte Clube Bahia S/A são a Liga Futebol S/A e o Esporte Clube Bahia. Portanto, o Esporte Clube Bahia S/A não possui qualquer relação societária ou comercial com a Parcom S/A", diz outro trecho da nota.

Por fim, o Bahia "nega categoricamente o recebimento de qualquer importância da Parcom S/A".

Mas o repórter Nelson Barros Neto, do jornal A Tarde (12/07), aponta vinculações: "O problema é que não é isso que verifica a partir de uma simples consulta ao site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM - www.cvm.gov.br). Basta acessar as negociações promovidas pela companhia, inclusive no período do referido aporte (virada de 2006 para 2007), para se constatar, por exemplo, que das 15 mil ações preferenciais tipo B do Bahia S/A, a Parcom Participações S/A detinha quatro".

Procurada por Terra Magazine, a assessoria do Bahia afirma que o presidente Petrônio Barradas não dará entrevista sobre a Operação Satiagraha. O clube nega fraude na venda do jogador da seleção brasileira, Daniel Alves, ao Sevilla. "A transferência do atleta foi efetuada diretamente pelo Esporte Clube Bahia S/A para o Sevilla Futebol Clube e desconhecemos qualquer envolvimento do clube japonês Kawasaki Stell", refuta o clube.

O relatório de transferências internacionais da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) registra o "Kawasaki Steel/In" como a origem de Daniel Alves (basta ver no site: http://www.cbf.com.br/bid/ti2004.htm). O Bahia pretende reunir a documentação do jogador e garante que exigirá a retificação.

Em 2006, o "Tricolor de Aço" fez o distrato com a Ligafutebol. Mas o Opportunity mantém vínculos acionários. "Apesar de o EC Bahia e a Ligafutebol S/A terem celebrado o distrado, em 2006, a empresa do Grupo Opprtunity ainda detém a totalidade das ações que controlam as decisões estruturais do Bahia S/A", relata o jornal A Tarde.

Com a Operação Satiagraha, o acordo de 1998 - celebrado com euforia pela cartolagem baiana - virou vinagre.

Entre outros crimes, o banqueiro Daniel Dantas é investigado por evasão de divisas, formação de quadrilha, gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro.



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