
Atualizada às 11h02 Javier Dario Restrepo
De Bogotá
- São diferentes, mesmo que tenham em comum o nome de "reintegrados".
- Por que são diferentes?
- O que foi paramilitar não nos olha nos olhos; em lugar de trabalhar, prefere golpes ou assaltos; é alguém que vive seu conflito a toda hora. O ex-guerrilheiro nos olha de frente; enquanto durou o conflito, ele nos havia dados as costas, mas agora está em outra coisa; não procura apenas sobreviver, mas sim fazer uma nova vida.
- E como se explica essa diferença?
- Porque o antigo paramilitar se vinculou não por convicção, mas sim para resolver algum problema de alimentação, de emprego, de vingança. São pessoas com alma de mercenários, que sempre foram conscientes de que assassinavam ou abusavam sem motivo; por isso não conseguem superar seu sentido de culpa; o ex-guerrilheiro, em muitos casos, teve e ainda mantém um credo político. Ao se desmobilizar não abandona esse credo, apenas deixa para trás a organização e seus métodos e se reintegra à sociedade com a idéia de haver contribuído.
A socióloga com que converso trabalhou mais de um ano com reintegrados, dentro de um projeto oficial que adianta atividades de pós-conflito.
O pós-conflito, um processo
A Colômbia está vivendo uma situação de pós-conflito apesar de ainda se manterem ativos o Ejercito de Liberación Nacional (ELN) e as Forças Armadas Revolucionárias Colombianas (Farc), bem os grupos emergentes de autodefesa. Não se trata de um otimismo prematuro e irreal, mas sim de uma certeza de que o fim da guerra e o começo da paz não se darão em um dia e hora precisos, mas que constituem um processo gradual, e esse processo já começou.
A alegria coletiva causada pelos diversos eventos de liberação de seqüestrados - o mais importante, no dia 2 de julho - já é parte desse processo. Os relatos dos liberados colocaram os colombianos diante de uma realidade de pós-conflito. Como reintegrar esses colombianos à normalidade de suas vidas como membros de uma família e de uma sociedade?
Porque são pessoas que não só trazem na pele e em seu organismo as marcas do cativeiro - disso os médicos podem se encarregar; mas eles portam também as marcas de um seqüestro sob normas cruéis e de total desprezo pela dignidade humana. São as marcas mais difíceis de apagar, e dessas deve se incumbir a sociedade.
As marcas
Os relatos dos libertados coincidem com os dos sobreviventes dos campos de concentração de tal forma que sobre esses cárceres da guerrilha cai a mesma condenação que a humanidade fez das prisões nazistas e dos Gulags soviéticos. Mas, mais importante que isso, já foi feita a identificação das marcas, iguais as de ontem e as de hoje.
Os que regressaram manifestaram em livros testemunhais ou em suas entrevistas para a imprensa o impacto de seu encontro cara a cara com a morte; sob a forma do terror presente em todas as horas, de morrer pelas balas de seus carcereiros ou do exército em um confronto, ou em um ataque dos helicópteros das forças armadas. Também estiveram diante da morte como solução: "Escolher entre a vida e a morte era a única oportunidade de conservar a dignidade", escreveu Hanna Kroll ao recordar sua experiência no gueto de Varsóvia. Esse cara a cara constante com a morte deixa uma marca, positiva ou negativa, mas uma marca.
Também chegaram marcados pelo sistemático atentado contra sua dignidade. A imposição brutal da vontade de um carcereiro, a violação diária de sua intimidade, o constante desprezo, a submissão sem concessões, as correntes, permanecer presos a uma árvore. Em um campo nazista, Arie Wilmer exclamava: "Não queríamos salvar nossas vidas, mas sim manter nossa dignidade de homens". "Eram condições que não permitiam aos homens seguirem sendo homens", afirmava outro sobrevivente. Os que saíram liberados chegaram a seus lares e à sociedade com essa marca, e tentam apagá-la, anota Todorov ("Diante do Limite"), "com o banho cotidiano, com a livre expressão, com a busca de um par conveniente".
Mas a mais profunda cicatriz é a que altera suas relações com os outros. Coloque-se no lugar de alguém que todos os dias está com fome e com sede, doente, incapaz de dormir porque a corrente ou as angústias pesam: ainda poderia ser amável? Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz refletia: "As prisões eram tais que as atitudes morais se tornavam impossíveis". "Todos os sentimentos humanos nos foram arrancados", disse uma pessoa que voltou a viver depois de 25 anos nos campos de concentração soviéticos. A sociedade ou a família que está recebendo os liberados não consegue compreender, ou compreende com dificuldade, este contexto.
O reconhecimento reiterado e público de Ingrid ao cabo William Pérez testemunha a existência de uma marca boa, a que deixa o descobrimento de que mesmo nas piores condições de inumanidade há espíritos generosos mais fortes que a crueldade dos carcereiros. Esta descoberta também faz parte da operação de pós-conflito.
Ocorrem com menor freqüência em nossos dias, em contraponto, pensamentos como os de Gustavo Herleg, que ao examinar a história dos que saíram vivos do inferno do seqüestro, concluiu: "Não há maior absurdo que julgá-los por ações que cometeram em condições desumanas". A compreensão também é parte integrante da solidariedade do pós-conflito.
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