Terra Magazine

 

Sexta, 18 de julho de 2008, 08h27 Atualizada às 10h42

Gravação expõe fratura na cúpula da PF

Claudio Leal e Raphael Prado

Quarta-feira, 9 de julho de 2008. Setenta e seis anos depois da revolução, a de 1932, São Paulo amanhece. Prédio da Superintendência da Polícia Federal, zona oeste da capital paulista.

Menos de 30 horas depois de outro fato revolucionário, a megaoperação da Polícia Federal que prendeu o banqueiro Daniel Dantas, o delegado Protógenes Queiroz, um dos líderes da Satiagraha, está ao telefone. São 10h30 da manhã.

Ele fala com Paulo de Tarso Teixeira, diretor de Combate a Crimes Financeiros. Comentam a operação da véspera, em termos que Terra Magazine já adiantou a seus internautas (leia aqui), mas cujo áudio disponibiliza agora, com exclusividade.

» Ouça a conversa entre os delegados da PF
» Opine aqui sobre a crise na Polícia Federal

No telefonema, dois enxadristas pinçam cada palavra que vão usar, temendo deixar expostas suas rainhas ao adversário. Protógenes reclama da falta de pessoal para auxiliá-lo. Lembra que só tem 3 agentes, analistas, para varrerem mais de 120 gigabytes de dados apreendidos na operação. Quarenta gigabytes per capita.

Um dia depois de ter mergulhado numa das mais profundas investigações da história, a cúpula da Polícia disponibiliza apenas três agentes para garimpar provas, muitas delas para logo, em meio a tonelada de papel.

Paulo de Tarso também reclama. Logo no começo, diz que a reunião que seria realizada em Brasília para discutir a Satiagraha fora cancelada. "Ele mesmo mandou suspender. Então, não precisa vir não", diz a Protógenes. "Ele" é Luiz Fernando Corrêa, diretor-geral da PF. O DG.

O clima piora. Protógenes questiona sobre o inquérito disciplinar que estaria em fase de abertura, contra ele, pelos vazamentos da Operação. Paulo de Tarso inclui outro Tarso na história, o Genro:

- O ministro da Justiça já encaminhou requerimento solicitando informações da Polícia Federal, porque ele foi questionado. Sobre aquela filmagem. Então, o seguinte. O DG adiantou que essa situação aí vai ser apurada.

A filmagem a que Paulo se refere é a exclusiva tomada da TV Globo na prisão do ex-prefeito Celso Pitta. Flagrado de pijama, abrindo a porta de sua residência.

O delegado retruca. Garante que não está preocupado com a questão. Já tem um "grande volume de dados" para criar um novo inquérito, só sobre vazamentos. Vazamentos de dentro da própria PF, esclarece.

- Eu apenas... já tenho um grande volume que tá sendo informado ao Ministério Público e ao juiz diuturnamente.

O assunto termina de forma abrupta. Voltam a falar da falta de pessoal para a operação.

Paulo de Tarso pede justificativas para enviar mais efetivos. Diz que nem precisa mais dizer que o conteúdo é reservado, afinal, é "muita coisa que tá na imprensa".

Protógenes quer mais explicações sobre que tipo de justificativa mandar. Paulo tergiversa, conta que a Band o cobra pela exclusividade da Globo. E desabafa:

- ...hoje está difícil você recrutar gente.

Mas garante que atenderá a demanda. Termina o primeiro, o mais recente depois de deflagrada a operação, de muitos diálogos, triálogos, reuniões que buscam conter a sangria na Polícia Federal.

No último e mais tenso desses encontros, na terça-feira 15, Protógenes e outros dois delegados que o auxiliam, Karina Murakami Souza e Carlos Eduardo Pellegrini, deixam o inquérito da Operação Satiagraha. Voltariam um dia depois a pedido da cúpula.

Daniel Dantas e companhia seguem à margem desse peristaltismo. Mais histórias estão por vir dos intestinos do Brasil.



Leia a cobertura completa de Terra Magazine sobre o caso:
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Terra/Reprodução
Delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, mentor da Operação Satiagraha

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