Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Roberto Souza Causo

Sábado, 19 de julho de 2008, 07h46 Atualizada às 19h27

A volta de um clássico da ficção científica

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), Ursula K. Le Guin. São Paulo: Editora Aleph, 295 páginas. Tradução de Susana Alexandria.

*Por Finisia Fideli

Imagine Gethen, ou Inverno, um mundo gelado nos confins do Universo e que abriga uma civilização culturalmente desenvolvida e tecnologicamente medíocre. Imagine que sua população humana, estimada em 100 milhões de habitantes distribuídos em três continentes, apresente uma característica fisiológica única: as pessoas são hermafroditas perfeitas. Isso significa poder atuar como macho ou como fêmea dentro de um padrão hormonal cíclico, poder gerar, parir e amamentar, e poder ser mães ou pais de seus próprios filhos.

Imagine um enviado de um outro mundo, pertencente a um Conselho Ecumênico (ou Ekumen) que coordena 83 planetas habitados, na troca de conhecimento, comércio e cultura. Todos humanos, organizados há bilênios por um único mundo: Hain. Todos filhos de um mesmo lar, separados por vastas distâncias, transpostas por naves que viajam à velocidade da luz.

Leia também:
» Thomas H. Disch (1940-2008)
» DROPS

Este enviado é um homem da Terra, Genly Ai, um jovem negro na casa dos 30 anos de idade, que assume a incumbência de visitar o planeta e anexá-lo ao Conselho Ecumênico. Quarenta anos antes dele, investigadores fingiram-se de locais, viajaram pelos reinos, aprenderam o idioma e os costumes, voltaram e fizeram um relatório favorável ao Conselho, preparando o terreno para uma visita oficial.

O primeiro reino que Genly Ai visita é Karhide, governado pelo rei Argaven - que não apenas é insano, mas também um imbecil. Sua missão é facilitada por um ministro, Lorde Therem Harth rem ir Estraven. Esse conselheiro do rei é poderoso, senhor de seus domínios e manipulador de grandes acontecimentos, um aliado precioso.

O momento, contudo, não é propício a tais contatos culturais e políticos, devido a uma constante disputa territorial entre Karhide e seu vizinho Orgoreyn. Em Gethen não existem guerras. Embora altamente competitivos, os gethenianos se matam uns aos outros aos pares, raramente às dezenas, jamais aos milhares. Isso talvez se deva à sua androginia, já que a capacidade sexual contínua e a agressividade que induz ao estupro e ao morticínio em massa seriam atributos dos machos, segundo a autora. Além disso, o clima impiedoso do planeta consome o espírito combativo do seu povo numa luta contra as intempéries.

Exatamente na véspera da audiência com o rei, Estraven é banido como traidor. Sem apoio, Genly Ai parte para uma viagem de descobrimento através de Karhide e depois, de Orgoreyn. Envolvido por interesses avessos à mudança que ele representa, o Enviado acaba por colocar sua vida em risco e mergulha num pesadelo de provações e sofrimento que põe em xeque suas convicções sobre lealdade, gênero sexual, regras de conduta e poder.

Com uma narrativa interrompida por relatos de histórias do passado de Gethen, explanações sobre a misteriosa religião yomesh, trechos do diário de Estraven e anotações de Genly aos estáveis de Hain, o romance flui com facilidade, montando aos poucos um mosaico que envolve o leitor e o mergulha nesta fábula repleta de curiosidade, surpresa, drama, esperança, amor e aventura. Sua delicadeza oculta uma saga de autodescoberta e também de maravilhamento. Subverte os parâmetros do que é "normal", "correto", "errado" ou "estranho". Demonstra que aprender é abrir os olhos.

Os gehenianos compreendem tanto o que é ser homem quanto o que é ser mulher. Duas partes do mesmo todo, nenhum aspecto superior ou inferior ao outro. O terrestre que vive permanentemente apenas uma condição sexual é considerado pervertido. Aos olhos de Estraven, contudo, ele apenas é jovem, solitário e vulnerável. Somente com uma atitude compassiva, é que os dois mundos poderão vencer as dúvidas e os temores e estabelecer uma ponte que supere a estranheza e os aproxime numa atitude de aceitação.

Genly Ai é sexista. Sempre se refere aos gethenianos como homens, e lhe desagrada características que ele denomina "afeminadas". Para Estraven, ele admite que não sabe definir as mulheres de sua própria espécie, afirmando que, para ele, elas são "alienígenas". Tem muito o que aprender. Gethen vai lhe ensinar que homens e mulheres não são duas espécies separadas, mas as metades de um todo, o yin e o yang - não opostos, mas complementares. A mão esquerda das trevas, a mão direita da luz.

Ursula K. Le Guin nasceu em 1929, filha de um antropólogo reconhecido e de uma escritora, ambos interessados na vida e cultura dos nativo-americanos. Viveu sempre num ambiente acadêmico e obteve mestrado em literatura da Idade Média e renascentista da França e Itália. Escreveu poesia e vários romances inéditos, ambientados num país imaginário da Europa Central. Suas histórias típicas de ficção científica têm um homem num mundo alienígena e o seguem em sua busca, até que ele descubra alguma coisa que o torne um agente de conciliação.

Os primeiros romances de FC fazem parte da série Hainish, na qual este livro se insere. Pressupõe que o planeta Hain semeou áreas da galáxia com vida humana, resultando numa comunidade de enorme diversidade e riqueza cultural. Publicado em 1969, recebeu os prêmios Hugo e Nebula, os mais importantes da ficção científica. Segundo Peter Nicholls, em The Encyclopedia of Science Fiction, o romance convida a uma reflexão sobre a natureza do sexo e do sexismo no nosso mundo, e do chauvinismo cultural em geral.

O livro foi publicado pela Editora Panorama de Portugal, pela Nova Fronteira, pelo Círculo do Livro, e este ano pela Editora Aleph, com elegante tradução de Susana Alexandria. Apresenta pela primeira vez a introdução escrita pela autora, um delicioso presente para seus ávidos fãs e para toda uma nova geração que ainda não conhece seu estilo límpido e profundo, nem sua filosofia ancorada na tradição do taoísmo oriental, cuja ênfase está no equilíbrio.

Um romance de FC antropológica, uma história de aventuras, uma tragédia, uma jornada de transformação do protagonista no sentido do entendimento de uma cultura que não se divide em gêneros sexuais e que o confronta com suas próprias limitações. Do mesmo modo, também apresenta uma fusão de um discurso científico antropológico e de um discurso mítico poético, perfeitamente realizada e que desafia o leitor a identificar o princípio racional masculino e o princípio intuitivo feminino, fusão que corresponde à fisiologia andrógina do povo getheniano, ecoando o tema central do romance.

A tragédia ocorre quando esse equilíbrio é rompido pela presença do Outro, que não apenas difere fisicamente, mas que também será o catalisador de uma mudança que abalará toda a estrutura de tecnologia, cultura, política e poder, congelada há milênios.

Encontros e perdas, conquistas e derrotas palmilham o caminho do Enviado. O melhor sem dúvida é a sua capacidade de transformar-se, à medida que o livro também transforma quem o lê.

*Finisia Fideli é pioneira no debate do feminismo na ficção científica brasileira, tendo publicado ensaios a respeito nas revistas Cult e Ciência Hoje.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.

Terra Magazine

Reprodução
Capa de uma edição popular do romance de Le Guin sugere a monumental tarefa de compreender uma cultura hermafrodita

Exibir mapa ampliado

Tags

Mais de Roberto de Sousa Causo

» DROPS

» DROPS

» Resenha: Aventura Submarina

O que Roberto de Sousa Causo vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela