
Atualizada às 14h31 |
Arnild Van de Velde/Terra Magazine
Com a presença de políticos e sob uma crescente onda de ataques a homossexuais, homens e mulheres celebram a Parada Gay de Amsterdã
|
Arnild Van de Velde
De Amsterdã, Holanda
De pé, no alto de uma casa-barco, os dois homens de meia-idade se entregavam ao tecno, ritmo indispensável ao momento. Sentadinhas bem ali do lado, balançando-se com timidez, suas prováveis mulheres olhavam encantadas para o cenário que se descortinava imediatamente abaixo, no canal da Korte Prinsengracht - altura em que a parada do Orgulho Gay de Amsterdã surge no ponto mais ao norte do cinturão de águas da capital holandesa.
Naquele trecho, juntava-se ao quarteto uma boa parcela das 500 mil pessoas que, no último sábado, deram ao Gay Pride - como o desfile é conhecido internacionalmente - holandês seu recorde de público. No décimo-terceiro ano de sua realização, o evento debutou na política: sem partido, recebeu apoio de algumas legendas, a exemplo do Partido do Trabalho (PvdA), do ministro Ronald Plasterk, da Educação, Cultura e Ciência. Uma participação "mediática", como a ação seria classificada no Brasil de hoje, que acrescentou mais um, à lista de feitos do premiado geneticista Plasterk - o de ser o primeiro membro de governo, na Holanda, a apoiar abertamente as lutas dos homossexuais. No rastro do PvdA, os igualmente progressivos D66 e GroenLinks também puseram seus blocos na rua, isto é, nos canais da cidade governada por Job Cohen, a quem as circunstâncias delegaram o lugar de discreto anfitrião.
Em seu terno elegante, a bordo do "Bota Fogo", o exponencial prefeito de Amsterdã fez figura deslocada no momento e no espaço, oferecendo um contraste engraçado ao modelo escolhido pelo ministro da Educação, que compareceu de jeans, camisa branca, gravata rosa e chapéu - bem no espírito do dia. "Uma provocação", diria mais tarde o colega Eimert van Middelkoop (ChristenUnie), da pasta da Defesa, em seu descontentamento quanto à presença pontuada de quadros do PvdA, na parada gay. Na ausência do primeiro-ministro Jan Peter Balkenende, que alegou outros compromissos, Ronald Plasterk retrucou, aproveitando a oportunidade de fazer História: "Eu aqui represento o país".
Parece, mas não é
O homossexualismo nos Países Baixos, ao contrário do que se acredita, não é uma obviedade. É certo que a Holanda foi pioneira em reconhecer o direito ao casamento, à adoção e à herança, entre casais do mesmo sexo, mas nesta obra das liberdades individuais holandesas há cantos ainda por serem lixados. "Queremos que parem de nos dizer: ajam normalmente!", resumiu Frank van Dalen a Terra Magazine. Diretor da organização Pro Gay, que há três anos assumiu o evento, van Dalen, 39 anos, disse que é preciso abolir esta imposição. "Agir normalmente", explicou ele, significa adotar um comportamento de heterossexual dentro do relacionamento homossexual. "É evitar beijar meu parceiro em público, na hora de despachá-lo para o trem, porque ele não é uma mulher", exemplificou.
Foi sob a batuta de van Dalen que a Gay Pride holandesa ganhou o perfil que mudou sua trajetória. Ele orquestrou não somente a adesão de políticos, como também de empresas multinacionais (seguindo o exemplo da Shell, que já havia participado com um barco em anos anteriores). Em 2008, a IBM saiu com o slogan "Orgulho de si mesmo, orgulho da empresa". A seguradora ING e a TNT (correios), porém, foram as que assinaram cheques. Patrocinaram 20% do total do orçamento, estimado por van Dalen em 250 mil euros. Do valor, 150 mil pagaram os custos do desfiles dos barcos e outros menores, e os 100 mil restantes foram investidos na programação de apoio que incluiu festas de rua. A principal delas na Reguliersbreestraat, tradicional reduto gay do centro de Amsterdã.
No último sábado, a polícia - o utra categoria de estreantes - abriu o desfile. Segundo divulgado pela assessoria da instituição, o objetivo foi marcar o papel da corporação diante da crescente violência contra homossexuais na Holanda. "Pensava-se que este tópico já estaria superado, mas não é verdade", afirmou Frank van Dalen. A falsa idéia de máxima tolerância e aceitação levou à suspensão das estatísticas dos crimes, só retomada no ano passado. Entre as demais novidades, o barco dos cristãos, e o dos pais de homossexuais menores de idade - seguindo atrás da embarcação dos filhos. O Brasil esteve representado no desfile por dois grupos principais e participantes isolados.
A Terra Magazine, Frank van Dalen disse ainda não dispor de números. Os principais ataques partiriam de setores da população sem esclarecimento a respeito da homossexualidade. Antecessor de van Dalen, o empresário Edgar Bonte declarou ao jornal "Volkskrant" que "o relógio da luta foi atrasado em 15 anos de volta ao passado". Bonte revelou-se o porta-voz dos críticos da participação de políticos e empresas na Gay Pride. Para estes, a parada deve ser o que sempre foi: um evento festivo, regado a sexo e drogas, como foi possível ler em blogs e entrevistas do fim de semana.
"A mobilização é um passo decisiv o, não se pode focar apenas em festas", contrapôs Frank van Dalen. Membro do VVD, partido sem expressão no evento, van Dalen já organiza a agenda política para a próxima etapa. O projeto, que ele julga ambicioso, visa agregar todas as comunidades homossexuais (de mulheres, transgêneros, deficientes) num só corpo. "É preciso estender a ação em prol da visibilidade", disse ainda. Um primeiro sinal positivo já foi dado pela sociedade. Num dia em que o tempo não estava espetacularmente bom, pessoas de todas as idades compareceram às ruas para, sob o mote "Fé, esperança e amor", dizerem sim a gays, lésbicas e demais grupos homossexuais, da maneira mais autêntica possível: mostrando-se em todas as suas diferenças, suas distâncias do ideal de beleza, juventude e riqueza e verdade, numa comunhão de alegria do jeito que só se vê em Amsterdã.
Terra Magazine
» EUA: Taleban está próximo de retomar Afeganistão