Atualizada às 18h52 Roberto de Sousa Causo
De São Paulo
Hegemonia: O Herdeiro de Basten, Clinton Davisson. São Paulo: Editora Arte e Cultura, 2007, 285 páginas. Capa de Osmarco Valladão. Prefácio de Jorge Luiz Calife.
O romance Hegemonia: O Herdeiro de Basten é um raro esforço - provavelmente desde a trilogia Padrões de Contato, de Jorge Luiz Calife - da ficção científica brasileira em criar um complexo mundo de tecnologia e cultura, devedor de várias idéias da FC anglo-americana, mas com personalidade própria.
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O fluminense de Volta Redonda Clinton Davisson começou muito cedo a criar o seu mundo ficcional, e em 2001 ficou em terceiro lugar no concurso Náutilus da revista Sci Fi News com a história "O Herdeiro de Basten", um ensaio para este que é o seu segundo livro, mas o primeiro da série "Hegemonia".
Davisson ambienta o romance numa Concha de Dyson - construção que envolve uma estrela de brilho enfraquecido e que visaria capturar o máximo da sua energia para sustentar uma civilização avançada, sedenta de energia. A concha empregaria toda a matéria de um sistema solar, em sua construção. A idéia foi proposta pelo físico Freeman Dyson, que, porém, teria se inspirado em autores de FC como o inglês Olaf Stapledon (1886-1950) e o americano Raymond Z. Gallun (1911-1994). Na FC internacional, os exemplos são inúmeros, desde Star Maker (1937), de Stapledon, até o presente. Segundo Davisson, "A idéia das esferas Dyson surgiu em 1980 quando vi a série Cosmos de Carl Sagan. Comprei o livro e tinha fotos da esfera Dyson. Pensei: 'É lá que a história vai se passar'."
Em Hegemonia, além dessa estrutura de dimensões astronômicas, há cinco planetas artificiais dentro da Concha de Dyson, e a aventura dos protagonistas do romance se dá na superfície de Elôh, um desses mundos. Nele, a hipertecnologia e as megaestruturas são substituídas pelo exotismo e pelo contato com diferentes culturas, formadas por várias espécies inteligentes. Isso faz o romance assumir os traços de um romance planetário, outra forma bastante rara no Brasil.
Elôh é um planeta gigantesco circundado por um anel de plasma incandescente, o que faz dele um mundo livre da noite, mas turbulento em termos gravitacionais. É para esse planeta que vai o protagonista Ron Ger Schowlen, um jovem cadete da Hegemonia, o império galáctico que controla a galáxia conhecida. Ron é natural de um reino de Elôh, Basten, regido por seu irmão Shodan. O romance é narrado como um "diário neural" que registra os pensamentos de Ron.
Ron e Shodan disputam a mesma mulher. Essa mulher é - numa cultura em que o incesto não é tabu, já que as pessoas são geradas artificialmente - sua irmã Dúnia. Mas parte da tensão entre os irmãos advém do fato de Ron ter passado dez anos de sua vida fora de Elôh, estudando na academia militar da Hegemonia. Há um choque de perspectivas culturais, na maior parte em torno do uso da hipertecnologia.

Esse choque é repercutido constantemente, toda vez que Ron se depara com uma nova cultura no planeta, com sua própria visão do papel da tecnologia e da ciência no entendimento da vida. Um dos elementos tecnológicos de maior interesse é a "derma", um traje de interface biocibernética que funciona como computador portátil e armadura, além de alimentar e curar ferimentos e doenças, e teletransportar o seu usuário.
Outro elemento é a realidade virtual - felizmente questionada neste romance. Em outras obras, essa tecnologia se torna quotidiana e não sofre questionamentos; mas em Hegemonia, ela é causa de indagações sociais e políticas, conferindo mais profundidade ao romance. O fato da virtualidade ser fator político potencialmente desestabilizador das sociedades de Elôh me fez lembrar o romance de Karl Schroeder resenhado aqui em 26 de abril de 2008, Sun of Suns (2006), que também é aventura ambientada num mundo fechado - mas um vasto ambiente gasoso flutuando no espaço.
O que coloca o enredo em movimento é o ataque dos dragões (uma das espécies inteligentes de Elôh, ainda que uma das menos conhecidas) ao país dos gelfos, que são marsupiais inteligentes de uma cultura tradicionalista. Procurados pelos gelfos, Shodan e Ron partem numa expedição para ajudá-los a repelir os invasores. No caminho, encontram animais marinhos de quilômetros de comprimento; uma audaz capitã merfolk (com falas emprestadas de Moby Dick, de Melville, segundo Davisson); árvores de centenas de metros de altura; frânios, uma outra espécie alienígena, mas dividida entre um grupo de louva-a-deus e outro de baratas inteligentes (como no romance Dokt Bar Attón, de Beto Hoisel); e uma quarta espécie, as indras, composta de mulheres muito sensuais, que se reproduzem por partenogênese.
As indras possuem poderes mágicos, que são racionalizados, de maneira rudimentar, em termos científicos. Isso nos faz enxergar o romance como uma fantasia científica com elementos de FC hard, uma combinação muito instigante. O exotismo é elemento chave aí, e um dos seus aspectos mais instigantes está na linguagem que Davisson adota nos diálogos - um português europeu, que, para o leitor brasileiro, soa antigo ou aristocrático.
Um toque original, que também equilibra o germanismo de certas caracterizações culturais e lingüísticas. Poderia, contudo, se estender para situações fora dos diálogos - os pensamentos dos personagens e a nomenclatura de Elôh, por exemplo, equilibrando melhor o texto.
A narrativa se move com segurança, na direção de desenlaces eletrizantes e sustentando movimentadas cenas de combate (favorecidas pela narrativa em tempo presente) e várias reviravoltas surpreendentes que fazem os heróis reverem suas convicções e conquistarem novos aliados. Muito é deixado, evidentemente, para os volumes futuros, já que este é o primeiro de uma planejada série de sete livros.
Fica em suspenso muito dos motivadores da trama - especialmente a presença furtiva que parece manipular as forças que estão em choque em Elôh -, mas também da história, geografia, e dos diversos extratos culturais do planeta gigante.
O que me atrapalhou o desfrute do livro não foi isso, porém. Foi antes o fato de que ele, talvez na tentativa de gerar uma prosa dinâmica e veloz, falha em firmar uma cor local e de explorar a potencialidade mais rica da paisagem física e cultural de Elôh. É um problema relativamente grave, considerando que se trata de um romance planetário. Basta pensar em uma obra como Duna (1965), de Frank Herbert, apenas com descrições rudimentares e perfunctórias da complexa ecologia de Arrakis. Uma forte imaginação visual, amparada por recursos expressivos consistentes, é imprescindível.
Hegemonia também se desequilibra um pouco ao privilegiar os diálogos, cuja indicação - quem fala o que, quando e como - é esquemática; aliás, como é norma na literatura juvenil brasileira, e este é um romance claramente juvenil. Ron Schowlen é um adolescente, ponto de contato obrigatório com o leitor-alvo. Mas como o livro se desenvolve como um diário, tudo passa por sua percepção adolescente, e portanto arrogante e conflituosa, das coisas - a todo instante ele se envolve num duelo verbal com alguém.
O fato de Ron ser atrapalhado até que lhe dá um certo charme, mas seus excessos adolescentes minam a seriedade dos assuntos do livro, que incluem a realidade dos sentimentos, a diplomacia e a guerra. Fica a expectativa quanto às seqüências, esperando que este mundo novo na FC brasileira, tão repleto de idéias audaciosas e instigantes, alcance novos níveis de exploração e de complexidade.
Hegemonia: O Herdeiro de Basten, traz também anexos com glossário e indicações sobre as línguas faladas em Elôh, além de uma bonita arte de capa, de Osmarco Valladão.