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Segunda, 21 de julho de 2008, 11h20 Atualizada às 14h54

Prisão de banqueiros traz reconhecimento público

Carlos Drummond
De São Paulo

Autoridades que, na defesa do interesse público, enfrentam banqueiros obtêm reconhecimento público e, eventualmente, entram para a história. Pelo menos é o que mostra o exemplo - eventualmente inspirador para as autoridades que investigam o Banco Opportunity na Operação Satihagra - do famoso legislador e juiz Ferdinand J. Pecora, que, nos anos 1930, foi conselheiro-chefe do comitê do sistema financeiro do senado dos Estados Unidos, durante a investigação do sistema bancário e das práticas de corretagem do país.

Pecora liderou a tomada de depoimentos sobre as causas da quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929. Os trabalhos da comissão deram origem a uma grande reforma do sistema econômico-financeiro sob o comando do presidente Franklin D. Roosevelt, eleito em 1932. Entre os depoentes que se depararam com o implacável juiz, destacavam-se os banqueiros Thomas W. Lamont, Otto H. Kahn, Albert H. Wiggin, Charles E. Mitchell, este presidente do National City Bank, e, o mais proeminente de todos, John Pierpont Morgan Jr., expoente das instituições financeiras batizadas com o seu nome de família.

A imprensa noticiou com grande destaque a revelação, obtida por Pecora, de que Morgan, o banqueiro mais poderoso do mundo na primeira metade do século 20, não havia pago um centavo de dólar do imposto federal sobre a renda em 1930, 1931 e 1932. O total de impostos pago pela Casa Morgan e seus sócios nos cinco anos anteriores tinha sido de apenas cinco mil dólares, revelou o juiz.

A determinação e a eficácia do trabalho de Pécora o levaram para a capa da revista Time, edição de 12 de junho de 1933. A comissão do senado, que ficou conhecida como comissão Pecora, produziu evidências de irregularidades sistemáticas praticadas pelos bancos e outras instituições financeiras em benefício dos ricos e em prejuízo dos milhões de americanos que viviam em extrema pobreza por efeito da crise econômica. Como reconhecimento pelo seu trabalho, Pecora foi nomeado pelo presidente Roosevelt para a recém-formada Securities and Exchange Commission (SEC), a Comissão Valores Mobiliários americana.

J. P. Morgan, que se iniciara nos negócios vendendo duas vezes a mesma mercadoria ao governo nas vésperas da Guerra Civil, só seria flagrado pelas referidas investigações de Pecora. Em contraste com a postura de Pecora, muitos agentes do Escritório de Rendas Internas compactuaram com as irregularidades de Morgan e de suas empresas. Um deles aprovou a declaração de impostos de um dos sócios de Morgan com este comentário suspeito: "Devolvido sem exame, porque a declaração foi preparada nos escritórios de J. P. Morgan and Company e sabemos por experiência que qualquer documento que venha desse escritório está correto".

Deste funcionário, os registros históricos sequer mencionam o nome.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.

Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br

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