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Quarta, 6 de agosto de 2008, 08h05 Atualizada às 18h22

E a garçonete

Amilcar Bettega
De Paris

Outro dia falei da jardineira (leia aqui) que vem todas as manhãs abrir o jardim à frente da minha janela. Pois digamos que seja ela de novo. Não exatamente a mesma, porque agora não seria mais jardineira e sim garçonete, mas o mesmo tipo, entendem?, capaz de provocar o mesmo efeito quando a observação à distância se prolonga e abre espaço para o que está atrás da aparência - principal característica dos fatos.

Então é ela de novo, atrás do balcão desse pub de preços acessíveis, manejando manetes que despejam jorros dourados nos copos, como se ordenhasse uma vaca sagrada ou tocasse um insólito instrumento de tubos metálicos e brilhantes.

Seus movimentos são precisos, fruto de uma concentração extrema, mas ao mesmo tempo têm graça e leveza. Não é apenas uma tarefa a qual ela se dedica com uma eficiência que a faz quase parte da máquina, como uma prolongação do mecanismo que cresce do próprio balcão e bombeia a vida nesse pequeno mundo de penumbra às cinco da tarde, música a volume aceitável (rock inglês dos anos oitenta, até onde lembro) e conversas paralelas. Ela está ali como centro, principal elemento desse universo que existe por em torno dela. Protegida pelo balcão, revela-se primeiro da cintura para cima: uma camiseta branca sem mangas, que desce até um pouco abaixo do umbigo e deixa à mostra alguns centímetros do abdômen liso e a curva que dá início aos quadris. Os braços são longos, bem equilibrados desde os ombros até as mãos magras e de dedos compridos. O desenho do tríceps é vagamente sugerido, sobretudo quando o braço faz esse ângulo de noventa graus para sustentar o copo sob a fonte. Detendo-se um pouco mais na roupa é possível dizer que as mangas, assim como o colarinho da camiseta, foram retirados com calculada displicência. Ali onde a tesoura cortou, irregular e asperamente, o tecido se enrola sobre si mesmo à maneira de arremate. Os seios estão livres sob a camiseta e por vezes um movimento do tronco para frente os revela por baixo de um braço, firmes, e discretos o bastante para se mostrarem de forma tão natural entre um gesto e outro. O pescoço e boa parte do seu prolongamento entre as espáduas também estão à mostra. Abaixo da coluna cervical, do lado direito, há uma tatuagem de uns cinco centímetros, cujo desenho é impossível identificar de longe.

O cabelo é cortado rente à nuca, de fios inteiros formando mechas que tombam sobre o rosto a cada vez que ela inclina a cabeça, e que a cada vez ela leva para trás da orelha com o indicador.

Seus olhos são negros, e as sobrancelhas compridas alongam a testa. O nariz é pequeno e delicado, e a boca mostra uns dentes bem alinhados ao estender mais um copo de cerveja ao cliente que o recebe como uma dádiva. Ela sorri de maneira generosa mas é como se o sorriso fizesse parte do gesto de estender o copo. No momento seguinte lá está ela outra vez séria e concentrada em tudo o que há para ser feito atrás do balcão.

Os copos sujos na máquina, o caixa, limpar o balcão, preparar as tigelas com salgadinhos, retirar os copos limpos da máquina, alinhá-los na bancada atrás de si, repor as garrafas vazias, tudo isso cansa, e uma pausa para o cigarro sempre se impõe.

Então ela sai da sua trincheira pela primeira vez, e pela primeira vez a vemos da cintura para baixo: um jeans bem justo que mais desenha do que encobre as formas. O tamanho do quadril, um pouco mais largo do que poderia sugerir a visão do tronco, é o que mais chama a atenção. Usa sandálias e tem uma corrente no tornozelo esquerdo.

Está fumando na calçada, encostada à lateral de um automóvel estacionado. Fuma devagar e tem um ar ausente. Apanha o celular do bolso da calça e faz uma ligação. Fala sem alterar a expressão neutra e ausente e desliga ao mesmo tempo em que apaga o cigarro com o pé, na calçada.

Quando passa de volta ao balcão, traz um leve cheiro do cigarro consigo. Dois clientes a esperam, com seus chapéus estendidos.

*

As rodadas se sucedem, as horas passam mais rápido, a clientela aumenta quando a noite começa a cair.

Copos, tantos copos, a atenção se dispersa, a conversa tem interesse, outros assuntos, e se passa de uma coisa a outra e a mais outra, enquanto o tempo avança. E ainda outros copos, e com tantos copos é inevitável: hora de ir ao banheiro, onde sempre é preciso esperar um pouco, há sempre alguém lá dentro enquanto aqui fora a gente põe as mãos nos bolsos, se vê no espelho do lavabo à saída do banheiro, vê-se o bar de um outro ângulo, espera-se.

Quando enfim a porta se abre, é ela quem sai, já quase esquecida em meio aos vários copos que a alegria dessas horas foi trazendo, e é ela que à passagem te faz um cumprimento inaudível (ou terá sido um mero olhar - que a revela ainda mais bonita - e um movimento da cabeça?) e te deixa envolto em uma nuvem cujo aroma é uma combinação do cheiro da sua pele e o do perfume vaporizado sobre o corpo a cinco ou seis horas atrás.

Você ainda a acompanha com o olhar enquanto ela assume outra vez o seu posto atrás do balcão. Então você entra no banheiro, chamado pela necessidade após tantos copos. Você ainda saboreia o aroma como o resquício da presença dela. E é no momento em que você fecha a porta atrás de si que começa a perceber uma leve alteração no cheiro, como se houvesse um odor de fundo, mais denso, que aos poucos vai se sobrepondo ao cheiro da sua pele e o do perfume de cinco ou seis horas atrás. É o odor da sua presença íntima, de uma pequena parte sua que ela deixara ali dentro, um aroma discreto (talvez atenuado por uma borrifada do aromatizante pousado no chão, ao lado do vaso), em nada agressivo ou repugnante: uma honestidade interior, apreciável, digna de uma deusa que de tempos em tempos desce à terra.

Você se deixa ficar ali dentro (fico ali dentro mais tempo do que o necessário) como a gozar de um entorpecente.

Quando enfim você sai já há uma fila à espera. Você passa sem olhar para ninguém. O próximo entra. E antes de fechar a porta faz uma exclamação não muito polida.

Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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