
Atualizada às 12h05 Ronaldo Correia de Brito
Do Recife (PE)
Os familiares do paciente com pneumonia estranharam quando o médico informou que a única opção era ficar numa cadeira. Há poucos meses ele deixara de pagar o seguro saúde, sua empresa de construção falira, e agora recorria a uma emergência pública.
Enquanto a esposa acomoda o enfermo na cadeira, a filha consome as pontas dos dedos no teclado do celular. Liga para todos os conhecidos influentes; para o tio, ex-deputado estadual e ex-secretário de governo.
A moça de classe média desconhecia que uma emergência pública era o caos em que estava metida, e não aceitava que seu pai recebesse tratamento em meio àquela gente miserável.
O médico explica que não há disponibilidade de leitos, nem mesmo de macas, e lamenta só poder oferecer-lhe uma cadeira. Olha em volta, reconhece o corredor onde se apinham dezenas de pacientes, pessoas com variados tipos de doenças, homens e mulheres, jovens e velhos. Ninguém sofre menos que o engenheiro ex-rico, mas ninguém protesta.
Atletas se submetem aos testes de resistência física e psicológica durante os treinos que antecedem os campeonatos. Há poucos dias, um bicampeão olímpico de canoagem não resistiu aos treinos e morreu. Quando as eleições se aproximam imagino que os nossos candidatos deveriam submeter-se a um teste de sobrevivência dentro de um hospital público, em meio à massa de sofredores que a filha do engenheiro não reconheceu como sua gente. Uma semana num desses corredores da morte seria suficiente para o candidato. Ou ele abriria os olhos para a realidade da 'saúde' em nosso país, ou os fecharia para sempre.
Nas enfermarias improvisadas, as luzes nunca se apagam e há um permanente barulho, contínua circulação de médicos, enfermeiras, auxiliares, maqueiros, serventes, soldados, vigilantes, novos pacientes e seus acompanhantes. Não há padronização de enfermidades nos corredores. Uma pessoa com infecção na vesícula biliar fica junta de um portador de tuberculose ou hepatite. Enquanto aguarda o resultado de um exame, o portador de uma doença leve assiste ao espetáculo dantesco dos alcoólatras em síndrome de abstinência.
O ar dos corredores é infecto, os funcionários usam máscaras, que não os protegem de nada. Vez por outra um médico ou enfermeira contrai tuberculose. Ou entra em surto psicótico por não agüentar o contínuo estresse. Os políticos precisam de um internamento. Depois de sete dias, talvez pensem duas vezes antes de fazer suas maracutaias e botar a mão no dinheiro público. Talvez cuidem em tornar salubres os nossos hospitais.
Mas é otimismo desejar isso. Habituados ao massacre, os usuários do nosso sistema de saúde - que seria perfeito se funcionasse corretamente -, nunca protestam ou se insurgem. Nenhuma Revolução Francesa, nenhuma tomada da Bastilha. Até o cliente de classe média adere aos velhos métodos brasileiros: as vias indiretas do apadrinhamento.
Algumas horas após sua chegada à Emergência, nosso engenheiro recebe a visita de um pneumologista. Sob os olhares de pacientes que esperam uma vaga há mais de trinta dias, ele é internado numa enfermaria especializada. E dizem que a telefonia celular não funciona no Brasil.
Fale com Ronaldo Correia de Brito: ronaldo_correia@terra.com.br
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