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Sábado, 26 de julho de 2008, 07h33 Atualizada às 01h21

...E desencontros

Roberto de Sousa Causo
De São Paulo

As outras comunicações no dia 17 foram de José Uchoa, sobre "O Avatar como a Pessoa, no Orkut", interessante pesquisa realizada tendo uma comunidade do orkut como objeto. Renata Matsumoto discutiu o emprego, recente, de linguagem de chat room como legendas de filmes na TV a cabo, e Nara, outra nipo-brasileira, tratou de seu projeto conduzido pela Internet, com estudantes universitários. Falou por último Roberto Bezerra da Silva, sobre seu projeto "O Papel da Literatura em Inglês na Educação do Professor: Uma Abordagem do Letreramento Crítico".

Todos usaram powerpoint, menos eu, o escritor de ficção científica.

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Todas as comunicações foram muito interessantes e enriquecedoras, mostrando que o tema da cibercultura e a Internet como novo veículo e agente de modificações culturais, sociais e lingüísticas faz parte dos nossos interesses acadêmicos, o que impressionou a Prof.ª Ilana Snyder. Em seguida ela partiu para o "Colóquio Sobre Hipertextos: Letreramento na Internet", que aconteceu no dia 24 de julho na Universidade Federal do Ceará. Foi um prazer conhecê-la. Ela certamente mudou minha cabeça quanto a certos aspectos da Internet.

Se entendi bem, o letreramento crítico representa um movimento de impulso utópico que deseja funcionar como um meio de se enxergar o mundo, as relações sociais, políticas e culturais. Uma "máquina de pensar", como alguns dizem ser a própria FC.

Na mesma quinta-feira, fui até a Editora Aleph, a casa de William Gibson no Morumbi, para apanhar uns livros - entre eles Neuromancer 25, Count Zero e Nevasca, este de Neil Stephenson. O editor Adriano Piazzi e o coordenador editorial Delfin conversaram comigo sobre os planos da editora para a Bienal que se avizinha - será a primeira vez que a Aleph montará um stand na Bienal, e os dois falaram com entusiasmo da sua participação.

Enquanto eu estava no seminário da Administração da Faculdade de Letras, em outros campi da USP acontecia o encontro anual da Associação Brasileira de Literatura Comparada. Meu amigo de Salvador, Marcos Vilela, veio para apresentar um paper sobre a FC em Humberto de Campos, escritor da belle epoque carioca na virada do 19 para o 20.

Eu sabia que ele viria, e ansiava por reencontrá-lo - ele foi uma das pessoas que tornaram minha passagem por Salvador especial, no ano passado, ao me mostrar o Instituto Steve Biko e me falar da política racial na Bahia. Mas com toda a confusão de FantastiCon, seminário e tudo o mais, acabei me dando conta de que a ABRALIC já estava rolando, e eu não havia combinado nada com o Marcos.

Fui procurá-los pelos corredores das faculdades que sediavam o evento, mas só encontrei uma feira de descontos na História. Comprei um livro curiosíssimo, Uma Voz Espírita em Grande Sertão: Veredas (Editora Annablume, 2008), de Sandra Mara Moraes Lima, além de Histórias Mal-Assombradas de um Espírito da Floresta (Biruta, 2006), parte de uma série de lendas e folclore dirigida ao público juvenil e assinada por Adriano Messias. Enfim, comprei ainda Discriminação e Desigualdades Raciais no Brasil (UFMG, 2005), de Carlos Hasenbalg. Depois disso, escrevi para Marcos Vilela com as minhas desculpas. Ele me mandou sua comunicação sobre Humberto de Campos, um texto que merece ser publicado e lido pelos fãs da FC.

No sábado, minha esposa Finisia Fideli e eu fomos até a Casa das Rosas, na Av. Paulista, para o lançamento da antologia Anno Domini: Manuscritos Medievais (Andross Editora), organizada por Helena Gomes e Claudio Brites. Apresenta quase cinqüenta contos curtos, mas com alguns autores já nossos conhecidos, como Albarus Andreos, Claudio Villa, Nazarethe Fonseca e Raphael Draccon. Autores que estão batalhando suas publicações e cobrindo os espaços disponíveis. O prefácio do livro é de Silvio Alexandre.

O lançamento aconteceu dentro daquela atmosfera de alegre balbúrdia que envolve dezenas de autores tentando autografar em pé, pelos cômodos aristocráticos da Casa das Rosas. Uma coisa que facilitou as coisas foram os crachás identificando os autores, e o fato de cada um deles ter memorizado a página em que começa o seu conto! Também vimos por lá a escritora Giulia Moon, o editor Gianpaolo Celli e o acadêmico Caio Bezarias, entre outras personalidades e amigos. Foi um encontro agradável, e também nos agradou o fato de Helena Gomes e Claudio Brites terem trabalhado os contos com os seus autores, uma necessidade editorial sempre presente, não apenas pelo livro conter uma maioria de histórias inéditas.

Entre os autores, um garoto de 11 anos, Nicolas Vasconcelos, participante de um projeto social junto ao qual Brites atua como voluntário, em Santos. Seu conto, "As Três Pedrinhas", é um parágrafo único sem pontuação, um recurso que só os mais "experimentais" de nós ousariam. Ana Luiza Garcia tem apenas 16 anos, e a veterana Madô Martins nasceu em 1948 e tem seis livros publicados e incontáveis prêmios literários. Um dos autores, Renato Arfelli, de Santos, diz ter começado a escrever inspirado ao ler meus contos na Dragão Brasil, quando ainda era um menino. Fiquei surpreso - que eu tenha provocado esse efeito em alguém, ou simplesmente por ser um indício claro de que estou ficando velho! Um outro conto de Arfelli deverá sair na próxima antologia Ficção de Polpa, de Samir Machado de Machado.

O livro é portanto um instantâneo do atual contexto da ficção especulativa nacional, sua vitalidade em números e em variação de extratos sociais e de projetos literários. Desse número enorme, alguns, é claro, têm uma postura apenas participativa - estão nessa antologia mas não pretendem construir uma carreira literária. Outros pretendem agora, mas provavelmente desistirão perante as dificuldades do mercado e de uma cultura que oferece pouco reconhecimento à literatura - menos ainda à literatura especulativa. Alguns, enfim, persistirão e nós os veremos por muito tempo ainda.

Neste instante, estão todos presentes neste simpático livro de produção muito profissional, histórias de fantasia medieval com algumas saídas para a alta fantasia e outros subgêneros com "aura" da Idade Média. Encontrá-los naquele sábado foi uma festa e uma alegria, uma sensação de partilha de um mesmo amor pela literatura, e das encruzilhadas a que esse amor nos leva. A todos, o melhor destino que possam ter como escritores.

Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não necessariamente estão de acordo com os parâmetros editoriais de Terra Magazine.
 
Reprodução
Imagem da antologia Anno Domini: Manuscritos Medievais (Andross Editora), organizada por Helena Gomes e Claudio Brites

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