
Atualizada às 12h22 Julio Gomes de Almeida
De São Paulo
O fato da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, de junho (0,74%) ter vindo um pouco abaixo da de maio (0,79%) e também menor do que as expectativas é um alívio no sentido de que refreia o ímpeto do mercado financeiro em promover elevações nas taxas futuras de juros. Mas, do ponto de vista do processo de inflação no Brasil, mostra que o curso da elevação de preços mantém-se como antes e ameaça a obtenção da meta para esse ano em seu limite superior de 6,5%. Mostra ainda uma generalização dos processos de aumentos de preço em alimentação, muito embora nos conjuntos dos produtos e serviços do IPCA excluídos alimentos a proporção dos itens estáveis tenha subido de 64% para 72% entre maio e junho.
Um recente relatório do FMI que compara as conseqüências das variações de preço do petróleo e de alimentos sobre a inflação no mundo ("Food and Fuel Prices-Recent Developments, Macroeconomic Impact, and Policy Responses"), sustenta que o impacto imediato nesse último caso é muito maior devido ao peso médio dos alimentos na composição do índice de preço ao consumidor que em 2006 era de 37% para uma amostra de 120 países não-membros da OECD. Esse percentual era cinco vezes maior do que o peso direto de combustíveis, mas nesse caso, assim como no de outras commodities que também estão aumentando muito de preço, como as metálicas, os impactos indiretos têm maior relevância devido aos seus efeitos ao longo das cadeias produtivas. Ou seja, uma "inflação de alimentos" chega mais rápido ao bolso do consumidor e é de intensidade também maior especialmente em países não desenvolvidos onde a alimentação tem maior peso no orçamento familiar. Daí o agravamento súbito das condições sociais em países mais pobres. Já a "inflação de commodities", como petróleo e metais (ferro, por exemplo), tem um efeito direto menor, mas, especialmente em economia mais diversificadas e avançadas, apresenta um complexo processo de transmissão para os preços, pois os aumentos em seus preços correspondem a aumentos de custos básicos em diversas cadeias produtivas longas e importantes.
Em parte, ambos os efeitos sobre os preços ao consumidor - o mais direto vindo de alimentos e o indireto originado de um "choque de custos" a partir das elevações de preços do petróleo e outras commodities - se apresentam no Brasil. Aqui, a inflação de alimentos gradativamente se espalha e o choque de commodities já é causa de elevação expressiva dos custos de produção em várias cadeias industriais. Cabe observar que o peso de alimentos e bebidas no IPCA é de 22,5%, índice abaixo da média dos países menos desenvolvidos, porém alto o suficiente para o que o consumidor sinta imediatamente os efeitos do forte aumento de preços do setor. Para o aumento médio de preços do mês de junho, a inflação de alimentos explicou 63% do índice global e para a elevação de 3,64% acumulada nos seis primeiros meses desse ano, a contribuição de alimentos foi de 52%.
Por outro lado, a sociedade e a economia brasileira são avançadas o bastante para que os fortes aumentos de commodities nos mercados globais tenham impacto em várias cadeias produtivas, o que significa dizer que os aumentos de preços vão abarcando um número cada vez maior de bens e serviços. A matriz desse processo, todavia, não nos parece proceder de pressões de demanda, mas sim de custos maiores em função dos aumentos de preços de matérias-primas básicas nos mercados mundiais.
É para delimitar ambos os processos de transmissão que o governo vem adotando procedimentos de política econômica que vão além da política monetária e incluem ações de contenção do crédito, de aumento do superávit primário e de ampliação da oferta de produtos da agricultura e da indústria (Plano Safra e Política Industrial). Em si, essas medidas não combatem o aumento de preços das commodities, que vem de fora do país e que com a redução da taxa de juros nos EUA passou a refletir mais fortemente um determinante financeiro. Mas vão evitando a generalização interna do processo e sua tradução em índices muito elevados de inflação, o que até o momento o Brasil vem logrando com maior sucesso do que muitos outros países emergentes.
Terra Magazine