
Atualizada às 15h42 Diego Salmen
Depois de ser preso sob a acusação de liderar uma milícia no Rio de Janeiro, o deputado estadual Natalino Guimarães (DEM) pode ser convocado a depor na CPI das Milícias, instalada na Assembléia Legislativa do Estado. É o que conta o presidente da comissão, deputado Marcelo Freixo (PSOL).
- É possível e é muito provável (que seja convocado) num momento mais adequado à própria CPI - afirma o parlamentar.
Natalino foi detido na madrugada de terça-feira em sua casa, no bairro de Campo Grande, acusado de liderar uma milícia na zona oeste da capital fluminense. Em sua defesa, diz que foi vítima de uma "armação" da Polícia.
Na tarde desta quarta-feira, Freixo se reuniu com diversos deputados para debater a prisão do colega. Após a reunião, falou a Terra Magazine sobre o incidente. Ele conta que a CPI irá investigar também a versão de Guimarães sobre o ocorrido.
- O deputado Natalino tem uma versão: ele diz que foi vítima de uma armação. Essa é uma denúncia muito forte do deputado contra a ação da polícia. Isso precisa ser investigado - diz.
Leia a seguir os principais trechos da entrevista com Marcelo Freixo:
Terra Magazine - O que a prisão de Natalino significa para os trabalhos da CPI?
Marcelo Freixo - Em relação à CPI, nós temos uma reunião amanhã para avaliar essa nova informação que diz respeito às acusações sobre o deputado. Essa CPI não é contra o Natalino ou contra especificamente uma milícia. Então, é evidente que o nosso trabalho vai continuar, nós vamos fechar o nosso entendimento sobre Campo Grande e vamos trabalhar em outros territórios e setores onde esses grupos também atuam.
Quanto à prisão...
Em relação à prisão do deputado, nós acabamos de sair de uma grande reunião aqui na Alerj e nós entendemos que a CCJ precisa avaliar toda a forma como se deu essa prisão. O deputado Natalino tem uma versão: ele diz que foi vítima de uma armação, que as armas foram plantadas, que as pessoas não estavam na casa dele. Essa é uma denúncia muito forte do deputado contra a ação da polícia. Isso precisa ser investigado, se afinal de contas houve ou não abuso. Não é admissível, seja com quem for, qualquer tipo de irregularidade num ato de prisão. E tem a versão oficial do Estado: de que foi encontrado um arsenal de armas, de que tinha foragidos na casa do deputado. Então são denúncias muito sérias. Ou o Estado está correto e o deputado tem que ser mantido preso e responder por quebra de decoro - e possivelmente deixar de ser deputado - ou, se o deputado estiver certo e isso tudo for uma armação, quem tem que ser preso é o chefe da Polícia Civil.
O senhor, como presidente da CPI, fica surpreso ao ver um colega de Assembléia ser preso por esse tipo de acusação?
Não. Me entristece, porque isso é uma configuração de um processo muito perverso e ruim para o Estado Democrático de Direito, de despolitização da política. Mas não é o primeiro caso. Agora, o parlamento é sempre um reflexo do processo eleitoral na sociedade. Não acho que a sociedade seja vítima do parlamento; a sociedade produz esse parlamento, o processo político e a relação da sociedade com a política é que produz isso. Isso é muito triste, muito ruim, o trabalho parlamentar é muito pouco qualificado nesse momento. É resultado de um processo de currais eleitorais, de compra de votos, de ausência de reforma política. É grave, e a gente tem que se debruçar (sobre isso) não como um fato isolado, mas como tudo que representa em termos de poder representativo.
Nos trabalhos da CPI já havia algum indício de envolvimento de parlamentares?
Sabemos que as milícias têm braço político. Elas se organizam para eleger vereadores, deputados estaduais e federais. Isso é fato.
Quais os próximos passos da comissão? O deputado Natalino pode ser convocado?
É possível e é muito provável (que seja convocado) num momento mais adequado à própria CPI. Nessa semana temos uma reunião interna, e na próxima teremos uma reunião com uma pesquisadora para falar sobre a relação das milícias com a segurança pública no Rio de Janeiro. No dia 7 de agosto, vamos receber o dr. Cláudio Ferraz, delegado da Draco, que é hoje o setor da Polícia Civil que reúne o maior número de informações sobre a ação das milícias.
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