
Atualizada às 09h30 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Em 1991, a pequena comunidade paulistana de fãs de FC foi sacudida pela chegada de um convite - enviado aos sócios do Clube de Leitores de Ficção Científica pelo Serviço de Divulgação e Relações Culturais dos EUA e pela União Cultural Brasil-Estados Unidos - para uma palestra a ser proferida pelo escritor norte-americano Thomas M. Disch, no auditório da União Cultural, no dia 11 de setembro.
Conhecido no Brasil apenas de se ouvir falar, Disch foi um dos principais nomes da New Wave norte-americana, o movimento que, surgido na Inglaterra, veio questionar as bases populares da FC. Em 1991 ele não tinha nenhum livro publicado no Brasil ou em Portugal, apenas cinco histórias publicadas em revistas como o Magazine de Ficção Científica, não obstante o fandom paulistano esteve substancialmente presente à sua palestra. Mesmo porque, para a divulgação, o CLFC foi cortejado por Gerry L. Williams, uma afro-americana fã de FC que então servira como Adida Cultural Adjunta, no Consulado Americano. Ela e seu marido, Jeff, outro fã, costumavam freqüentar as reuniões do clube.
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A fala de Disch foi uma elaboração da sua famosa e polêmica conferência "The Embarrasments of Science Fiction", primeiro apresentada numa série de conferências no Instituto de Artes Contemporâneas de Londres, de janeiro a março de 1975. Outros participantes incluíram Ursula K. Le Guin, John Brunner, Harry Harrison, Alvin Tofler, Peter Nicholls, Robert Sheckley e Philip K. Dick, e o foco das falas foi a "interface entre a ficção científica e a realidade". As conferências foram reunidas no livro editado por Nicholls, Science Fiction at Large (1976).
Os "embaraços" da FC listados por Disch se resumiam à opinião de que o gênero seria um ramo da literatura para crianças, por não ser sofisticado - no sentido social e intelectual, de quem não de deixa levar por entusiasmos infantis - e por projetar fantasias de poder e se nutrir dos ressentimentos das classes baixas. A FC seria, para ele, provinciana, e enquanto fosse assim, não poderia reivindicar a atenção das capitais das artes. Logo a seguir ele atenua cada uma dessas afirmativas, observando que eles têm o seu papel até mesmo na oposição à hegemonia das classes altas, mas o fato é que a essa altura ele já havia posto o dedo na ferida: essas são as coisas que incomodam os fãs, quando não estão reunidos em torno do seu interesse por FC, e mergulhados no "mundo real". E Disch fez de propósito, é claro! Repetir a palestra de 1975 também sugere que, 16 anos depois, ele não mudara muito de opinião.
Sua conferência, muito afinada com os ideais da New Wave, pedia sofisticação moral, distância dos clichês e a exposição literária daquilo que é psicologicamente reprimido, e atingiu o nervo até de autores como Ivan Carlos Regina, que estava na platéia e se ressentiu de Disch dizer (na versão brasileira da famosa conferência) que um certo grande nome da FC lhe devia dinheiro, ou que um romance de criação de mundo como Duna era, por isso mesmo, fantasia compensatória. Regina foi o criador do "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira" (1988). No manifesto, ele também exigia distância dos clichês e expressão do psicológico e do psicossocial, e não obstante, também rangeu os dentes diante da fala do americano. Marcello Simão Branco, em seu fanzine Megalon, escreveu que a "passagem de Disch pelo Brasil causou polêmica e indignação entre os fãs brasileiros".
Disch, que é homossexual assumido, acabou gerando um momento ainda relembrado do folclore do fandom
, ao dar, na conversa depois da conferência, uma espécie de cantada em código gestual, a um conhecido fã de São Paulo.Naquela ocasião, deixei com Disch uma cópia do meu então canhestro fanzine Papêra Uirandê, e uma carta em que pedia uma entrevista por correspondência, mas fui surpreendido por um telefonema de Ms. Williams marcando a entrevista para o dia 14, um sábado, no Maksud Plaza, hotel de São Paulo em que o escritor se hospedava. Fui também surpreendido com a sua acessibilidade, considerando que sua palestra também deitava fogo sobre os fãs e sua freqüente ingenuidade. Por que então admitir uma entrevista a um fanzine?
Minha esposa (então namorada) Finisia e eu fomos até o hotel e logo o encontramos no saguão, antes mesmo da chegada de Gerry Williams. Finisia estava lá para fazer fotografias e duplicar a entrevista para o Somnium, o fanzine do CLFC, dentro da série "Encontros" que ela havia iniciado um ano antes entrevistando Rubens Teixeira Scavone. É assim que ela descreveu Disch: "Um homenzarrão de terno amarfanhado, parecido com um gigantesco bebê, careca e rosado como todo americano típico, criado com leite tipo A e proteína da melhor qualidade". Era a sua primeira vinda ao Brasil, e ele comentou ter tomado um comprimido para dormir no vôo, e ao despertar sobre São Paulo achou que ainda estava deixando Nova York. Nada de papagaios nas árvores nem cobras atravessando a rua, como ele imaginara.
Disch foi muito paciente com o nosso inglês ruim, respondeu tudo com seriedade e reflexão. Minha entrevista acabou nunca saindo, mas Finisia e eu naquele dia descobrimos que muito do que Disch dizia ou fazia tinha um caráter de performance - como as provocações da sua conferência ou ao pousar para a câmera de Finisia diante de uma loja de roupas infantis. Era bem possível que sua verdadeira face fosse a da pessoa gentil e paciente que nós conhecemos naquele dia no hotel.
Em 1997 adquiri diretamente com ele autorização para publicar sua noveleta "A Abdução de Bunny Steiner ou uma Mentira Descarada" na antologia Estranhos Contatos (Caioá Editora, 1998). Novamente ele foi acessível, e tratou conosco diretamente, contornando o seu agente literário.
Esse conto não é bem ficção científica, mas o comentário de um nicho da cultura americana relativamente próximo dos leitores de FC. O protagonista é Rudy, um escritor decadente de FC e fantasia, que é contratado para escrever um relato da suposta abdução, por alienígenas, de uma menina de cinco anos chamada Bunny Steiner. Trata-se de uma farsa editorial, a partir do fomento de uma comoção junto ao público, que promovesse a venda de um livro - totalmente fictício - sobre as experiências feitas com Bunny nos discos voadores. Por trás do cinismo da situação, e da exploração irônica do melodrama, a história nos desafia a enxergar ternura no relacionamento de Rudy e Bunny.
Ou talvez eu esteja apenas projetando a impressão que Finisia e eu tivemos de Disch naquele sábado.
O fato é que ele foi um escritor adepto da ironia e da sátira social, seja na sua FC, ou em romances de dark fantasy que desnudavam a hipocrisia da sociedade americana, como The Businessman: A Tale of Terror (1984), The M.D.: A Horror Story (1991) e The Priest: A Gothic Romance (1994). Esse último título faz lembrar a sua peça The Cardinal Detoxes (1990), que foi condenada pela Igreja Católica. Criado como católico, ele afiou seu machado contra a hipocrisia clerical. Também um poeta de certo renome, Disch tem dois livros de poemas listados por Harold Bloom, o eminente crítico literário, em sua lista do cânone americano no século 20 - além do romance de FC On Wings of Song, ganhador do John W. Campbell, Jr. Memorial Award em 1980.
Outras obras de Disch receberam prêmios da FC, incluindo The Brave Little Toaster (1980), que foi transformado num filme da Disney e exibido na TV brasileira. Essa novela infantil recebeu o prêmio Locus 1981. Seu ensaio em livro, The Dreams Our Stuff Is Made Of: How Science Fiction Conquered the World, ganhou um Hugo em 1999.
O fato de ele não ter sido muito publicado em português dificulta avaliar a sua obra, além da reputação que ele construiu entre os cultores anglo-americanos da FC, a partir da década de 1960. Tive chance de ler The Genocides, seu primeiro romance, publicado em 1965 e testemunho de sua precocidade literária (seu primeiro conto foi publicado quando ele tinha 22 anos). É um romance curto e impiedoso, história de invasão da Terra por alienígenas que usam o planeta para o plantio de suas commodities agrícolas, sem se importar com a humanidade ou o meio ambiente.
Sobreviventes humanos vivem nas plantas gigantes como pragas, e às vezes são dizimados casualmente pelos defensivos agrícolas alienígenas. Os sonhos de reconquista são apenas delírios de grandeza e expressões de impotência semelhantes aos do personagem Artilheiro, de A Guerra dos Mundos de H. G. Wells. Fantasias compensatórias.
O lado duro de Disch, prevalecente em boa parte de sua obra, também aparece em Camp Concentration (1968), seu romance mais famoso, sobre um campo de concentração em que militares são submetidos a testes com uma droga multiplicadora de inteligência, com efeitos desastrosos para suas cobaias humanas. Com 334 (1972) e On Wings of Song (1979), forma a tríade de clássicos do autor, considerados dentre os melhores livros de FC do século 20. Contos mais recentes tendem para o absurdismo e para o uso do melodrama pós-modernista.
Thomas M. Disch cometeu suicídio com um tiro, aos 68, em seu apartamento em Manhattan, no dia 4 de julho de 2008.
Foi a culminância de um processo que, ao que parece, começou com a morte de câncer em 2005, do seu companheiro há 30 anos, o poeta Charles Naylor. A doença consumiu as economias de ambos, e o autor, também abalado por um incêndio em seu apartamento e pela perda de uma casa no interior para uma infestação de bolor, lutava contra o peso excessivo, diabetes e depressão. A morbidez passara a ocupar suas reflexões e poemas.
Autor de mais de 40 livros, incluindo poesia, romance, livros de contos, teatro, crítica literária, teatral e social, Disch enfrentava um bloqueio já há anos, mas vinha saindo dele, tanto que seu livro mais recente, The Word of God, um romance, saiu no mesmo mês de sua morte; um livro de contos está programado para 2009. Os amigos tinham esperança de que a publicação o ajudasse a sair do estado depressivo, mas ao que parece a ameaça de despejo que ele vinha sofrendo foi mais forte do que a arte que, em sua própria obra, sempre foi o refúgio derradeiro das arbitrariedades do mundo. O suicídio no maior feriado americano, foi sua ironia final.
Quando contei a Finisia sobre a morte dele, ela exclamou:
- Disch? O nosso Thomas Disch?
Pois é estranho como perduram nossas lembranças de um homem que conhecemos casualmente, mas que deixou profunda impressão. O que dizer de seus amigos e leitores admiradores? Fica a obra a ser considerada e relembrada.
Terra Magazine
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Reprodução
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