
Atualizada às 14h43 |
Jenner Augusto/Reprodução
Detalhe de "Retirantes", quadro do pintor Jenner Augusto, que ganha retrospectiva em Salvador
|
Claudio Leal
O "ajuste de cores" enlaça as duas pontas da trajetória do pintor Jenner Augusto. O equilíbrio cromático o magnetizara na década de 40, em Sergipe, quando criou seus primeiros quadros e murais, sob influência das formas distorcidas de Portinari. O Jenner maduro reconheceria, nos traços de juventude, o desequilíbrio da técnica do desenho, atenuado pela manipulação das cores.
Uma retrospectiva do pintor sergipano não pode escapar a esse viço, élan mesmo de todas as suas fases temáticas. "A natureza em busca da cor" se torna o nome obrigatório da exposição que reunirá 100 pinturas de Jenner Augusto (1924-2003), na Sala de Arte Contemporânea do Palacete das Artes Rodin Bahia, em Salvador, de 5 de agosto a 5 de outubro de 2008.
Nascido em Aracaju, mas criado no interior sergipano; sujeito aos deslocamentos geográficos de sua mãe - professora primária e arrimo de família; olhos ensimesmados, ares de nobreza tropical; em constante migração, com a angústia do isolamento, Jenner muda-se para a Bahia e se integra à geração modernizadora das artes plásticas. Na ponta-de-lança, Carlos Bastos, Mário Cravo Jr., Genaro de Carvalho, Rubem Valentim e Lígia Sampaio.
Veja também:
» Opiniões sobre Jenner: Cícero Dias, Di Cavalcanti, Vinicius de Morais e Jorge Amado
Adocicada com os excessos do barroco e do academicismo, que reverberavam nas igrejas, no teatro, na pintura, na literatura e na oratória, a Bahia tomou no pós-guerra um choque de modernismo tardio. A pintura acadêmica sentiu os martelos da geração Cadernos da Bahia - nome da revista capitaneada pelo escritor Vasconcelos Maia -, ainda que desacompanhados de confrontos pessoais, à parte as telas rasgadas em exposições tumultuadas.
Em Aracaju, pelas beiradas de 1948-49, Jenner dera lances de seus impulsos criadores. No bar Cacique, sem ingerências do proprietário, fez o mural inaugurador da pintura moderna em Sergipe. Àquele tempo, Portinari era dos poucos pintores a chegarem ao Estado, precariamente reproduzido na revista da Sul-América. Observa-se essa influência no Auto-retrato, de 1948. Na década de 80, Jenner detalhará o processo de criação do mural ao escritor e jornalista Guido Guerra:
- ... Ia tentar fazer uma coisa nova, se possível avançada, pra romper com os cânones da época, o ranço acadêmico que havia na pintura de Sergipe... Parti de coisas populares, das festas, dos costumes de Sergipe até que comecei a fazer uma abordagem sobre temas históricos.

"Auto-retrato" de Jenner Augusto (1948)
Cores baianas
Residente em Salvador a partir de 1949, Jenner entra em sua fase de danação e aprimora o domínio da técnica. Há que se ter, porém, cuidado com as curvas, as cores e as volúpias baianas. O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto afiava a língua antes de praguejar os excessos poéticos dos azeitados pela Baía de Todos os Santos. Da Mauricéia, Francisco Brennand declarou à Folha de S. Paulo, em 2002: "A Bahia estragou muita gente."
Brennand rejeita as marinhas baianas do pintor Pancetti, mas enaltece suas obras em Campos do Jordão, quando padecia de tuberculose. Vitória na arte, derrota na vida - esse parangolé.
Muito cuidado, decerto ouvia Jenner.
Na Cidade da Bahia, inicia investigações abstratas, em 1958, e retorna ao figurativismo em 1963. A retrospectiva "A natureza em busca da cor" apresenta suas principais temáticas: Lavadeiras do Abaeté (integrada às suas paisagens soteropolitanas), a paroquial e suave Coroinhas, Alagados e Retirantes e Flagelados do Nordeste.
Entrecortando as oscilações de criador, a denúncia social embebida de lirismo e algum apelo ao sensorialismo romântico. Curador da mostra e neto de Jenner, Zeca Fernandes tomou como critérios de seleção a relevância histórica das obras e o equilíbrio entre as diversas fases do avô. "70% dos quadros pertencem à própria família", conta Fernandes, 31 anos. "Para mim, a perda dele foi imensa. Dos netos, eu era o mais ligado a ele, nas artes plásticas. Perdi esse referencial".
Alagados se tornou a série mais conhecida do pintor. Posteriormente, imitada e emulada por secas e mecas. Bairro miserável de Salvador, equilibrado em palafitas, nas entranhas da baía, Alagados representa a opção de Jenner pelo figurativismo. E revela sua recusa às sereias fáceis da cidade. Refletidos nas águas salgadas, os barracos ofereciam transições de cores, ou antes um choque irrefletido de tons. Dirá Jenner ao entrevistador Guido:
- ...Na minha pintura, buscava um lugar que fosse menos proclamado pelo turismo, algo que me permitisse descobrir uma linha que eu procurava, que era uma linha de horizontes. Então, por volta de 1954, 55, por aí, como estava numa fase de conflito entre o abstrato e o figurativo pelas influências externas, foi que comecei configurar minha pintura com elementos dos Alagados até que cheguei àquela síntese de dois panos de cor, que era praticamente uma coisa abstrata, tomando aquilo como pretexto.
Seus quadros motivaram um poema de Carlos Drummond de Andrade, "Alagados":
Casebres à flor d´água
Balançam
No silêncio
No sonho de viver
O sonho de morrer.
Jenner Augusto sob o céu de chumbo
Sob o céu violeta
Lê o horóscopo das criaturas
Que nos alagados
Morrem sem viver.
Apesar de ter residido no Rio de Janeiro, as formas cariocas não lhe tocaram. Espécie de rejeição à natureza espetacular. Prevaleciam as visões da Bahia - num olhar original, em nada recendeu a dendê. "Tuas casas e ruas possuem expressão quase humana e parecem contar histórias", dizia Erico Verissimo, um dos admiradores de sua obra.
As cidades de Jenner Augusto gestam paisagens anestesiantes, algo melancólicas e turvas, suspensas em cores.
Terra Magazine