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Divulgação
Waldick Soriano é retratado em documentário de Patrícia Pillar
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Paquito
De Salvador (BA)
No último sábado, assisti ao documentário Waldick, sempre no meu coração, de Patrícia Pillar, em sessão única no encerramento do IV Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, que aconteceu este ano no Teatro Castro Alves, templo da música onde, provavelmente, Waldick Soriano, o protagonista da fita, nunca havia se apresentado. Desde que me entendo por gente, este artista foi sempre citado de maneira jocosa, e às vezes o próprio cantor endossava esse olhar galhofeiro sobre si, como, por exemplo, ao posar pra uma capa de disco, segurando um cãozinho, com os dizeres "Ele também precisa de carinho", como título e comentário da sua mais famosa música, Eu não sou cachorro, não. Sem contar as entrevistas, como a dada ao Pasquim em 1972, quando afirmou que "câncer não existe, é conversa pra boi dormir.(...) São mil doenças que existem por aí que eles tacham de câncer. O cara tem um tumor no miolo, na cuca, na moringa uma espinha como nós falamos e eles dizem que é câncer, etc".
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O mérito do filme de Patrícia é lançar sobre seu personagem um olhar mais humano e menos superficial. Usar o nome de outra canção no título, em vez da tão falada Eu não sou cachorro, não, já é um bom começo. E colocar o protagonista, logo no início, em contato com a terra em que nasceu, um eficiente caminho: Waldick, na estrada para Caetité, na Bahia, fala com saudade e sem afetação de sua história. Os símbolos que rendem o anedotário ainda estão incólumes: chapéu preto, óculos escuros, garrafa de bebida, mas por tudo passa uma sombra de melancolia, afinal o artista está velho, alquebrado e digno, qual um velho pistoleiro dos westerns, não os de Durango Kid, que ele amava, mas de John Ford ou Howard Hawks, épicos em sua magnitude.
As imagens em close se sucedem e os momentos de música, quando ela canta à capela, são preciosos, íntimos, pois toda a imagem construída por anos pelo artista emoldura um canto rústico e dorido. As canções do seu repertório falam de amores desfeitos, sem nenhum pudor em desvelar os sentimentos mais inconfessáveis e, dentre todas, destaco Taça da amargura, de Raimundo Evangelista e Luiz Wanderley, que contém versos-síntese da música de dor de cotovelo: "amigo, ouça esta canção chorando/ porque quem está cantando/ está chorando também".
O filme se detém nas confidências do cantor, imagens de shows atuais, cenas de filmes antigos, e entrevistas com fãs e ex-amores que insistem em se colocar como amores de sempre. E Waldick, como a justificar a sua sina de errante, diz frases como "vivo só, por um capricho meu", e cita, à guisa de resposta, a canção que queria ter composto, Ninguém é de ninguém, de Toso Gomes, Humberto Silva e Luís Mergulhão, sucesso de Cauby Peixoto: "ninguém é de ninguém/ na vida tudo passa/ ninguém é de ninguém/ até quem nos abraça". À medida que aparecem trechos de mais canções, é impossível não se reconhecer cantarolando trechos de Eu também sou gente ou Torturas de amor.
No entanto, se há um olhar demorado sobre o homem, o artista aparece descontextualizado. Fica parecendo que Waldick é um fenômeno isolado de seus pares num nicho que se convencionou chamar de música brega ou cafona e que, no entanto, goza de popularidade inequívoca. Além de Waldick, Núbia Lafayette, Altemar Dutra, Anísio Silva e outros estão na memória afetiva de todos os brasileiros com mais de 40 anos, tanto os que assumem amar este tipo de música, como os que se riem do jeito ingênuo, desarmado e derramado destes incuráveis românticos, ancorados no culto ao bolero.
Tecnicamente, o filme deixa a desejar. Há cenas com iluminação deficiente e som quase ininteligível. O significado de muito do que se diz sobre Waldick se perde, simplesmente porque não se entende integralmente o que dele se fala, como se a produção fosse um curta de iniciante, sem recursos. Por falar em curta, Waldick, sempre no meu coração tem cerca de 50 minutos, o que, para a extensão do que se pretende mostrar, é pouco.
A diretora, em entrevistas, se diz encantada com seu personagem, mas não dá conta, minimamente do que há em torno dele, o que torna o retrato inconcluso. Diante da quantidade e qualidade de questões suscitadas pela simples existência de uma figura como Waldick Soriano na música brasileira, o fã de Durango Kid merecia mais.
Terra Magazine