Terra Magazine

 

Terça, 22 de julho de 2008, 07h43 Atualizada às 15h00

Razão e coração

Marina Silva
De Brasília

Nós temos três maneiras de nos mobilizarmos para proteger os recursos naturais. Uma, pela sensibilidade, pelo coração, muitas vezes confundida com romantismo, sentimentalismo, falta de senso de realidade. A segunda é pela razão, guiada por uma visão pragmática. A terceira é pela repressão.

Pensei nisso ao ler, no Correio Braziliense, informações sobre a preocupação do setor de seguros com as mudanças climáticas. Nos últimos 30 anos, dizia a notícia, a média de pagamentos de sinistros em virtude de desastres climáticos cresceu 30 vezes, atingindo perdas de 60 bilhões de dólares em 2005, com previsão de perdas de 41 bilhões anuais para a próxima década, podendo atingir picos de 100 bilhões.

O mercado segurador começa a investir pesado em estudos científicos sobre mudanças climáticas para tentar prever e evitar prejuízos. Há executivos que defendem, inclusive, que as companhias de seguro passem a incentivar empresas a adotarem tecnologias menos agressivas ao meio ambiente e a pensarem em descontos nas apólices para quem utilize carros com baixa emissão de gás carbônico. E uma gigante do ramo tem hoje uma parceria com a WWF, ONG ambientalista de expressão mundial, para realizar pesquisas nesse sentido.

Pela sua dimensão, esse caso se presta a uma reflexão sobre o estágio em que nos encontramos ante os profundos danos ambientais causados pela humanidade ao planeta, acelerados principalmente no último século. Quando nos deparamos com um quadro tal como o descrito no Correio, vemos que a situação chegou a tal ponto que, finalmente, dá indícios de uma mudança cultural substantiva no mercado.

O ideal seria todos se mobilizarem em defesa do meio ambiente por respeito ao planeta e às formas de vida que o habitam. Mas pode-se considerar um avanço a adoção de posturas mais sustentáveis por muitos, mesmo que isso só aconteça quando o prejuízo chega ao bolso. Resta ainda uma grande massa que pratica atentados contra o meio ambiente por falta de visão, de conhecimento ou de estratégias. E há os que sabem aonde sua irresponsabilidade pode levar, mas continuam a esbulhar a sociedade por meio do uso criminoso dos ativos ambientais. Nesse caso, a sociedade deve aplicar a lei para barrar delitos que afetam os direitos coletivos atuais e futuros.

Com a comprovação científica e estatística de que já vivemos sob os efeitos de uma catástrofe ambiental configurada pela aceleração do aquecimento global e pela ocorrência de eventos climáticos extremos, a boa notícia é que o número dos adeptos pela via da razão tem aumentado significativamente. Será melhor ainda se isso significar um passo adiante, ou seja, a expansão da atitude de prevenção.

Esta é a grande lição. Começaremos a mudar de verdade quando deixarmos de correr contra o prejuízo e valorizarmos o princípio da precaução, consignado na Convenção da Biodiversidade, da qual o Brasil é signatário. Ela afirma que, na existência de dúvidas sobre as conseqüências - ambientais ou para a vida humana - de certas tecnologias ou práticas, elas não devem ser usadas até haver conhecimento mais avançado a seu respeito. No entanto, alguns reivindicam, em geral em nome de lucros ou interesses imediatos, que só se aja diante de eventuais danos causados. É a política do leite derramado. Só que, em muitos casos, o estrago ambiental se torna irreversível, tal é sua monta.

Certamente, a adoção do princípio da precaução há algumas décadas tornaria dispensável gastar hoje tantos bilhões para reparar erros. A questão é não cometê-los. E, nesse caso, a junção de razão e coração é fundamental para criar uma nova qualidade na relação da humanidade com a natureza, onde estão nossos maiores ativos. Não há invenção que não parta de algum elemento ou ensinamento da natureza, mesmo aquelas que nos parecem, à primeira vista, totalmente sintéticas. Se nossa principal matéria prima é o planeta, então vamos tratar de prevenir sua exaustão, ainda que agindo exclusivamente em causa própria.

Vejam o caso da Amazônia, onde está o maior e mais poderoso sistema de águas continentais, com 11% das reservas de água doce do mundo. Quando se fala em conter o desmatamento, não se está falando apenas em manter de pé uma floresta exuberante. Ela promove a circulação de vapor d'água para além de suas fronteiras, numa verdadeira cabeceira de rio aéreo de vapor, como dizem os cientistas do Projeto Rios Voadores (http://riosvoadores.com.br), que garante chuvas nas áreas responsáveis pela produção econômica de 70% do PIB da América do Sul.

Há alguns anos, o câncer era uma doença de altíssima letalidade, geralmente vista como sentença de morte e tratada após estar instalada. Hoje, se não se tem ainda a cura total, há um controle muito maior, especialmente pela ampla difusão de cuidados na prevenção, feita pela alimentação e hábitos de vida saudáveis. E assim com várias outras doenças. Se entendemos as vantagens da mudança preventiva de hábitos para cuidar do nosso corpo, por que não teríamos a mesma atitude em relação à saúde do planeta que, afinal, é o grande corpo que nos abriga a todos?


Marina Silva é professora secundária de História, senadora pelo PT do Acre e ex-ministra do Meio Ambiente.

Fale com Marina Silva: marina.silva08@terra.com.br

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