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Sexta, 25 de julho de 2008, 07h46 Atualizada às 08h46

Thiago Soares - o homem-estilingue está de volta

Por Alexandre Xavier
De Londres

Durante a última vez em que foi convidado a se apresentar no Brasil, Thiago Soares estava com sua noiva argentina num bar de Ipanema quando viu a seguinte cena: dois artistas de rua jogavam capoeira em troca de uns trocados no semáforo; um deles segurava um garrafa pet na altura da cabeça; o outro, lá pelas tantas, tinha que pular com o pé direito, acertar a garrafa e aterrisar com o mesmo pé direito depois de pairar no ar, trocar de perna e girar quase 360 graus em torno de si mesmo. Meio difícil de imaginar, não? Imagine fazer, então.

"Foi impressionante!", lembra o dançarino brasileiro. "Tem muita gente que ganha um monte de dinheiro pra fazer isso, mas não faz nem a metade do que o cara fez, e fez de tênis e no asfalto ainda por cima. Já tinha dado R$ 10 pro garoto, aí dei mais R$ 5 e pedi pra ele fazer o passo de novo para a minha noiva, que também é bailarina, porque ela não tinha acreditado. Nunca vi ninguém ir tão alto e tão de cabeça para baixo".

Thiago Soares já fez esse sofisticado (por mais que o capoeirista de Ipanema talvez não saiba) e dificílimo passo de balé. E muito mais. Qualquer busca rápida no YouTube vai te mostrar o que ele é capaz de fazer com seu corpo. Thiago é hoje o bailarino mais bem sucedido da história do Brasil. Está no auge da carreira. Para se ter uma idéia, em maio ele estrelou Romeu na estréia do espetáculo de dança "Romeu & Julieta" aqui na terra do Shakespeare (na Opera House em Londres).

Thiago contou a este colunista essa história do capoeirista de rua para ilustrar que, apesar de o Brasil não ter muita tradição no balé clássico, tem muita gente com potencial para ser bom bailarino no Brasil, mas que as oportunidades são raras. E que, por essa razão, ele teve sorte de ser descoberto. "Estava no lugar certo na hora certa", diz ele. "Muita gente quer a dança, mas a dança não quer todo mundo".

E a dança quis Thiago não só porque ele une o talento com os dotes físicos ideais para a prática do balé, mas também porque o homem tem estrela. Thiago é um fenômeno à la Gustavo Kuerten. Nasceu num pais sem tradição ou apelo popular no que faz de melhor e, ainda assim, conseguiu alcançar o topo do mundo. Thiago Soares é hoje um dos primeiros bailarinos do Royal Ballet da Opera House de Londres, uma das quatro principais companhias de balé do mundo (ao lado de Bolshoi, Kirov e a Opera Nacional de Paris). "Para um dançarino, chegar aqui é como para um ator chegar a Hollywood", ilustra ele.

Foi no Méier, aos 16 anos (hoje ele tem 26), que Thiago ingressou no balé. Ingressou bem tarde, diga-se, já que os bailarinos começam a dançar, via de regra, com 9 anos de idade. Mas no Centro de Dança do Rio ele conseguiu uma bolsa e recebeu um tratamento especial.

Nessa época Thiago já tinha convicção de o que queria mesmo era seguir a carreira de dançarino. Nem a desconfiança de seu pai, nem o preconceito que existe contra homens bailarinos foram obstáculo: "Preconceito existe, mas nunca sofri isso diretamente", diz o bailarino. "Quanto ao meu pai, sua preocupação era apenas: 'vai ganhar dinheiro com isso?'. No que diz respeito à minha personalidade e a minha identidade, meu pai já sabia quem eu era. O problema é que minha família era de classe média baixa, quando comecei a dançar meu pai começou a ter dificuldades financeiras e não podia ficar pagando minhas viagens".

Seu pai só mudou de idéia quando viu o filho no Jornal Nacional. Thiago, ainda como estudante no Méier, ganhou a medalha de prata no Concurso Internacional de Dança de Paris e começou a aparecer na mídia. "Logo que comecei a ganhar competições, meu pai entendeu que o negócio era sério".

Depois da medalha de prata, Thiago Soares, ainda com 17 anos, foi convidado para dançar como protagonista na companhia de balé do Teatro Municipal do Rio.

Em 2001 veio a glória que catapultou de vez sua carreira. Ainda como bailarino do Municipal do Rio, Thiago foi disputar o concurso de dança do Teatro Bolshoi contra 270 bailarinos do mundo inteiro. Saiu de lá como o primeiro brasileiro a ganhar a medalha de ouro. "Aí me convidaram para ser estagiário no Balé de Kirov por 6 meses", completa Thiago. Ele foi o segundo estrangeiro em 100 anos de história a adentrar o Kirov.

Da Rússia, Thiago foi parar na Inglaterra. Em 2002 conseguiu um teste no Royal Ballet. "Era minha primeira vez em Londres. Tava com jetlag ainda no dia da audição, mas com aquela idade, você tá num estilingue, quando me soltaram e botaram a música, eu fui". Ele passou no teste, mas teve que botar as medalhas no bolso e começar por baixo. "Comecei como corifeu, a penúltima posição na hierarquia da companhia. Fui subindo, não furei fila e hoje sou respeitado aqui. Em 2006, durante o espetáculo Bela Adormecida, finalmente ascendi ao posto de estrela do Royal Ballet".

Quando chegou na Inglaterra, Thiago mal falava inglês. "Só 'hello', 'thanks' e 'yes', falava 'yes' pra tudo. Mas depois do primeiro mês já entendia tudo o que se falava nos treinamentos", lembra ele.

"A profissão de bailarino não é bem o que as pessoas imaginam", continua. "Tenho que ser dançarino, ator e administrador porque viajo muito para dançar como convidado. É uma profissão ingrata, um dia você quebra o pé e acabou. E os treinamentos são muito duros, o dia inteiro, você tem de estar no limite da perfeição para desfrutar um espetáculo de 1 hora ou uma aparição de 15 minutos".

Mas ser estrela do Royal Ballet também tem seu lado bom. "Posso viver o melhor dos dois mundos. No palco somos estrela, mas na rua passamos desapercebidos". Thiago é estrela no palco inclusive para a Rainha da Inglaterra. Elizabeth foi ver um espetáculo uma vez e gostou tanto do que viu que fez questão de cumprimenta-lo. "Foi um encontro rápido, ela ficou surpresa - no bom sentido - quando eu disse que era do Brasil e foi super simpática", recorda o bailarino.

Agora em agosto, Thiago Soares vai levar seu espetáculo de gala para o Brasil. A turnê com seus amigos bailarinos começa no Teatro Municipal do Rio no dia 18, passa por Brasília, Belo Horizonte, Salvador e acaba em São Paulo no dia 26.

Thiago já ganhou o mundo do balé clássico e ainda nem completou 27 anos de idade. Tudo isso porque ele percebeu do que era capaz com a dança - algo que o talentoso capoeirista de Ipanema talvez não tenha vislumbrado. "Com a dança tenho um poder de captar a atenção das pessoas naquele determinado momento. O artista latino, e acho que tenho um pouco disso, tem mais alma e paixão. Ele se entrega no palco como se não tivesse amanhã", discorre o bailarino do Royal Ballet. E arremata: "já os europeus têm seguro pra tudo, eles têm um monte de amanhãs". A falta de amanhã, nesse caso, proporcionou um futuro brilhante a esse brasileiro.


Alexandre Xavier se corresponde quinzenalmente direto do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte

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