
Atualizada às 23h37 Carlos Drummond
De Campinas (SP)
A degradação da língua, intensificada com a queda da qualidade do ensino e o crescimento da comunicação cifrada por meio do computador e dos telefones celulares, já provoca prejuízos em diferentes esferas de atividade. Em São Paulo, juízes reclamam da impossibilidade de compreender algumas petições e iniciais com textos confusos e desconexos. A correspondência eletrônica entre empresas não raro requer mensagens adicionais para esclarecimento do conteúdo, tamanha a desorganização da redação dos e-mails. Mesmo em centros com grande concentração de população universitária e de pesquisa científica, a parcela plenamente alfabetizada beira apenas um terço da população. Os jornais, que deveriam funcionar como muralhas de defesa da língua, apresentam não só erros de português como lacunas de construção de períodos e de títulos que dificultam a compreensão, quando não conferem um outro sentido ao que supostamente se pretende dizer.
A deterioração da língua atinge a sua célula fundamental: a frase. A dificuldade para formar frases não é, entretanto, uma exclusividade brasileira. Acadêmicos americanos têm lançado alertas sobre as consequências da morte da sentença, componente básico da comunicação humana. O bibliotecário-chefe da Biblioteca do Congresso, James Billington, vê uma escalada da desarticulação dos textos em inglês. A frase está moribunda e isso é sintomático de uma doença potencialmente fatal para a civilização, diz Billington.
A sentença, como unidade básica, deve conter a mesma qualidade indispensável a todo e qualquer texto: ter começo, meio e fim. Sem sujeito, não há heróis nem vilões. Sem verbo, não há ação, sem objeto, nada se move, muda, é destruído ou criado, ilustra Billington.
O aumento da quantidade de informação tem resultado em uma queda não raro comprometedora da qualidade da comunicação. O fato de a degradação da frase, e, por suposto, da comunicação como um todo ocorrer em um momento de inédita produção e troca de informações, não deixa de ser irônica.
A revolução da internet, diz Billington, resultou em novas possibilidades de interação, mas também conduziu a um jargão incompreensível sem sentenças, pontuação nem parágrafos e a uma menor compreensão do mundo e do seu significado. Ele acha que caminhamos rumo à linguagem usada por programadores de computador e controladores de tráfego aéreo. Assim, a língua regride da condição de portal do pensamento crítico para ferramenta de instrução.
Uma pesquisa recente realizada nos Estados Unidos mostra que apenas um terço dos alunos do nível correspondente ao nosso segundo grau completo tem proficiência em língua inglesa.
Uma frase desconexa representa um problema sério em um texto. A reunião de várias frases desconexas resulta em um obstáculo intransponível à compreensão.
A obtenção de um bom emprego depende de escrever corretamente, mas essa constatação nem sempre é suficiente para levar as pessoas a adquirir proficiência na sua língua.
O problema é complexo e passa necessariamente por etapas que, por vezes, parecem fora de moda: ler sempre e ter raciocínio crítico.
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