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Quinta, 24 de julho de 2008, 07h54 Atualizada às 20h35

As guerras que vão definir a humanidade, parte 1

Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Os que usam camisa pra fora da calça x os que usam pra dentro.

O mundo pode ser dividido em dois grupos distintos de muitas e muitas formas. Os que cortam laranja no meio x os que fazem uma tampinha. Os que curtem reggae x os que vivem firmemente instalados sobre esse planeta. Os que gostam da Jessica Alba x os que lambem o chão onde ela pisa. Os que comem moqueca x os que preferem preservar o estômago pra usos futuros. Os que apreciam Paulo Coelho x os que optaram pelo duro caminho da alfabetização.

Hoje concentraremos nossos esforços em uma análise estético-comportamental de dois grupos que ainda vão acabar tentando se exterminar mutuamente, ou que já o fazem por meios diplomáticos. Para descrever os dois grupos, o educador Paulo Freire criou as categorias "consciência crítica x consciência ingênua". Umberto Eco veio de "apocalípticos x integrados". Como eu prefiro a alta ciência, intitulo-os de camisas pra dentro x camisa pra fora, e nem sou original. Mais gente já os nomeou assim antes de mim.

Quem usa a camisa pra dentro das calças normalmente compra as camisas em qualquer cor, desde que seja azul. A calça pode ser de qualquer jeito, mas o sapato ideal é um mocassim com aquelas duas cordinhas balançando sobre o pé, meia branca, óbvio. Quem usa camisa pra dentro das calças está mostrando ao mundo o que pensa, o que quer, o que veio fazer. Basicamente veio ao mundo para pentear o cabelo, louvar pai e mãe, arrasar no pré-primário pra ir juntando créditos desde os mais tenros anos e garantir um MBA em Stanford. Então casa, tem 2,3 filhos, um garoto, uma garota e um poodle cinza com o qual passeia por Higienópolis. Os filhos não podem ir junto porque estão se preparando para um MBA em Stanford. Quem usa a camisa pra dentro das calças também tem um maravilhoso plano de aposentadoria, uma casa no Litoral Norte, ações de petroleiras e minas de nióbio e os cabelos vão se manter na cabeça e ficar naturalmente brancos na velhice. Quem usa a camisa pra dentro das calças não morre jamais, óbvio.

Quem usa a camisa pra fora das calças teve graves problemas de identidade paterna, passou raspando no jardim de infância, nunca aprendeu a tabuada dos sete, esqueceu cada aula de Biologia que teve na vida, tentou várias vezes o vestibular para alguma faculdade relevante, antes de desistir de tudo e virar jornalista, publicitário, designer, vídeo maker, DJ, escritor, cineasta, planejamento, ou redator. Alguns dão mais sorte e entram para o IBAMA, mas aí não podem mais usar calças.

Detestam ordem unida e jamais entram para o Exército, até quando estão no Exército. Não conseguem nadar mais do que uns centímetros, vieram ao mundo sem motricidade fina e nunca conseguiram jogar bola a não ser no gol.

Fazem um enorme sucesso com as mulheres jovens na faculdade, quando entram para a faculdade; são ligados em música, cinema da Malásia, trends, bossas e tudo que for igualmente impossível de ganhar dinheiro fazendo. Assim que as mulheres deixam de ser tão jovens, casam com caras que usam camisa pra dentro da calça, compram cintos de couro trançado para eles e juntos têm 2,3 filhos.

O mundo já foi mais generoso para com o pessoal que usa a camisa pra fora das calças. Época houve onde eles assessoravam presidentes e definiam o pensamento nacional em colunas de jornal, programas de tevê, passeatas para libertar Mandela ou inventando a bossa nova. Na guerra que se avizinha, de alinhamento global, o pessoal que usa a camisa pra fora das calças sofre com desvantagens estratégicas. Eles raramente têm caixa pra comprar bancos, petroleiras ou minas de nióbio, e passam a depender mais e mais de gente com mais bom senso e mocassins com meias brancas. Eles raramente têm noção de como funciona a Bolsa, o índice Nasdaq ou os Starbucks, e viram facilmente vítimas dos mais bem alimentados e menos atormentados seres que usam camisa pra dentro da calça. Os que usam camisa pra fora leram Sartre e estão angustiados até hoje. Os que usam pra dentro acham que se Sartre tivesse algo de útil pra dizer teria falado em inglês. Nunca leram Sartre e não sentem a menor falta. Nunca leram nada que não se compre em livraria de aeroporto, e isso também não fez a menor diferença.

O pessoal que usa camisa pra fora já suspeita que é uma espécie condenada e trata de arrumar um emprego em uma fundação semi-governamental, antes que o tsunami neoliberal chegue pra valer. O pessoal que usa camisa pra dentro da calça já se sente tão no controle do mundo que parece dar uma relaxada e nas férias, em Cancun, já se sente confortável em trajes radicalmente informais, como camisetas Lacoste em cores vibrantes - salmão ou bege.

Essa guerra mal começou e já está definida. A Google anda pensando em como mandar o pessoal que trabalha lá dentro se vestir adequadamente. Já começaram a ter que usar roupas no local de trabalho, dizem. Daí pra virarem algo tão conservador quando a IBM é um teco. E no momento em que eu olhar paras os bares da Vila Madalena e os All Star tiverem sido totalmente substituídos pro Samello, vou saber que o momento chegou, os oceanos já estão subindo e é hora de fugir pra um local onde eu possa viver o exílio. Um lugar tão isolado, desconhecido e protegido que me permita ter a segurança de muitos e muitos anos de velhice e single malts, antes que a Grande Ceifadora me pegue. Algo como Guaíba, RS, Palmas, TO, ou Goiânia, GO. Algum lugar mítico e remoto, um lugar onde o Big Bang ainda nem começou e tudo isso que acabo de narrar não passe de um distante futuro, que nunca vai acontecer.


Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe".

Fale com Marcelo Carneiro da Cunha: marceloccunha@terra.com.br

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