
Atualizada às 20h07 Amilcar Bettega
De Paris
À frente da minha casa há uma pracinha que posso ver desde a janela, um pequeno jardim público dividido em quatro quadriláteros de grama separados por dois caminhos de terra em forma de cruz. As roseiras ficam em torno dos quadriláteros gramados. São rosas amarelas, brancas, vermelhas e cor-de-rosa, que nessa época do ano abrem suas pétalas generosamente. O jardim é cercado e permanece fechado durante a noite, como todos os jardins públicos parisienses.
Às oito horas ele é aberto, por uma jardineira loira de uns vinte e poucos anos, vestida com o blusão verde do departamento de Parques e Jardins da prefeitura, bermudas também verdes e umas botas de cano curto que sobem até um pouco acima do tornozelo. A jardineira porta luvas e traz um ancinho na mão direita. Suas pernas estão à mostra, pelo menos a parte que vai do meio das coxas até as canelas. São pernas firmes, bem delineadas.
Quando a jardineira vem para abrir o jardim, eu estou à janela. Ela puxa um molho de chaves do bolso e destrava os cadeados com algum ruído. Faz uma rápida inspeção nos canteiros e, não encontrando nada de anormal, sai para abrir os demais jardins no bairro. Ela voltará mais tarde, numa hora incerta, para outros serviços de rotina.
A jardineira percorre os jardins das redondezas verificando a saúde das flores e das plantas, a limpeza da grama e a boa aparência do jardim. Sei disso porque esses dias a vi a duas quadras da minha casa, saindo de um outro jardim e se encaminhando para o que fica em frente à minha janela. Fomos juntos, eu a alguns metros atrás dela.
De perto, pude ver que ela é ainda mais jovem. Talvez nem vinte anos. Apesar de loira a jardineira tem olhos escuros, o que lhe confere um olhar bastante profundo. Foi quando paramos numa esquina esperando o sinal fechar para os carros que eu fiquei ao seu lado e vi os seus olhos e seu olhar profundo. Quando o sinal fechou, nós avançamos.
A jardineira tem um jeito particular de andar. Suas panturrilhas são firmes (acho que já disse) e ligeiramente bronzeadas porque estão sempre descobertas e nessa época do ano o sol comparece com alguma freqüência. Seus passos não são leves, mas talvez essa impressão seja dada pelo uso das botas. Porém, o detalhe particular, ainda que seja notado quando ela caminha, está na forma como ela torce os pulsos para fora, acionando os tendões das mãos e dobrando-as de maneira que elas assumam uma posição perpendicular ao antebraço. Sempre que caminha ela torce os pulsos e as mãos se tensionam. Quando pára, as mãos tombam e o braço retoma outra vez uma linha reta, do ombro à ponta dos dedos.
Mesmo usando luvas para a maioria das tarefas, os dedos da jardineira trazem resquícios de terra sob as unhas, e a palma das suas mãos são um pouco encardidas.
Com freqüência a jardineira leva as mãos aos cabelos. Os cabelos da jardineira vão até um pouco abaixo do pescoço, uns dez centímetros no máximo. Eles são lisos e presos por um elástico, o que deixa sua nuca à mostra.
A jardineira tem um sinal na parte posterior do pescoço, à direita, entre a orelha e o início da espádua. É um sinal pequeno, do tamanho de uma lentilha, e levemente em relevo. Ele fica em meio a uma penugem rala e dourada que recobre a pele que desce desde a nuca. De vez em quando a jardineira aperta o elástico do seu rabo-de-cavalo, movimentando-o com um gesto que libera o aroma do seu pescoço. O pescoço da jardineira tem cheiro de rosas. A pele do pescoço da jardineira é igualmente macia como a pétala de uma rosa. A forma da sua orelha é delicada e o lóbulo ligeiramente maior do que a delicadeza das proporções faria intuir. A respiração da jardineira faz um ruído rouco e quase imperceptível. A base do pescoço da jardineira se acaba em uma leve curva que encaminha o desenho do ombro. Em torno dessa curva um fio de barbante escuro suspende uma esmeralda do tamanho de uma unha. Que repousa entre seus seios.
A cor da esmeralda combina com a cor das roupas da jardineira. É o mesmo tom de verde dos pedaços de grama do jardim em frente que se vê desde a janela, quando as cortinas não estão fechadas.
Terra Magazine