
Atualizada às 20h37 |
Wilson Dias/Agência Brasil
Gilmar Mendes e Tarso Genro, numa semana de crise institucional provocada pelo caso Daniel Dantas
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Vitor Hugo Soares
De Salvador (BA)
Prestem atenção no poema "Gaúcho", do pernambucano Ascenso Ferreira, tantas vezes declamado, e mais merecedor de citação que nunca nesta babel sem tamanho gerada em diferentes setores - Justiça, polícia, política, imprensa..., pela Operação Satiagraha e suas inumeráveis ramificações : "Riscando os cavalos!/ Tinindo as esporas!/ Través das cochilhas!/ Saí dos meus pagos em louca arrancada!/ Para que? / Pra nada!".
Agora respondam: é ou não a definição mais completa do ministro da Justiça, Tarso Genro, de uns dias para cá? Mais exatamente, desde que Daniel Dantas, ainda nas dependências da Polícia Federal, ameaçou "detonar tudo" se não saísse logo de lá. Prometeu até dar nomes, endereços e contar motivos de tanta gente incluída nas anotações dos livros escondidos em um fundo falso de parede, descoberto na batida dos "federais" no apartamento do banqueiro, no Leblon, para estresse e fortes palpitações de tantos.
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A obra do poeta nascido em Palmares ostenta, por merecimento, duradoura presença na literatura e no coração dos leitores. Em alguns momentos da vida do País, no entanto, como nos "episódios dantescos" (a expressão é do jornalista Bob Fernandes) em curso, os versos e a prosa de Ascenso são cruciais. Fustigam, ajudam a entender fatos e personagens na babel de uma realidade cada vez mais estranha e complicada. Ganham relevância corrosiva e bem humorada muito próxima à dos escritos satíricos de Gregório de Mattos, o "Boca de Brasa", na Bahia do Século XVII.
Menos de três horas depois das declarações de Dantas, cheias de veneno misturado com nitroglicerina se tornarem públicas, no turbilhão da semana passada, o dono do Grupo Opportunity era liberado por decisão "de cima" na sua segunda e breve passagem pelas celas da Polícia Federal, em São Paulo, autorizada, "de baixo", pela Justiça paulista. No rastro, fraturas expostas "de todo tamanho e qualidade", como dizem os baianos. Outras, ainda ocultas. Mas, daí para cá, a fumaça que já era intensa virou fumaceiro mais turvo que o causado pelos incêndios em áreas do cerrado do Planalto Central, em tempos de seca como agora.
Ficou impraticável distinguir com nitidez uma Ema de uma Paca, mesmo quando se olha a menos de um metro de distância. Só uma coisa parece nítida no meio das brumas: no curtíssimo espaço de uma semana, ninguém mudou tanto e tão drasticamente quanto ministro da Justiça, principalmente depois do retorno do presidente Lula da viagem ao Vietnã e adjacências asiáticas.
Quem tiver dúvidas, basta comparar o que fazia e, principalmente, o que falava o ministro Tarso Genro antes disso, na defesa incisiva da legalidade e correção no trabalho dos agentes da PF envolvidos na Operação Satiagraha, crivados de críticas por "espetacularização" e "excesso de algemas", denúncias que assumiram o primeiro plano no barulho do noticiário e dos debates acirrados que se seguiram. Decibéis elevados de acusações, a ponto de jogar para plano secundário a essência de fatos e de personagens que vieram à tona no maior escândalo administrativo e financeiro da história recente.
"De vinho a água" é pouco para comparar o novo jeito de agir e falar do ministro da Justiça em seus movimentos dos últimos dias. Mais exatamente, pós-reunião da terça-feira no Palácio do Planalto com o presidente Lula, à qual Genro esteve presente ao lado do presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes - com o qual o ministro da Justiça travava até então ferina e feroz batalha verbal, com estilhaços voando para todo lado.
Praticamente todas as baterias - a começar pela artilharia pesada do ministro Genro e de alguns de seus chefiados de mais alto coturno na Polícia Federal -, parecem deixar de lado alvos prioritários: fatos e personagens da Operação Satiagraha no recente "mergulho aos intestinos do País" (a expressão também é de Bob) e a detenção de figurões como Dantas, Nahas e Pitta, entre outros. Desviam-se agora, rápida e ferozmente, na direção do planejador e executor da Operação Satiagraha, delegado Protógenes Queiroz. Sobras de chumbo grosso parecem reservadas também para o juiz paulista Fausto De Sanctis.
Tudo como de praxe. Por enquanto, espanto mesmo só com "a certeza de Daniel Dantas ao se declarar 'tranqüilo' quanto ao Supremo Tribunal Federal, do qual nada temeria", como registra Carlos Heitor Cony em texto exemplar sobre o caso, publicada na Folha. Retornemos então a Ascenso Ferreira, desta vez na prosa de "Tradição e outras histórias", para terminar.
"Terraço da Casa-Grande, fartura espetaculosa dos coronéis:
- Ó Zé-estribeiro! Ó Zé-estribeiro!
- Inhôôr!
- Quantos litros de leite deu a vaca Cumbuca?
- 25, seu Curuné!
- E a vaca malhada?
- 27, seu Curuné
- E a vaca Pedrês?
- 35, seu Curuné!
- Sóó? Diabo! Os meninos hoje não tem o que mamar."
Grande Ascenso!
Leia a cobertura completa de Terra Magazine sobre o caso:
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