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Quinta, 24 de julho de 2008, 14h01 Atualizada às 14h05

Ex-secretário: inflação no País tem matriz externa

Daniel Milazzo

Para o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Júlio Gomes de Almeida, o Banco Central tem dificuldade em controlar a inflação pois esta tem um caráter externo, sua matriz é externa. O BC decidiu, na noite da quarta-feira 23, elevar a taxa básica de juros em 0,75 pontos percentuais, fixando-a em 13% ao ano.

- O que o BC está tentando fazer é evitar que essa inflação que vem de fora não se alastre muito facilmente para o tecido econômico brasileiro. É como uma infecção que é difícil de você combater, mas pelo menos você impede que ela se generalize pelo organismo como um todo - compara.

De acordo com Almeida, o que pressiona a inflação brasileira é principalmente o preço das commodities, como o petróleo, o aço, e os alimentos (trigo, soja, milho). Na opinião do economista, o BC teme uma inflação de demanda no Brasil, ou seja, um choque entre o consumo e a produção nacional, uma oferta incapaz de suprir a demanda. Porém, ele discorda.

- Tipicamente, o nosso caso é de uma economia que cresce, mas que ainda não tem um componente interno de inflação. Nossa inflação vem especialmente lá de fora.

Segundo o ex-secretário, há dois fatores que explicam a agressividade do BC brasileiro em combater a inflação, elevando a taxa de juros mais do que outros países emergentes: primeiro, o perfil conservador do BC; e, segundo, o temor de que surja uma inflação de demanda no País.

Desde o início do ano, o Brasil elevou em 1,75 p.p. sua taxa de juros. A Rússia aumentou a taxa em 1,0 p.p.; o México, em 0,5. Ao passo que China e Índia mantiveram a taxa básica de juros no mesmo patamar durante este período.

Leia a seguir a entrevista completa do o ex-secretário do ministério da Fazenda:

Terra Magazine - O Banco Central exagerou, elevando em 0,75 p.p. a taxa Selic?
Júlio Gomes de Almeida -
O Banco Central tinha motivos para manter o padrão de aumento que vinha fazendo. Desde abril, o BC fez duas majorações na casa de 0,5 pontos percentuais. Ele podia repetir a dose. Você poda dizer, "ah, mais 0,25, menos 0,25 não faz muita diferença...". Faz toda a diferença. Mas, por que o BC poderia ter mantido 0,5? Porque o quadro da inflação, a matriz da nossa inflação, que é o quadro internacional, começou a mudar. A nossa matriz de inflação é o quadro internacional. A causa principal é o preço de commodities, dos alimentos e de outras commodities. O preço do petróleo diretamente não nos afeta tanto - afeta mais outros países - mas também afeta de forma indireta: aumento do custo de defensivos agrícolas, adubos, vários produtos químicos. Já impregnou várias cadeias produtivas brasileiras com o aumento de custo. O aumento de preços do aço também nos afeta, a indústria automobilística, ainda modestamente, mas já impregnou as diversas cadeias produtivas brasileiras. E as commodities de alimentos - soja, trigo, milho - que afetam diretamente o bolso do consumidor. Mas esses preços estão baixando no comércio internacional. O BC poderia ter mantido 0,5 p.p. de aumento com base na avaliação de que o quadro internacional pode estar mudando. Ninguém sabe se mudou, se é uma coisa duradoura, ou é um ponto fora da curva, um efeito transitório. Mas o BC queria esperar pra ver o comportamento desse processo novo. Fazia tempo que o preço do petróleo não caía com tanta intensidade como caiu agora (NR: após atingir US$ 147 no último dia 11, nesta quinta-feira preço do barril do petróleo recuou e chegou a ser negociado a US$ 123). Se me perguntassem "o que você faria?", eu teria optado por manter a dose. O aumento da dose tem conseqüências grandes.

Apesar do ciclo de alta do juros, ainda não foi visto um freio muito grande no consumo. As vendas no atacado, por exemplo, em maio deste ano cresceram 10,5% em relação a maio de 2007. Isso demonstra uma ineficácia da política monetária posta em prática pelo BC?
A inflação com essas características - que vem de fora, vem das commodities, tem um choque de custo - a política de juros do BC não controla não. O que ele está tentando fazer, e mesmo outras ações do governo, como aumentar o superávit primário, é evitar que essa inflação que vem de fora não se alastre muito facilmente para o tecido econômico brasileiro. É como uma infecção que é difícil de você combater, mas pelo menos você impede que ela se generalize pelo organismo como um todo. A matriz desse processo só vai ser neutralizado se você rearrumar esse complexo e confusíssimo arranjo econômico internacional. É uma crise financeira e bancária do lado americano, com um super crescimento da China, e que ao mesmo tempo cria uma estagnação de um lado do mundo, e que do outro lado cria uma superdemanda... Enquanto vc não resolver questões como essas... E tem outras questões, aumentar a oferta de petróleo, será que é tão fácil assim no curto prazo? Ou talvez exija 3, 4, 5 anos? Aumentar a oferta de alimentos é tarefa fácil? Ou é coisa pra uma década? Enfim, tem diversos desafios, que estão na ordem internacional e totalmente fora da questão brasileira. Até onde eu vejo, o governo brasileiro está fazendo o que é possível, aumentou um pouco o superávit primário... Muita gente pede "ah, reduz gasto", como se isso fosse fácil. É muito difícil, sobretudo a curto prazo. O governo está tentando conter o crédito, e está aumentando os juros para conter a demanda.

Existe de fato o risco de termos uma demanda maior do que a oferta?
Se isso acontecesse, a inflação, que hoje vem de fora, passaria a ter um componente nosso. O que seria muito ruim. Tendo uma situação de inflação de custos, se acrescentaria a isso uma inflação de demanda. E eu penso que hoje não existe isso, não existe um descompasso entre a oferta e a demanda, nós conseguimos equilibrar o ritmo dessas duas coisas. Eu penso também que a nossa economia já está desacelerando, está crescendo menos. A ação do BC não é instantânea. Demora uns 3, 4, 6 meses para surtir efeito. Se a nossa demanda já está desacelerando, não tem nada a ver com o BC. Talvez tenha um pouco de receio dos bancos em continuar crescendo muito o crédito na economia. Os bancos aumentaram muito os créditos para as pessoas e para as empresas também. Talvez agora estejam um pouco na retaguarda e tiraram um pouco o pé do acelerador. Acho que não temos um risco de um choque de oferta e demanda. Se tivéssemos, seria um quadro mais grave. Tipicamente, o nosso caso é de uma economia que cresce, mas que ainda não tem um componente interno de inflação. Nossa inflação vem especialmente lá de fora.

Em comparação aos países emergentes, é um dos que mais elevou os juros. O que justifica isso?
O Brasil, por outro lado, tem hoje uma inflação das mais bem comportadas. Mesmo chegando esse ano na faixa de 6,5%, o Brasil está abaixo da média dos principais países emergentes. O perfil da nossa política monetária é muito conservador. Outros países têm uma avaliação mais na linha de que é uma inflação externa sem um componente forte interno - essa avaliação está sendo mais bem aceita em outros países. No Brasil, o BC teme mais uma inflação de demanda - e diz que já temos uma inflação de demanda, coisa com a qual eu não concordo muito.

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