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Quarta, 16 de julho de 2008, 07h42

Sinal verde no vestir global

Maria Alice Rocha/Terra Magazine
Lanternas chinesas  - Política de vistos da China pode esfriar negócios de Moda durante os Jogos Olímpícos, diz a colunista Maria Alice Rocha
Lanternas chinesas - Política de vistos da China pode "esfriar" negócios de Moda durante os Jogos Olímpícos, diz a colunista Maria Alice Rocha

Maria Alice Rocha
Do Recife (PE)

O assunto desta semana na imprensa européia relacionada com a indústria de moda, seja ela têxtil, vestuário ou calçados, é bastante preocupante: a China mudou a sua política de concessão de vistos por conta dos Jogos Olímpicos que se iniciam no próximo dia 8 de agosto em Pequim.

No primeiro momento, parece difícil compreender como um visto de entrada pode interferir num negócio que movimenta bilhões. Mas, num olhar mais preciso, é possível observar que por trás do fato da China ter se tornado o distrito industrial de confecções do mundo, há um exército de inspetores vindo dos quatros cantos do mundo. Vale lembrar que pelo menos uma peça de roupa entre dez carrega a etiqueta "made in china".

Ora, se a maioria das grandes empresas de moda em nível mundial passou a desenvolver os seus produtos em estúdios de criação na Europa e a manufaturá-los externamente, é necessário que haja alguém na conferência dos pedidos. Via de regra, esse profissional com conhecimento específico e claramente conhecedor da marca que representa atua nas tarefas de conferir as especificações: qualidade, tamanhos, materiais, processos e responsabilidade social dos parceiros.

A queixa do momento vem do fato que o governo chinês reduziu o número de vistos de negócios para compensar o número de vistos de atletas e turistas. Mais que isso, os inspetores que antes recebiam um visto com direito a múltiplas entradas se queixam da redução do período permitido para a estadia com a proximidade do início das Olimpíadas.

O governo chinês rebate as acusações e justifica o endurecimento das regras devido a medidas de segurança, visto que há um enorme receio de atentado terrorista ou alguma tragédia durante as semanas em que o mundo terá os dois olhos para o dragão do oriente.

Mas, considerando que o calendário da cadeia têxtil é singular e sempre sob pressão quando sintonizada com as ruas, prevê-se uma grande quantidade de peças chegando ao varejo abaixo da especificação, ou ainda uma significativa devolução de entregas.

Na melhor das hipóteses, isso significa um esfriamento das relações entre parceiros (fornecedores e compradores), fato considerado gravíssimo na cultura de negócios chinesa. Na pior das hipóteses, é possível um desabastecimento de roupas e calçados na estação que se aproxima: o inverno para o hemisfério norte, onde a indumentária ainda conserva uma grande motivação de uso relacionada com a proteção do corpo. Mais que isso, o período das festas de Natal e fim de ano.

As providências já estão sendo tomadas por parte do empresariado, visto que o relativo relaxamento na concessão de vistos tem previsão de acontecer após setembro, tarde demais para a produção e transporte de produtos por via marítima.

Diante disso, diversas empresas estão procurando fornecedores alternativos no Vietnã e em Bangladeche. Além da relativa facilidade de entrada e saída de inspetores, esses países atualmente oferecem custos mais baixos que a China. Resta saber se as empresas retornarão à China com o fim dos jogos, na medida que se sentem prejudicadas e mal tratadas pelo governo chinês.

O que sabe, somente, é que já havia certo receio em nível mundial da estratégia de concentrar a "fábrica do mundo" num único país, com o poder de fogo que tem em termos populacionais, uma história recente de fanatismo político, regras rigorosas para a implantação de investimentos estrangeiros e o fato da China não ter um regime democrático, nem tender a isto.

Desconfia-se, ainda, que a ausência dos inspetores no país durante três meses estimule o surgimento de infinitas oportunidades de manufaturar produtos piratas com insumos verdadeiros. Na verdade, esse é o maior dos temores das grandes marcas de luxo, visto que a classe emergente chinesa é fanática por logomarcas ocidentais.

Aliado a tudo isso, há o fato de que outras indústrias, como de objetos, móveis, suprimentos etc, trabalham com produtos que tem um ciclo de vida mais longo, e os pedidos e inspeções podem ser realizados via internet. Para as empresas brasileiras, é bom lembrar que os produtos recusados na Europa serão escoados para alguma parte do mundo.

Existe até a possibilidade de eles serem oferecidos por aqui com preços irresistíveis. Resta saber se o consumidor brasileiro aceitará "refugo" com satisfação. Para quem sonha com a renovação do guarda-roupa sem gastar muito, vale apostar nos produtores locais.


Maria Alice Rocha é doutora em moda pela University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

Fale com Maria Alice Rocha: modalice08@terra.com.br

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