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Segunda, 21 de julho de 2008, 07h46 Atualizada às 17h01

Casas de leitura contra a barbárie

Reprodução
O escritor Milton Hatoum (ao centro, de óculos) em visita a Casa de Leitura Chico Mendes, em Rio Branco, no Acre
O escritor Milton Hatoum (ao centro, de óculos) em visita a Casa de Leitura Chico Mendes, em Rio Branco, no Acre

Milton Hatoum
De São Paulo

Ao Lhé, à família Zannini e aos amigos acreanos: anfitriões fantásticos.

I

No dia 22 de dezembro de 1988 Chico Mendes foi assassinado na soleira da porta dos fundos de sua casa, em Xapuri. Uma casa de madeira, com dois quartos pequenos separados por um tabique, e uma saleta onde mal cabem duas cadeiras, uma mesinha e uma estante. Poderia ser a casa de um homem só, mas nela moravam também a mulher e os dois filhos do líder dos seringueiros.

Uma modesta biblioteca me chamou atenção quando visitei a casa desse homem covardemente executado. No canto da estante havia livros de ficção, história, política, geografia e alguns volumes de uma enciclopédia. Enquanto lia o título de cada livro, imaginei o leitor sentado diante de uma mesinha ao lado de sua cama; imaginei também o escritor anotando idéias, impressões e aforismos sobre a vida na floresta, a vida dos trabalhadores que dependem do meio ambiente para sobreviver. Ou melhor, para viver com dignidade.

A estante com livros tem um forte significado simbólico: a morada de Chico Mendes e sua família é também uma casa de leitura. Às vezes, o assassinato de um ser humano é o triunfo da violência covarde contra a inteligência e o conhecimento.

II

Tão simbólica quanto real é a Casa de Leitura Chico Mendes, situada na zona leste de Rio Branco, num bairro que também tem o nome do líder assassinado. A Casa de Leitura foi criada em 2005 por Gregório Filho, então diretor da Fundação Elias Mansour. É um projeto educacional e cultural simples e despretensioso. Por isso mesmo impressiona. E, por que não dizer, comove. Impressiona e comove por sua ampla dimensão social, e também porque as pessoas envolvidas nesse projeto são educadores apaixonados pela profissão a que se dedicam. Voluntários da própria comunidade do bairro Chico Mendes participam das atividades da Casa. Mais de cem crianças e jovens de um subúrbio pobre são estimulados a ler, ouvir e contar histórias. Cantam, brincam, lêem e encenam jogos e breves peças teatrais num espaço que não é uma creche, e sim um lugar de descoberta do mundo, viagem do imaginário.

Aprender a ler bons livros é uma forma de libertar-se. Dificultar ou barrar o acesso das artes e da cultura livresca a pessoas humildes é, no mínimo, uma miopia política e um preconceito de classe. Talvez seja uma das maiores indignidades deste país, em que certos investidores, políticos e banqueiros saqueiam a nação de um modo vil e quase sempre impune.

Há outras Casas de Leitura na capital e no interior do Acre, e a idéia da Fundação Elias Mansour é expandir e multiplicar essa experiência em vários municípios acreanos. Um trabalho semelhante é feito pela Expedição Vaga-Lume, uma ONG que atua em muitas cidades e comunidades da Amazônia. Seria interessante estabelecer um diálogo entre essas duas experiências, pois ambas são vitoriosas e servem de exemplo transformador para o Brasil.

III

Desconfio de projetos megalômanos e de discursos pomposos. A Amazônia - plural, complexa, diversa - exige estudos minuciosos, olhar de lupa, conhecimento científico e cultural apurados. Isso está sendo feito aos poucos e sem muito alarde no Acre. A Usina de Artes e a Biblioteca da Floresta Marina Silva são mais dois belos exemplos de intervenção cultural em Rio Branco. A Biblioteca é um projeto de arquitetura ousado que abriga atividades culturais relevantes, exposições permanentes sobre os povos indígenas e descobertas arqueológicas do Acre. Além disso, promove debates sobre questões da Amazônia. É um laboratório vivo e dinâmico que não deixa nada a desejar a uma boa biblioteca de um país civilizado.

O Acre era um Estado esquecido e marginalizado. O fato de hoje situar-se no centro da transformação social da Amazônia não é um milagre, e sim fruto de um processo que exigiu trabalho árduo, luta e participação popular. E ainda a determinação de um grupo político coeso, sonhador e com visão transformadora, movido pela crença na utopia, esta palavra tão fora de moda.

Chico Mendes e outros brasileiros foram assassinados ao longo desse processo. Oxalá o atual governo e políticos progressistas do Acre não se acomodem, nem façam alianças duvidosas com o único objetivo de manter-se no poder. O trabalho de dez anos pode dissipar-se em dez semanas. Sem contar que, no Brasil, a mediocridade e as forças conservadoras têm garras poderosas. No fundo, a luta contra a barbárie deve ser constante, sem trégua e sem descanso. Na sua aparente simplicidade, as Casas de Leitura são marcos pontuais de civilização e pesam muito mais do que uma tonelada de retórica ou propaganda, que, essa sim, não passa de promessa vazia.

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Órfãos do Eldorado, Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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