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Terça, 22 de julho de 2008, 07h44 Atualizada às 21h14

"Revoada", de Umberto, é um canto agônico

Calil Neto/Divulgação
O cinema atropela a existência, diz o cineasta José Umberto
"O cinema atropela a existência", diz o cineasta José Umberto

André Setaro
De Salvador (BA)

A celeuma que se estabeleceu em torno do seqüestro realizado por Rex Schindler, produtor, do material já filmado de "Revoada", segundo longa do cineasta baiano José Umberto, fez abrir a discussão sobre os direitos do autor cinematográfico em relação à integridade de sua criação. Schindler, lendário promotor do chamado "Ciclo Bahiano de Cinema" ("A grande Feira", "Tocaia no asfalto", "Barravento"...), aproveitando-se de um interregno no estado de saúde de José Umberto, montou o filme à sua revelia, descaracterizando-o completamente, apesar da ação popular movida pelo autor para reaver seus direitos de concepção. O que faz lembrar, a muitos observadores da história do cinema baiano, um fato parecido ocorrido durante as filmagens de "Barravento", que, originariamente concebido por Luis Paulino dos Santos, sofreu um "golpe" de autoria explícita do seu produtor, Schindler, que destituiu Paulino da direção para colocar o jovem Glauber à sua frente.

Conheço José Umberto desde 1966, há, portanto, 42 anos. Seu primeiro longa, "O anjo negro" (1973), teve o lançamento nacional prejudicado pelas já sabidas injunções do mercado exibidor brasileiro, ainda que visto em várias capitais do país. Umberto, além de cineasta, é escritor ("Dadá", livro, é um documento precioso que relata os tempos heróicos do cangaço pela "vox" da própria, que nomeia a publicação, a esposa de Corisco, cangaceiro de Lampião), pesquisador, dramaturgo ("Desconhece-te"), e sonhador. É autor, nas palavras de Álvaro Guimarães, do primeiro filme "marginal" do cinema baiano: "Vôo interrompido" (1969), e de muitos curtas, entre os quais o premiado "A musa do cangaço". Fui à casa de Umberto fazer a entrevista que se segue. Encontrei-o a ler Lawrence Sterne. O que me espantou pelo requinte e bom gosto.

Terra Magazine - A "angústia da influência", da qual tanto falava o crítico literário americano Harold Bloom, não lhe deve ter colocado aflito nos seus atos de criação, a considerar a sua conscientização dos diálogos dos "textos" fílmicos (no seu caso, penso em Rocha, Ford, Zé Lins do Rêgo, Tarkovsky, Rossellini, Pasolini...). Revoada, assim é se me parece, como diria Pirandello, surge como um somatório de sua matéria de memória literária, cinematográfica, existencial. Há razão no que falo?
José Umberto -
A crítica da razão pura não se sustenta mais em pé, meu caro professor. E toda criação é angustiada. Enquanto a influência nos remete à presença. Daí que o close anuncia a narrativa: o rosto como a síntese ontológica. Sendo que a fala preanuncia o nosso desejo. E este som, articulado em palavras, ascende à categoria plástica, no cinema. O olho "vê" a palavra "pelo" ouvido... que "torna" a imagem onírica. Neste circuito circula a poesia bem como todo filme tem "um dedo de prosa". Uma vez que a sétima arte dialoga com a oralidade ancestral, com o nosso diálogo, fala com os próprios botões, grita, sussurra, produz sintaxe falha, provoca ruídos... enfim, a cinematografia envolve holística. Parodiando, a tela assimila a projeção de 24 mentiras por segundo. Acrescentamos ao nosso repertório espiritual, assim, a sonoridade material de nossas sombras como requisito de pensamento visual. O cinema, então, atropela a existência e fundamenta-se em estética: a beleza e o seu negativo.

Pronto o material filmado de Revoada, o produtor, Rex Schindler, o mesmo de Barravento, obra de estréia de Glauber Rocha, aproveitando-se, inclusive, de um interregno em sua saúde, seqüestrou o copião e foi montá-lo à sua revelia, desrespeitando completamente o direito do autor (ainda que tenha você entrado com ação popular para impedir a desfiguração de sua obra). É a história que se repete como farsa? Ou como tragédia?
A distância entre a realidade e a farsa tá cada vez mais tênue. Constatando a dubiedade cotidiana, saco da questão: Gilberto Gil é ministro-artista ou artista-ministro? Enquanto isso, Pelé não dribla mais nossa fantasia tropicalista. Mas, saindo da metáfora e retornando à vigília: passei vinte anos de minha vida preparando tratamentos consecutivos do projeto cinematográfico Revoada. Em 2005, submeto-o ao edital público de baixo orçamento do MinC... que é aprovado. Tudo tão simples e bucólico, né? Só que não possuo CNPJ nem tão pouco Razão Social. Daí, parti para o Sr. Rex Schindler, produtor histórico do Cinema Novo na Bahia. Da condição de Autor do filme, eu me tornei um Refém do processo mefistofélico. Essa coisa contumaz da cultura tupiniquim de esperto estelionato nacional. Então, meu caro André, superei um câncer, embora fosse atropelado pela truculência do coronelismo nordestino. Ou seja, de cangaço muda-se para gênero policial noir. O pesadelo de filme dentro do filme: quando a metalinguagem supera o Real. Não é que a gente sonha acordado no Brasil?... (risos bem-amarelos ecoam na sala).

O filão do cangaço, denominado de Nordestern pelo crítico carioca Salvyano Cavalcanti de Paiva, há muito que se pôs a dormir no panorama do cinema nacional. Você, caro Zé, quer ressuscitá-lo em Revoada, já que, em alguns de seus filmes anteriores, há uma certa nostalgia do cangaço (A musa do cangaço, filme, um personagem cangaceiro em O anjo negro, seu primeiro longa, e o livro Dada)?
Essa dita nostalgia brota da própria vivência: minha infância em Sergipe D'El Rey foi povoada pelo mito do "capitão" Lampião. O cangaço é a minha sombra. Ele sai da História para entrar no arquétipo do bandoleirismo. Nossa ancestralidade tem algo de criminal. Como, também, possui a pujança arcaica de justiça popular. Eu navego por esse épico-armorial, e assomo ao lirismo da fonte. E, aí, sou tomado pela dramaturgia de sotaque rural como metamorfose da ressurreição civilizatória.

Observando-se a sua filmografia, nota-se, patente, uma opção pela narrativa poética numa fuga ao modelo griffithiano (de David Wark Griitth, pai da narrativa cinematográfica). Você, uma vez, inclusive, queria fazer um filme sobre o São João no qual as pessoas, que o assistissem, pudessem ficar à vontade para dançar na sala de exibição. Não havia nisso uma pretensão demasiada em quebrar, até, a recepção da obra cinematográfica no sentido tradicional. Ou tudo não passou de sonhos de uma noite de verão?
Shakespeare se tornou o paradigma do cânone ocidental. E o artista é um trabalhador incansável. Ele não se satisfaz com a sua criação. Sendo, portanto, um "um homem sem qualidades". Não se trata de um estigma. Porém de uma transcendência. Ao passo que a imanência do cinema ocupa o espaço do possível. Sendo assim, por que não aspirar ao quase-cinema? Uma questão de estilo se impõe nessa armadura do provável. Isto na mais pura sintonia fina.

Li duas vezes o roteiro de Revoada e fiz, durante a leitura, uma tentativa de visualização. A palavra tem uma função coordenativa da expressão e sua idéia se assenta numa composição plástica na qual o corte é totalmente secundário, a privilegiar o plano seqüêncial, as tomadas demoradas. Não estaria nesta postura estética a causa da intromissão indevida do produtor?
O ato inventivo consiste em realizar a montagem durante as filmagens. Buñuel só fazia retirar as claquetes e colar os planos. Esta simplicidade franciscana remonta à remota utopia da sabedoria. Não significa que todo o cineasta tenha que se submeter ao medíocre. Podemos resistir, meu jovem professor. Nós sofremos com o gesto, porém nos purificamos com a consciência. O cinema tem sido vítima do senso comum. Contudo, o artista dedica sua verve à imaginação. E este reino é abençoado pela transvidência. Só uma questão transgressora, de visão oblíqua.

Conte-me um pouco, em resumo sintético, o argumento de Revoada.
O filme poderia ter o subtítulo de O crepúsculo do cangaço. Ele trata do estado terminal de um movimento pré-industrial com toda a performance de grupos gregários. E essa circunstância histórica permeia a configuração de juventude e o seu mal-estar. O cangaceiro emerge do jovem camponês, sem perspectivas, dentro do latifúndio de "palmas medidas". Então, Revoada lança na tela a juventude transviada do sertão. Tudo isso narrado numa estrutura linear: a morte evocando a serenidade da autodestruição. O sertanejo dando o seu grito de solidão na caatinga. O último bando de cangaceiros assombrado com os espectros das cabeças degoladas de Lampião e Maria Bonita. O líder desaparece, no solo seco. E o que resta? A força da fuga pelas montanhas. Enquanto, do outro lado, aperta o cerco da volante policial com superior aparato tecnológico. Estamos, assim, diante da evasão. Diante do sentimento de perda. Enquanto o luto perpassa os corações dos jovens cangaceiros em debandada de desespero. Revoada sendo uma agonia. Porém com o epíteto de que o guerreiro não se entrega a "macaco", jamais. A perspectiva do regional se ampliando ao leque universal. E, dentro dessa corrente cultural de constante cosmológica, o cangaceiro Lampião está para o Brasil assim como o samurai Musashi se manifesta para o Japão, o caubói Billy the Kid pros EUA, o perito em artes marciais Wu Sung pra velha China e as aventuras capas-espada do salteador Robin Hood, da floresta de Sherwood, para a Grã-Bretanha. Este é o princípio nostálgico de eterno retorno uterino do ser.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

Fale com André Setaro: andre.setaro@terra.com.br

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