
Atualizada às 14h54 Carlos Drummond
De São Paulo
Autoridades que, na defesa do interesse público, enfrentam banqueiros obtêm reconhecimento público e, eventualmente, entram para a história. Pelo menos é o que mostra o exemplo - eventualmente inspirador para as autoridades que investigam o Banco Opportunity na Operação Satihagra - do famoso legislador e juiz Ferdinand J. Pecora, que, nos anos 1930, foi conselheiro-chefe do comitê do sistema financeiro do senado dos Estados Unidos, durante a investigação do sistema bancário e das práticas de corretagem do país.
Pecora liderou a tomada de depoimentos sobre as causas da quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Os trabalhos da comissão deram origem a uma grande reforma do sistema econômico-financeiro sob o comando do presidente Franklin D. Roosevelt, eleito em 1932. Entre os depoentes que se depararam com o implacável juiz, destacavam-se os banqueiros Thomas W. Lamont, Otto H. Kahn, Albert H. Wiggin, Charles E. Mitchell, este presidente do National City Bank, e, o mais proeminente de todos, John Pierpont Morgan Jr., expoente das instituições financeiras batizadas com o seu nome de família.
A imprensa noticiou com grande destaque a revelação, obtida por Pecora, de que Morgan, o banqueiro mais poderoso do mundo na primeira metade do século 20, não havia pago um centavo de dólar do imposto federal sobre a renda em 1930, 1931 e 1932. O total de impostos pago pela Casa Morgan e seus sócios nos cinco anos anteriores tinha sido de apenas cinco mil dólares, revelou o juiz.
A determinação e a eficácia do trabalho de Pécora o levaram para a capa da revista Time, edição de 12 de junho de 1933. A comissão do senado, que ficou conhecida como comissão Pecora, produziu evidências de irregularidades sistemáticas praticadas pelos bancos e outras instituições financeiras em benefício dos ricos e em prejuízo dos milhões de americanos que viviam em extrema pobreza por efeito da crise econômica. Como reconhecimento pelo seu trabalho, Pecora foi nomeado pelo presidente Roosevelt para a recém-formada Securities and Exchange Commission (SEC), a Comissão Valores Mobiliários americana.
J. P. Morgan, que se iniciara nos negócios vendendo duas vezes a mesma mercadoria ao governo nas vésperas da Guerra Civil, só seria flagrado pelas referidas investigações de Pecora. Em contraste com a postura de Pecora, muitos agentes do Escritório de Rendas Internas compactuaram com as irregularidades de Morgan e de suas empresas. Um deles aprovou a declaração de impostos de um dos sócios de Morgan com este comentário suspeito: "Devolvido sem exame, porque a declaração foi preparada nos escritórios de J. P. Morgan and Company e sabemos por experiência que qualquer documento que venha desse escritório está correto".
Deste funcionário, os registros históricos sequer mencionam o nome.
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