
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Essa frase é obviamente boa demais para ser minha. Chegou até mim pela amiga Tati Castilhos, vinda não sei bem de onde para escandalizar gente por cada canto desse vasto país. Em um momento do passado o Casseta e Planeta cunhou a bela "Vá ao teatro, mas não me convide", uma homenagem ao Gerald Thomas, imagino.
E o problema - e para quem não arruma namorada há muito tempo isso é obviamente um problema - é que eu meio que concordo com a primeira frase e imploro aos céus pela segunda. Salvo um soluço elizabeteano, que levou dois mil anos pra subir ao esôfago da Inglaterra seiscentista, vindo direto da Grécia clássica, não consigo sentir um barato de maior porte sentado em um teatro, diante de um palco, tremendo de medo e aguardando o momento mais ou menos inevitável em que um ou mais dos atores vai surgir despido pelo corredor arremessando lama na gente.
Penso nisso porque nesse final de semana eu fui um fraco e cedi ao apelo de uma beldade paulistana, que se chama, digamos, Juanita, e, insensatamente fui. Beldade paulistana é um pleonasmo, uma vez que todas as paulistanas são igualmente belas e nenhuma me dá a mínima. Como sou um incapaz de resistir a um convite de uma beldade para o que quer que seja, fui.
Tenho que reconhecer que nessa peça (espetáculo, na linguagem eterna dos atores e atrizes e teatrólogos, sei lá por que), nada do que eu temia aconteceu. Ninguém entrou pelado em cena, ao menos enquanto eu estive acordado e ninguém arremessou sólidos em mim, que eu tenha percebido. Ninguém me devorou, tenho quase certeza, ninguém foi muito escatológico, tirou as calças ou saiu de um fosso empunhando uma armadura medieval feita de latão da Usiminas.
Nada de mau aconteceu, talvez porque, nos intermináveis 60 minutos de espetáculo, nada aconteceu. Saí de lá virgo intacto, ainda segurando a garrafinha de água com que tinha entrado, nenhum sinal de luta ou esgotamente nervoso. Zero a zero, bola ao centro.
No ultimo espetáculo que eu tinha assistido, infelizmente sem a companhia de nenhuma beldade paulistana, muitas coisas tinham acontecido, embora nenhuma delas fosse agradável de ver, particularmente interessante de escutar, especialmente boa de cheirar. Meus sentidos saíram de lá ainda com os vincos, melhor do que a minha bunda, achatada pelas quase três horas de muita experimentação com linguagem e gritaria selvagem.
Nem o teatro onde muito acontece ao longo de muito tempo, nem o teatro onde nada acontece ao longo de pouco tempo, parecem me entusiasmar ao ponto de querer ir, sem que exista a vã esperança de trocas palavras inteligentes e fluidos excitantes com uma beldade paulistana. Nada vai acontecer mesmo, no plano do palco ou da platéia.
Me parece que as artes vivem de tempos em tempos as suas crises. A mim parece que chegou a vez do teatro. Acho que a necessidade de narrativa e ficção que todos sentimos passou a ser melhor oferecida pelo cinema. A vantagem de termos um ator ou atriz ao vivo e em cheiros na nossa frente é descompensada pelo fato de que raramente a experiência seja mesmo muito boa, mesmo que muito intensa.
Ir ao teatro, como ir ao cinema, ao concerto erudito ou de rock, são rituais que herdamos dos séculos anteriores, e não sei se se agüentam nesse século tão virtual.
Ir ao teatro implica, mesmo em São Paulo, descobri, comprar ingresso relativamente caro, ser achacado por guardadores de carros com um aspecto que vou te contar, ver que o pessoal caprichou no visual para essa grande noite, ser intoxicado por perfumes muito doces que muitas apreciadoras de teatro apreciam, me pareceu, e ao final, termos algo em troca que não chega a produzir emoção, entusiasmo, vida.
Me parece que o teatro se afastou da gente e a reação contrária pode não demorar. Está virando, se não virou ainda, uma arte que remete ao passado, e isso é grave. Vamos por que lembramos que era bom, deveria ser bom, não por muitos outros motivos.
Voltando pra casa, depois de ser abandonado na primeira esquina pela beldade paulistana, mandei ver na minha Net Digital High Definition, e na mesma noite vi ao menos dois filmes e um documentário que vou te contar.
Não me acho um sujeito mau, ou desinformado, ou anti-artistico, ou insensível, não dêem ouvidos ao que talvez alguma ex namorada possa dizer a meu respeito. Sou apenas um sujeito simples que espera um bom retorno para os esforços que faço de me permitir ser sacudido, que é o que se espera de uma expressão artística. Se isso não acontece uma, duas, trinta vezes, algo existe de errado comigo, ou com a forma de expressão artística que me deixa nervoso ou com sono, em vez de me tirar desse mundo de dores e desamores por um tempo e me elevar até o divino em todos nós.
Se isso não acontece, e se eu me disponho continuamente a ir, o problema não pode ser comigo, mas com uma arte que não anda bem das pernas.
Eu sou mesmo um fraco e odeio a solidão, de maneira que posso afirmar que ao primeiro convite de uma outra beldade paulistana eu certamente me mando pra praça Roosevelt, pro Tuca, sei lá mais onde. Mas sabendo de antemão o que me espera, no palco ou na platéia, e nada contente com isso. Pano rápido, gongo, e boa sorte nesse ou em outro dos espetáculos que nos esperam louquinhos para nos libertar de uma vida que desejamos, através de atos e palavras que não desejamos, mas vamos receber assim mesmo, tenham certeza, amém.
Terra Magazine