
Atualizada às 22h14 |
Jenner Augusto/Reprodução
Usina da Preguiça - Paisagem de Salvador nas tintas de Jenner Augusto
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CÍCERO DIAS
É na paisagem que o sergipano Jenner Augusto encontra sua melhor forma de expressão. Como outrora os da família espiritual de Poussin, Turner ou Jacob van Ruysdael, ou ainda Calude Lorrain, Boudin e continuando por Nicolas de Stael, que se situa entre a abstração pura e o neofigurativismo.
Jenner, porém, diferentemente, não se contenta com o registro ou a análise; tampouco situa-se em estado experimental, este mal da época. Sente ele a necessidade vital de amalgamar e aprofundar sua obra no calor e no espaço amordaçado do chão e da terra baiana, raízes de renovação e elementos permanentes em sua arte.
DI CAVALCANTI
Vejo em Jenner Augusto a permanência de um lirismo brasileiro que faz bem à gente. É um pintor de originalidade técnica sem se separar da natureza, que nele guarda toda a poesia.
Veja também:
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"Flagelados"
VINICIUS DE MORAIS
Jenner Augusto, Artista Pintor
Trouxeste de Sergipe
A contida paixão, a ascese, a fome, o fulcro
Da alma nativa, a agreste crispação
Da mata branca da caatinga, a alta tensão
Da palha de onde os pássaros
Se picam ao latir dos estampidos
De uma nova vingança, os descaminhos
Da vingança, os paroxismos
Da herança, as consoantes da palavra honra
O fulgor azul das lâminas o grito
Vermelho dos estupros, o olho injetado e morto dos coágulos.
Reassumiste Cézanne com pincel molhado
Na polpa dourada das mangas
E com o amarelo adstringente dos cajus
Resumiste o cubismo de taipa
Do casario a duas águas dos velhos povoados
Do teu Nordeste e da tua infância, em piedosas cores frias
Com que amenizá-los da canícula.
Súbito vomitaste Azul nos pântanos podres
Dos Alagados, recriando singapuras
De lixo, erguendo hong-kongs de palafita
Por entre o mastro dos saveiros, fazendo longes...
Nos amplos espaços do Recôncavo
Reafirmaste a luz e a cor em abstrações
Precisas, perdido de violeta paixão por crepúsculo
E auroras, dando vez ao jaguar que mora em ti
E a tudo espreita através do oco das órbitas
De caminhar entre nuvens, fulvo e elétrico
Transformando sons em cores
Na rigorosa pauta do infinito.
Para mim, quando o vi (quadro soberbo!)
Pintaste Peteleca (sem sabê-lo...)
A jovem e pequenina puta negra
Que aos estudantes sempre da primeiro
Não só porque é por eles adorada
Como porque em geral não têm dinheiro
E que nas noites de Salvador
Vive alegre, volátil e sem medo
E que, se bem notardes, quando passa
Tem um aro de luz sobre os cabelos.
Meu irmão Jenner Augusto
Pintor dos que mais sabem e mais aprendem
Cheio de inexprimível piedade
Pelo homem, esse bicho tão pequeno,
Pinta-me uma cidade
Onde se viva em paz, se sofra menos
Uma branca cidade
Sempre crepuscular e em tons serenos
Onde eu possa iludir-me
Sobre o amor, sobre a dor e sobre o tempo
E morrer me esvaindo
No doce balbucio das estrelas.

"Lavadeiras do Abaeté"
JORGE AMADO
Ainda há bem pouco tempo não se podia falar a sério numa pintura como arte de características próprias, com uma consciência, um conteúdo e uma forma nacionais. País sub-desenvolvido, de economia agrária e semi-feudal, em matéria de artes visuais vivia o Brasil na servil imitação da Europa.
Com o surto industrial, com a marcha do país para o progresso, iniciada em 1930, começou também uma afirmação nacional nas artes que foi se aprofundando no correr dos anos. Talvez tenha sido a gravura quem primeiro obteve uma libertação da completa tutelagem européia. A pintura e a escultura tinham caminho mais árduo a palmilhar. Hoje, porém, já se sente em nossa pintura a presença do Brasil como fator fundamental, aquilo que lhe dá grandeza e personalidade. Pode-se dizer que atualmente a real divisão de nossa arte plástica tem suas fronteiras na linha que separa os artistas com um caráter nacional nítido e coerente daqueles que persistem no jogo da imitação e do pastiche, na ânsia do último "ismo" ou do "op" mais recente - e o mais recente chega, em geral, a esse lado do Atlântico com alguns anos de atraso. Nesse encontro dos artistas brasileiros com suas raízes, com sua terra, sua gente, com a cor desse trópico e sua luz solar, com a doçura e a resistência do povo, com seu drama e sua poesia, desempenharam e desempenham papel de maior importância os artistas da Bahia. Terra onde nasceu e se afirmou a civilização brasileira, com sua originalidade de miscigenação, de mistura de sangues, de democracia racial, na Bahia a cultura decorrente do povo e de sua vida comanda e condiciona toda a criação artística.
Jenner Augusto, nascido na pobreza resultante do latifúndio, no pequeno Estado de Sergipe, fez-se artista na Bahia, pioneiro na arte moderna, pintor de suas paisagens e de sua realidade de beleza e miséria. Em sua pintura, ao lado da maestria do artista, obtida em longo, duro e incansável trabalho, sente-se uma qualidade brasileira, marca original que lhe dá uma presença no tempo e no espaço, que a torna inconfundível: pintura de Jenner Augusto e de nenhum outro pintor. Não é a cópia da pintura européia, nem a imitação de algum mestre; é um pintor brasileiro, amadurecido em sua experiência humana e artística, pintando com as cores de sua terra, com o jeito de sua vida nacional, com a preocupação de seus problemas, com os sentimentos de seu povo. Jenner Augusto, jovem mestre de nossa jovem pintura.
Desse pintor há que dizer ter ele construído a matéria de sua vela e poderosa arte com o céu, o mar e a terra brasileiras e com a dor e sofrimento e a esperança de seu povo. A paisagem quase mágica da Bahia, a vida se afirmando sobre a lama dos alagados - a cidade de palafita e de miséria onde os homens comprovam sua capacidade de sobreviver e de marchar adiante mesmo em meio às mais terríveis condições -, eis a força deste moço vindo dos poços da humildade para o esplendor de uma luz que é de nosso sol e é também do coração dilacerado do artista. Poucos artistas no Brasil com tão clara consciência de sua responsabilidade, de seu comprometimento e de sua dignidade criadora. Poucos com tão rica e pesada carga de vida e com tamanha força para transpô-la para o plano da arte e transformá-la em mensagem do mais puro humanismo.
Terra Magazine
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