Terra Magazine

 

Quinta, 7 de agosto de 2008, 13h34 Atualizada às 17h33

Mônica Salmaso: "Não tenho a trip da fama"

Dani Gurgel/Divulgação
Pirataria não afeta meu tipo de carreira, diz a cantora Mônica Salmaso
"Pirataria não afeta meu tipo de carreira", diz a cantora Mônica Salmaso

Claudio Leal

"É muito lindo a maneira como ele se comporta com a música. Uma coisa de oferecer a música e não de aparecer através dela."

Bobby McFerrin por Mônica Salmaso. Mas não seria um desvio supor que, na definição do estilo do cantor americano, a cantora Mônica Salmaso, 37 anos, tenha definido sua ética musical. A voz sem adornos. O palco livre de egoísmos. O canto integrado aos instrumentos.

Deve-se encontrar as bases dessa escolha na formação profissional da intérprete que acaba de lançar o disco Nem 1 ai e atravessa o País com a turnê de Noites de gala, Samba na rua, imersa no cancioneiro de Chico Buarque.

Veja também:
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Iniciou a vida artística no teatro, numa peça de Gabriel Villela, "O Concílio do Amor", em 1989. Desde então, única presença nos tablados. Guardou, porém, o artesanato solidário dos cenários, da composição de uma montagem, da costura do figurino. Assimilou o anonimato dos operários.

- É saudável e muito educativo, pedagógico, pra todo cantor, que ele tenha a possibilidade de viver uma experiência artística onde ele não é o centro. Na hora que você está sob o foco, aquilo você carrega. Sai aquela pressão de ser a estrela - sintetiza Mônica Salmaso, em seu apartamento, em entrevista a Terra Magazine.

Com o violonista Paulo Bellinati, nova lição de ofício. Juntos gravaram o disco Afro-sambas, em 1995 - retomada de Baden Powell e Vinicius de Moraes. Duo de voz e violão. Nas suas palavras, "um intensivo de um tipo de relação musical muito diferente do acompanhamento". Integração nas parcerias musicais que levará a partir dessa experiência. Aprende a divertir-se com os músicos.

À margem da ética de artífice da voz, de servir de esteio à arte, sem submetê-la à tirania de uma personalidade, construiu - aos trancos, quase certo - a aversão às dores e delícias do estrelismo. Prefere um público que não rasgue sua camisa, mas que seja capaz de elogios específicos a suas interpretações.

- Tenho o trabalho. Se o trabalho vai aparecer, do jeito que ele é, ótimo, obrigada, valeu, perfeito, bacana. Mas não tenho essa trip da fama. Tenho o ofício, o trabalho.

Auto-retrato que contraria uma tradição recente de divas e estrelas da música brasileira. Ao espezinhar o mito dos palcos Sarah Bernhardt, e seu "caráter infantilmente egoístico", o crítico e dramaturgo irlandês Bernard Shaw referia-se "à arte de nos fazer admirá-la, compadecer-nos dela, defendê-la, chorar com suas lágrimas... e aplaudir com todo o entusiasmo quando desce a cortina".

Num rápido paralelo, aí está a diferença entre uma artista que serve a si mesma, sob os leques da arte, e aquela que opta por unir a disciplina às exigências de uma arte, de uma música. Certamente, Mônica Salmaso prefere ser a última. O que não indica o sumiço das suas digitais em cada canção. Estão presas à harmonia.

Nesta entrevista, a cantora reconta sua trajetória, estabelece influências de Clementina de Jesus (1901-1987), critica a ignorância brasileira em relação à música latino-americana e comenta os recém-lançados Noites de gala e Nem 1 ai. Sem deixar de lado a presença de Chico Buarque e Dorival Caymmi nos seus anos de formação musical. E não se furta a entrar em terreno pedrogoso. Pirataria e direitos autorais:

- Eu entendo que, pra uma carreira como a minha, a pirataria não é um problema, é um fator de divulgação. Primeiro porque você não acha meus discos no camelô. A "pirataria" que eu sofro não é a da venda, é a da divulgação...Tem discos meus que ninguém consegue encontrar. Então, quero que as pessoas escutem. Ótimo se elas escutarem de graça. Os acessos pela internet às minhas músicas, mesmos os discos que estão no catálogo, são divulgação pra mim.

A cantora se apresenta nesta quinta-feira, em São José do Rio Preto, e leva a turnê de Noites de gala para Ribeirão Preto, Campinas, Santos, Rio de Janeiro, São Paulo e Campo Grande.

***

Terra Magazine - Como é que você faz a seleção musical de seus discos? Parte de suas gravações não está no repertório atual da música brasileira.
Mônica Salmaso - Não faço nenhuma coisa acadêmica de pesquisa. Tenho curiosidade. Muitas vezes acontece de eu ser convidada para projetos paralelos àqueles que são os meus discos. E, nesses projetos, acabo descobrindo, conhecendo. As pessoas me ensinam músicas que me interessam e ficam guardadas numa espécie de baú, aonde eu vou buscar o repertório pra um disco. Esse último disco, como foi com músicas só do Chico (Buarque), é um processo diferente. Mas os discos anteriores - Trampolim, o Voadeira e o Iaiá - foram feitos com músicas que eu ouvia desde criança ou que foram aparecendo através desses projetos paralelos, ou então amigos que já sabem meu gosto: "Achei uma música que você vai gostar!". Então, não é: "vou fazer uma pesquisa relacionada a determinada época ou região..."

O Noites de Gala, Samba na rua, com músicas de Chico, foi mais difícil pra selecionar as canções?
O de Chico é um negócio engraçado. Ele tem uma obra muito grande, é um dos compositores que eu mais conheço. Conheço muito, ouvia desde criança, tinha quase toda a discografia em casa. Só fui atrás do que eu não tinha ainda, o que pra mim foi uma delícia. Praticamente, reescutei aquilo que já conhecia. Esse processo do Chico foi legal, primeiro, porque foi uma viagem na minha vida. Reescutar a obra dele é viajar pra tempos de minha vida em que eu ainda nem era cantora.

Você tinha gravado antes "A Violeira", uma bela canção de Chico Buarque, mas não muito executada...
Não, porque ela está numa trilha que eu descobri, "Para viver um grande amor", um filme. Descobri essa trilha por acaso, na época do vinil. Não era tão caro. Comprava muito disco por nada, porque achava legal a capa, sabe? Daí eu estava fuçando numa loja que eu adorava, em Pinheiros (bairro de São Paulo), e encontrei esse vinil. Uma capa engraçada, uma foto do Djavan e da Patrícia Pillar, "Para viver um grande amor". É do Tom Jobim e do Chico. Nem vi o filme. Aí comprei. O disco é uma "releitura", vamos dizer assim, do "Pobre Menina Rica". Tem músicas do Carlinhos Lyra e do Vinicius (de Moraes). Mas Tom e Chico assinam. Lá tem "Imagina", aquela música linda, a primeira música que o Tom compôs. E o Chico pôs uma letra pra essa trilha. Tem "Sinhazinha", "A Violeira", que é a Elba (Ramalho) que canta. Essa trilha é maravilhosa, eu venho cantando esse trilha há muito tempo (risos). Foi encontrada por acaso, eu nem estudava canto. Só gostava de música e era fuçadeira de lojas de discos.

Os artistas hoje pegam mais as canções contemporâneas, há uma quebra com o passado. Com você, há uma continuidade?
Sabe o que é? A seleção de um repertório é restrita, um disco cabe muito pouca música. Pra quem compõe é uma coisa, mas, pra quem é intérprete, a matéria-prima é o que os outros fizeram. Tenho na minha memória de gostar de música já muito material. Muita coisa que eu escuto desde criança e adoraria cantar. Uma coisa numerosa. Pra você escolher 14 músicas pra pôr no disco, você tem que gostar muito dessas 14. Tenho um problema: aceitaria de pouquíssimos compositores uma música no escuro, só pra ser uma inédita. Porque tem maravilhosos compositores, sou dependente de compositores, mas tem sempre o risco de receber uma música que não tem nada a ver com você. Não gravaria uma música que não tem nada a ver comigo só por ser uma inédita de Fulano, mesmo que seja um grande compositor. Acho isso estranho, não sei...

Nos Estados Unidos, eles sempre recorrem ao velho cancioneiro.
Isso acontece no Brasil também... "Recebi uma música"... Se ela for boa, tiver a ver com você, nossa, que presentão! Mas se não tiver nada a ver com seus discos, com você? O que significa isso?

Mas falo num outro sentido. Nos EUA, eles regravam incessantemente Cole Porter, Gershwin, Irving Berlin... Com novas leituras.
Bem, também é um mal brasileiro: a falta de memória, o olhar pra trás como se fosse velho. Isso é muito engraçado. Na história da música popular brasileira, o tempo inteiro aconteceu de coisas recentes, pra uma determinada época, serem classificadas como velhas. E acabou, são jogadas ao ostracismo. Acho isso estranho, até porque existe um caminho. Quando você olha um material temporal, percebe que aconteceram coisas. Houve uma época que, através das canções, se contava uma história. Agora já não é mais essa época, as pessoas não tem mais tempo de ouvir uma história através da música. Elas querem outro tipo de canção. Eu me interesso por isso, acho legal.

Numa matinée no Teatro Municipal de São Paulo, você cantou algumas.
De Gastão Formenti...

E "Casa de Caboclo", de Hekel Tavares e Luiz Peixoto.
É outro tempo, hoje é inimaginável alguém fazer uma música assim. Mas, ao mesmo tempo, isso é nosso, é a formação sentimental de uma cultura. Canto uma música do Chico César, canto a música que Gastão Formenti gravou, e tá tudo certo. Tudo isso mora dentro das pessoas. Todo o mundo gosta de ouvir histórias, sabe? Até as crianças. É muito simplificador você jogar tudo fora, um material tão lindo e tão diverso, que é o da canção no Brasil, por causa de preconceito. Sou apaixonada por essas coisas. Quando encontro uma música dessa, tenho vontade de mostrar, juntar com outras, fazer um apanhado, numa coisa que faça sentido.

Como foi sua descoberta do cancioneiro de Dorival Caymmi?
Tem dois compositores que desde criança eu ouvia, na casa dos meus pais, na minha casa. Muitos discos do Dorival e do Chico. Embora eles sejam de gerações diferentes, são os dois compositores da música brasileira que eu conheço melhor, me identifico mais. Assim como eu sabia que um dia faria um disco com as músicas do Chico - não necessariamente agora - um dia eu sei que vou fazer um trabalho só com músicas do Dorival, porque me identifico com ele. Mas enquanto isso não acontece, eu vou gravando (risos). Como eu vinha fazendo com Chico nos outros discos...

Caymmi tem a simplicidade que guarda um sentimento mais vasto.
É verdade. O Chico fala sobre mais assuntos do que o Caymmi, que é centrado...

Canções praieiras...
... Os sambas, as canções, é mais focado e tem um tempo mais lento. O Chico é tanto quanto ele perfeccionista. Eles são diferentes. Era o que eu ouvia. Eu me sinto próxima das obras deles.

Como se dá sua integração com os músicos? Não há meramente um acompanhamento.
O primeiro trabalho que eu fiz, o primeiro disco, dei uma sorte danada. Estava fazendo um trabalho pro Eduardo Gudin, um disco chamado "Notícias do Brasil", e o Gudin sugeriu que eu gravasse um disco. Eu falei: "Olha, não tenho o que gravar neste momento, o que estou fazendo é seu trabalho". Ele: "Não, vamos pensar...". E lembrou os afro-sambas do Baden (Powell) e do Vinicius. "Que tal se você fizesse um projeto, não tem que inventar um repertório. Você começa fazendo um projeto". Achei isso legal e, além de tudo, era um baita de um projeto. Era tipo um Porgy and Bess, um negócio que não tem muito no Brasil. Um musical, um grupo de canções que têm características específicas. Era um presentaço. Nossa, ninguém gravou! Desde a gravação original, nunca mais ninguém tinha gravado todos os afro-sambas. E era uma estupidez, faz parte daquilo lá que a gente estava falando.

Claro que eu topei! Quero correndo! Gudin recomendou que esse disco fosse feito com o (Paulo) Bellinati. Então conheci o Bellinati pra ele dirigir este disco. Muita água rolou e foi virando outra coisa. Acabamos fazendo encontros semanais - três, quatro vezes - pra preparar esse material. E virou um disco de duo, voz e violão. A gravadora não queria mais e o Bellinati indicou esse disco pra gravadora americana, por onde saem os discos dele. E eles toparam. Até que a gente conseguiu lançar, no Brasil também. O Bellinatti é um grande músico, com grande conhecimento de música. Virou um intensivo de um tipo de relação musical muito diferente do acompanhamento - ainda mais porque voz e violão é uma coisa muito comum no Brasil. Em qualquer boteco, em qualquer barzinho, voz e violão. A gente resolveu que era mais do que um acompanhamento, era uma redução de uma coisa original que era pra percussões, várias vozes, coro de homens, de mulheres... Era uma redução pra essa forma de voz e violão: eu era todas as vozes e Bellinati todos os instrumentos.

Às vezes sua voz é um instrumento...
Pois é. Aprendi muito sobre cantar com essa experiência com o Bellinati. Chegou uma hora que a gente podia cantar de costas. Tudo junto, a dinâmica era linda, era tudo perfeito. Porque era muita concentração nesse diálogo da voz com o violão. Depois disso, aprendi a escutar o que está sendo feito junto comigo, enquanto estou cantando. Existe um diálogo musical. É uma perda de tudo, de inteligência, de música, não dialogar com isso que está acontecendo.

Isso você manteve?
Até com orquestra. É um jeito de escutar. Não tem graça... Se a maneira como você canta não sofre nenhuma influência do que está escutando, é estranho. Você é um cantor surdo. Você está perdendo uma festa, a música se faz junto. Quando você faz música instrumental, entende mais ainda, porque a letra é um destacador da voz. Mas eu fui cantar com a Orquestra Popular de Câmara e eu fazia um doze avos do que todo o mundo fazia. Muitas vezes minha voz era instrumento melódico, fazendo cama pra outro instrumento solar. Aí você entende o que é tocar junto. Isso se reflete na maneira como eu penso que é legal cantar. Eu me divirto cantando.

Os músicos costumam se divertir bastante.
Os músicos sempre se divertiram muito. O que acontece é que os cantores não foram convidados pra essa diversão, se colocaram num lugar estranho, "não me misturo"... Então tá perdendo a festa! É ruim pro cantor. Os músicos continuam se divertindo. Sempre foi assim.

Em alguns shows menores, despretensiosos, você aproveita pra experimentar um repertório, testar uma música com a platéia? Aproveita pra elaborar um disco futuro?
Com certeza. Principalmente nesses projetos paralelos. A gente não sossega. Você viu o show com o Toninho (Ferragutti) e o Teco (Cardoso), né?

Sim, sim.
Esse show foi mudando. No começo, era o meu e do Toninho, em Curitiba. A gente estava dando aula num festival e a produção nos convidou pra fazer uma noite juntos. Aí ficamos: "Pô, será que a gente tem assunto? Voz e acordeon, só?". Mas era um festival, um clima de experimentos, até de se mostrar frágil, né? É bonito qualquer processo do trabalho, é didático. "Ah, vamos topar!". Fizemos e adoramos. Eram coisas que já tínhamos feito juntos e outras que a gente pensou que tinha a ver com essa formação. Viemos fazendo esse show por muito tempo. Depois fomos fazer uma temporada na Fecap (em São Paulo) e convidamos o Teco pra fazer uma participação. Ele foi fazendo, foi fazendo, foi ficando bom... Virou um trio. Como isso já faz muito tempo, foi aparecendo música que a gente tinha vontade de experimentar. Coisas que tinham sido feitas no primeiro show ou... "Poxa, acabei de ouvir um troço lindo! Vamos ver como é que fica". Esse é o tipo de projeto paralelo que eu te falei, que vai pro balaio das possibilidades de cantar. Você acaba se apaixonando através desses projetos.

E o Pixinguinha, que te leva a circular pelo País? Dá pra assimilar outras musicalidades?
Na verdade, não deu muito. Acabo recebendo muito material. Quase todo o show tem alguém que me dá coisas pra ouvir. Muitas não têm a ver, outras têm... É natural, o cara é compositor, quer viabilizar o trabalho dele. Às vezes realmente a gente pensa: "O que esse cara achou que é...".

É um presente mesmo?
(risos) Ou é só uma desova. Quem sabe, vai que cola! Recebo coisas assim. Mas, na viagem do Pixinguinha, da primeira vez fiquei chocada. Eram três trabalhos sendo mostrados num único show e a nossa postura, como estávamos chegando pela primeira vez, era de nos apresentar. De falar: "Somos do Sudeste e temos aqui um trabalho". Mas, pra nossa surpresa, as pessoas já nos conheciam. É o público fuçador, da internet... E a gente que não conhecia o que era feito nas cidades! Ficou chato pra gente. Ficamos emocionados e chocados. "Como vocês nos conhecem, se nunca viemos aqui?". Não saímos na televisão, as rádios não tocam. Os motivos são os mais malucos. Numa rádio em Santarém, no Pará, um radialista tem um programa de uma hora. Ele veio pra São Paulo e conseguiu uma cópia pirata do Voadeira e levou essa cópia pra pôr na rádio. E lá tem um público cativo, que multiplicou... Por causa de um cara que copiou um disco! É arrepiante.

São Paulo costuma reduzir o País?
Exatamente, a gente ignora o que acontece no resto do Brasil. E olha que São Paulo, por ter pouca personalidade, ele...

Absorve outras culturas...
Absorve o que acontece no Brasil e no mundo. E, mesmo assim, a gente é muito ignorante do que ocorre fora do eixo São Paulo-Rio. Tem que pesquisar pra ter acesso. Nós somos os ilhados. Em Santarém tem uma rádio que toca as músicas daqui. Mas aqui não tem nenhuma rádio que toca as músicas de Santarém.

Há esse mundo paralelo ao artista...
É. Este ano eu ganhei um presente que foi a turnê pelo Brasil. Consegui o patrocínio do Bradesco Prime. Nunca fiz nada parecido com isso. O Pixinguinha era pequenininho.

Não era uma projeto pessoal.
Não era. Dessa vez, eu montei a turnê que era ideal pra mim. Minha idéia primeira era itinerar por todas as capitais. Mas o patrocionador disse: "É muito, a gente tem tanto". Aí eles fizeram uma pesquisa interna e viraram 21 cidades, o que é um luxo. Montei, junto com as pessoas que trabalham comigo, essa turnê nos moldes que são legais pra gente. Em Salvador, a gente fez no Teatro Castro Alves. Em Manaus, no Teatro do Amazonas, um negócio lindo... São salas de teatro, com histórias da música. É a primeira vez, desde o início da minha carreira, que eu tenho a possibilidade de mapear o público que venho formando. Nunca fiz isso. Antes, eu ia e voltava pra São Paulo. Tem o Orkut, os e-mails, vira uma rede... Uma menina fez um Blog pra mim. Maior barato. Entendi o poder que tem a espontaneidade do tipo público que uma carreira minha faz. A gente tem uma velocidade muito mais lenta de alcance. Não dá nem pra comparar com dois minutos no horário nobre da Globo - faz o cara ser ouvido por milhões de pessoas. Nunca você chega a milhões de pessoas no braço.

É uma opção sua?
É uma opção, dentro das oportunidades que eu tive. Ao mesmo tempo, é uma coisa que combina com meu jeito de ser. Realmente, cada vez mais, tenho isso claro pra mim: o sucesso, a fama de TV... Não me oponho... Outro dia fiz o Som Brasil, o Altas Horas. Acho legal quando divulga aquilo que eu faço... Tudo bem. Não é uma trip minha, pessoal. Não tenho esse negócio. Tenho o trabalho. Se o trabalho vai aparecer, do jeito que ele é, ótimo, obrigada, valeu, perfeito, bacana. Mas não tenho essa trip da fama. Tenho o ofício, o trabalho. Pra mim, combina esse tipo de carreira. Pra uma pessoa que tem esse tipo de expectativa de ficar superfamosa, não vai se dar bem numa carreira como a minha.

Pode virar uma tirania?
Acho estranho. Acho inseguro. Você depende de um esquema, que é necessariamente artificial, não dá pra fazer acontecer sem uma injeção de comercial. Precisa que esteja na novela, precisa que você tenha um troço na cabeça, pra pessoa olhar a marca e dizer que aquilo é você. Uma cor de cabelo, uma roupa esquisita, tem que ter um negócio... Depois o trabalho vira menos importante do que a imagem que você cria.

Não é da sua personalidade?
Da minha não é mesmo. O que você vende? Vendo a música que eu faço. Me sinto mais segura com o que faço. É um público que se identifica, de verdade, com o que faço. É um público menor? É. Se eu apareço mais ou menos, ele continua meu. Se eu apareço na cidade, as pessoas ficam felizes e vão ver.

Millôr Fernandes se refere a isso aí quando diz que a fama é a popularidade rodando bolsinha.
(risos) Rodando bolsinha! Um jeito de ver. De fato, é. Não tem ninguém querendo arrancar meu cabelo. Mas algumas pessoas me encontram e dizem: "Gosto muito do seu trabalho". Disso eu gosto. Esse é reconhecimento que me deixa feliz. Agora, você é aquela famosa que aparece na televisão e eu nem sei quem é? Isso não me interessa em nada! Nada. Então, é mais seguro. Eu vivo disso. Uma vez, fiz um trabalho com a Letícia Sabatella, que me explicou: enquanto dura uma novela, a vida deles é infernal, não dá pra andar na rua... Quando acaba, tem um período de dois ou três meses, o personagem ainda está na memória. Depois dá pra pessoa andar na rua. Na música, depender da novela pra vender seu disco, é depender da pirataria, ser refém das rádios... Não é só a força do trabalho.

E a participação no documentário "Vinicius" (de Miguel Faria Jr)? Qual a importância?
Muito legal. Primeiro, foi um presentão porque é uma produção carioca. Achei curioso convidar dois cantores de São Paulo, eu e Renato Braz. O que eu senti é que esse filme me trouxe uma divulgação bacana do que eu faço, no Rio. Quando ele estava em cartaz, o Rio teve muita aceitação. Sintomático. Ele exalta um Rio que está maltratado. As pessoas lotavam as salas. Foi um bom divulgador. Além de eu ter adorado o filme.

Você falou do radialista de Santarém, que pegou um CD pirata seu e levou pra lá... Há um grande movimento de parte dos artistas contra a pirataria, trazendo uma série de questões sobre direitos autorais. Qual é sua posição nesse debate?
Olha, um dia eu falei isso pra um jornalista e ele fez uma matéria lá no Rio, com uma puta manchete: "Mônica Salmaso diz que adora pirataria". Não foi isso eu falei. Eu entendo que, pra uma carreira como a minha, a pirataria não é um problema, é um fator de divulgação. Primeiro porque você não acha meus discos no camelô. A "pirataria" que eu sofro não é a da venda, é a da divulgação. De alguém colocar num site pra passar de graça... Tem discos meus que ninguém consegue encontrar. Então, quero que as pessoas escutem. Ótimo se elas escutarem de graça. Os acessos pela internet às minhas músicas, mesmos os discos que estão no catálogo, são divulgação pra mim. Não posso fazer isso no meu site.

Tem contratos...
É ilegal. Tem que pagar direitos. Mas num software que baixa... Eu acho lindo. Copiou? Você ouve? Maravilhoso! (risos) Copia para seus amigos? Fico muito feliz. Fora que levo discos pra vender nos shows. E, na hora, algumas pessoas me dizem: "Copiei, mas agora que eu vi o disco aqui, comprei, na minha cidade não tinha nenhum". O cara que tinha o pirata foi lá e comprou o original, entendeu? Não é que essa coisa me prejudica, pelo contrário. No meu caso, e em casos de carreiras como a minha, ainda bem que tem a internet viabilizando isso. Agora, entendo e concordo que há artista que vive do mainstream e precisa aproveitar o boom da música na novela das oito pra vender disco. E ele vende por causa de uma única música. O gráfico de um disco desse é assim: tudo na hora da moda e quase nada depois. Esse cara perde muito com direito autoral. Nesse caso, a pirataria é um problemão. Mas eu... Não toca na novela, não vende no camelô, entendeu? O jornalista do Rio falou uma inverdade. Depois ele explica, mas a manchete...

Leia segunda parte da entrevista:
» Mônica Salmaso: "Brasil ignora música latina"

 

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