
Atualizada às 13h58 Wálter Fanganiello Maierovitch
Especial para Terra Magazine
A internacionalmente famosa Operação Mãos Limpas (Mani Pulite), iniciada em 17 de fevereiro de 1992 e conduzida pela magistratura do Ministério Público de Milão, começou com a prisão cautelar do corrupto Mario Chiesa. Ele era gestor do mega-complexo público, hospital e asilo chamado "Pio Albergo Trivulzio", de Milão.
Engenheiro eletrônico de profissão, Chiesa mantinha filiação no então Partido Socialista: depois da Operação Mãos Limpas houve uma reforma partidária, com a mudança de nome dos partidos em razão do escândalo desmoralizante.
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Chiesa havia sido guinado ao cargo de administrador do Pio Albergo Trivulzio graças às influências do ex-premiê Bettino Craxi e do filho Bobo Craxi.
Bettino Craxi, posteriormente e a fim de evitar a prisão, fugiu para a Tunísia. Lá, possuía uma luxuosa mansão com frente para o mar e uma fonte de mármore subtraída de um depósito da prefeitura de Milão, onde fora prefeito.
Condenado definitivamente por corrupção, caixa 2 para campanhas políticas, tráfico de influência e lavagem de capitais, Craxi - que transformou o partido político que presidia numa agremiação de clientela como era também o Partido da Democracia Cristã -, só voltou à Itália por força de uma urna mortuária. Em outras palavras, encontra-se definitivamente preso a uma sepultura, em terra natal.
Para tentar se desvincular do escândalo de Mario Chiesa, flagrado a arrecadar ilegalmente comissões de empresas privadas prestadoras de serviços, Craxi, numa entrevista, assumiu ares de varão de Plutarco e xingou o correligionário de "Mariuolo" (gatuno).
Craxi se deu mal. O chinês Sun Tzu, na sua obra A Arte da Guerra - que se transformou em livro de cabeceira de muitos políticos brasileiros, oportunistas e lobistas -, ensinava que não se deve encurralar a ponto de a única saída para o oprimido consistir em pular no pescoço do opressor.
Além de Chiesa não ter gostado do apelido (Mariuolo - gatuno) que pegou, a sua esposa, numa visita ao cárcere milanês de San Vittore, informou-lhe que o pequeno filho, de 10 anos, estava envergonhado. Na escola pública, os coleguinhas já o chamavam de "piccollo mariuolo" (gatuninho). Por isso, a criança se recusava a visitar o pai no presídio de San Vittore.
Preso em 17 de fevereiro de 1992, Chiesa, no primeiro interrogatório judicial realizado em 27 de março, abriu os seus arquivos de fichas sujas sobre falcatruas: a mais extensa era de Craxi.
Chiesa apresentou aos juízes, com raro poder de síntese, a realidade italiana, em face das co-relações entre lobbies econômicos, administração pública e políticos: "TUTTI RUBIAMO COSI" (todos roubamos assim).
No Brasil, uma operação mãos limpas esbarraria em intransponíveis entraves legais, ou, quando não, em leguleios de acordar Rui Barbosa e Pontes de Miranda do sono eterno. Por isso, o crime organizado continua a ganhar do Estado.
Numa Operação Mãos Limpas, Daniel Dantas estaria preso, até o julgamento. Pela hipocrisia brasileira, estão presos apenas dois agentes corruptores. Referidos presos cumpriam determinações de Dantas, que era o mandante. Para quem tiver dúvidas a respeito, é só atentar à lógica do velho direito romano: Qui Prodest? (A quem serviu? Quem tirou proveito?).
PANO RÁPIDO. Na semana passada, o governador do Abruzzo, Ottaviano del Turco, foi preso por receber propinas (tangenti). Da cadeia, renunciou ao cargo de governador. No final de semana, teve autorização para sair da cela e pintar na biblioteca. E ao jornal La Reppublica, de maior tiragem, declarou que se defenderá da cadeia.
No Brasil tudo é diferente. Basta atentar para os limites da Operação Satiagraha. O delegado que presidia o inquérito foi afastado com o aval do presidente da República e o ministro Gilmar Mendes, sem competência e a contrariar jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), soltou o suspeito de comandar uma organização criminosa, de atuação ininterrupta e forte poder corruptor.
Até quando?
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