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Quinta, 24 de julho de 2008, 07h53 Atualizada às 21h22

Aquecimento global custará US$ 41 bi a seguradoras

Amália Safatle
De São Paulo (SP)

Se há no mundo financeiro um grande interessado em informações sobre os efeitos do aquecimento global, esse é o ramo das seguradoras. Não para menos. Nos últimos 30 anos, viram crescer em 15 vezes o número de indenizações por danos causados por tempestades e inundações. E projetam gastos - anuais - de US$ 41 bilhões entre 2010 e 2019 relacionados a eventos climáticos.

Investidoras institucionais clássicas, que vendem a sensação de segurança, captam recursos de seus clientes e os aplicam em carteiras de longo prazo, as seguradoras agora se deparam com o vislumbre de um futuro cada dia mais incerto para seus próprios negócios.

Um estudo que procura lançar luzes sobre esse longo e inseguro prazo foi recentemente lançado a pedido de uma grande seguradora, a Allianz, e da organização não-governamental WWF International, pela consultoria alemã Ecofys. O chairman de Desenvolvimento Sustentável Corporativo da Allianz, Lutz Cleeman, esteve inclusive no Brasil, onde apresentou os resultados do G8 Climate Scorecard.

Trata-se de uma radiografia dos sete países mais ricos do mundo e a Rússia, indicando que as mudanças promovidas por políticas nacionais estão muito aquém dos cortes de emissão de gases-estufa necessários para impedir um aumento superior a 2 graus celsius na temperatura do planeta - acima dessa variação, a previsão de desastres climáticos é extremamente grave.

O interesse da Allianz vai além do dimensionamento dos riscos. Com atuação em serviços financeiros e administração de fundos, ela quer medir também as possibilidades de criação de uma economia de baixo carbono, para a qual uma carga enorme de inovação é requerida. "A proteção do clima pode criar enormes oportunidades para as tecnologias limpas, onde a Allianz vê um grande potencial de investimento, de crescimento e de criação de empregos", afirmou Joachim Faber, membro do Conselho de Administração do grupo.

O estudo cobra, portanto, políticas nacionais voltadas ao cumprimento das metas de corte de emissões e mais que isso: que os países ricos dêem as rédeas para uma cooperação global com os chamados +5: Brasil, China, Índia, México e África do Sul, com transferência tecnológica e financiamento.

Os doze critérios usados na avaliação dos membros do G8 mostram um longo caminho a percorrer e, embora o estudo não cobre responsabilidades dos países em desenvolvimento, mostra preocupantes previsões de crescimento nas emissões do países +5.

Os critérios são divididos em três grupos, sendo evolução desde 1990, status atual e políticas para o futuro - os três com pesos iguais para o ranqueamento dos países.

O primeiro grupo considera o histórico de emissões, a distância das metas assumidas no Protocolo de Kyoto e a participação de renováveis na matriz energética. O segundo mede as emissões per capita, as emissões em relação ao PIB, as emissões por energia gerada e os níveis de eficiência energética e industrial. O terceiro avalia a política pública voltadas à eletricidade e área nuclear - avaliada negativamente - a política industrial, a de transportes e a de renováveis.

No ranking, Reino Unido, França e Alemanha são os primeiros colocados, seguidos por Itália, Japão e Rússia, Canadá e Estados Unidos por último. Mas mesmo entre os primeiros colocados, o estudo conclui que apesar do grande potencial em economizar recursos ao poupar energia, estão longe de satisfatórias as políticas de eficiência energética, só para citar um exemplo. Os programas são incompletos e se limitam a experiências pontuais, como edifícios inteligentes, enquanto a eficiência no transporte também é pouco encorajada.

Mas o fato de grandes instituições financeiras começarem a se aliar a organizações não-governamentais para pressionar por políticas públicas, em busca de oportunidades de negócios em uma nova economia de baixo carbono, já indica que mudanças profundas na sociedade começam a acontecer. Quando o setor econômico percebe a possibilidade de usufruir das questões ambientais, em modelos sinérgicos, um dado seguro é que transformações estão a caminho, ainda que o motor inicial para isso seja a própria insegurança.


Amália Safatle é jornalista e editora associada da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Fale com Amália Safatle: amalia_s@terra.com.br

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