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Terça, 22 de julho de 2008, 07h43 Atualizada às 17h03

Frustração cidadã

Cláudio Lembo

Um sentimento de frustração amplia-se na consciência da maioria das pessoas. Os noticiários dos jornais, impressos, televisivos ou radiofônicos, conduzem a um estado de depressão cívica.

Parece que se romperam todos os valores mínimos. A convivência respeitosa. O sentimento de solidariedade. A preservação da integridade do outro. A possibilidade de confiar na autoridade.

São sentimentos colhidos ao vôo do pássaro. Permitem às pessoas viver em uma comunidade e se sentirem psicologicamente seguras. Quando estes valores se encontram ausentes, surge o sentimento de desvalia.

Nas ruas, a qualquer momento, a pessoa pode ser atingida pela má-vida. Em seus negócios, constrangida pelos usos irregulares e anormais da máquina pública por maus empresários e piores políticos.

Nada permanece íntegro. Os poderes da República, em graus diferentes, foram atingidos por saraivadas contínuas de notícias constrangedoras. A velha e boa compostura ausentou-se da vida pública.

Todos os países conhecem momentos difíceis. Cada um a seu estilo. De acordo com seus costumes. As crises, contudo, têm duração no tempo e no espaço. Não permanecem indeterminadamente.

Por aqui, as pessoas se encontram atoladas em notícias constrangedoras. Há muitos anos. Crimes inusuais, no cenário privado. Tráfico de influência ou corrupção desabrida apodera-se da administração pública.

Às vésperas da comemoração dos vinte anos da Constituição de 1988, pode-se creditar parte deste cenário aos novos parâmetros comportamentais exigidos dos governos. Já não há lugar para o obscuro.

A exigência constitucional de transparência para todos os assuntos públicos abriu as entranhas do Estado-monstro e as exibiu à cidadania. Nada é sigiloso. Nada é segredo.

A par desta nova realidade, passou-se a conviver com a plena liberdade de informação. Os veículos buscam notícias por toda a parte e, na prática da concorrência, desejam informar primeiro e melhor.

Às vezes ocorrem excessos. Melhor estes. Dramático é se conhecer a meia verdade ou o silêncio total imposto pelas ditaduras. Nestes casos, a aparência de normalidade esconde os piores vícios.

A fragilidade moral é própria de cada pessoa. Só a fiscalização recíproca ou da comunidade sobre os governantes, pode assegurar os equilíbrios morais necessário para se viver na civitas.

Durante 500 anos, viveu-se no interior de regimes autoritários ou em simulacros de democracia. Só, a partir de 1988, passou-se a conviver com a plenitude democrática.

Exercício difícil. O aprendizado é diário. A leitura dos jornais e a interpretação das notícias transmitidas eletronicamente exigem cuidados superiores, em uma democracia.

Não se pode aceitar a primeira versão. As muitas versões devem ser comparadas. Deve-se captar com cuidado a fala dos governantes. Pode conter intenções diversas das expressas.

Nada é fácil em uma democracia. Este sentimento, contudo, é altamente compensado pelo privilégio de se viver em liberdade. A ausência de liberdade é a mais dramática das condições humanas.

Saber que há erro e ter que silenciar. Conhecer as mazelas públicas e ter que se calar. São situações que diminuem as pessoas. Enfraquecem o espírito de solidariedade cidadã.

O momento presente é patético. Vive-se um pesadelo moral. Uma avalancha de notícias escabrosas. Um amontoado de fatos lamentáveis. Tudo isto era esperado.

A democracia levantou a tampa que cobria os esgotos públicos. Deu no que deu. Uma explosão fétida. Passará com o tempo. A limpeza será realizada pelos agentes públicos idôneos e capazes. São muitos.

Mas, o principal agente é a cidadania. O voto universal, conquistado com grande vigor nestes últimos 200 anos, é arma eficaz e ágil. Dentro de cerca de cinqüenta dias, ela poderá ser utilizado com vigor.

As verdadeiras democracias começam nas comunidades locais. As eleições nos 5.563 municípios pode ser um bom começo.

Escolher bons prefeitos e vereadores idôneos, neste ano de 2008, pode constituir um bom prenúncio para as eleições presidenciais de 2010. Ou uma frustração qualificada.

Aí não há o que se lamentar. Cada povo tem o governo que merece. Ou empresários de acordo com seu perfil. Restará, neste caso, entronizar como rei a Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.


Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

Fale com Cláudio Lembo: claudio.lembo@terra.com.br

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