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Sexta, 8 de agosto de 2008, 08h00 Atualizada às 01h48

Leo Kret: "Quero ser presidenta do Brasil"

Paulo Camera/Divulgação
Leo Kret do Brasil quer igualar a trajetória do presidente Lula
Leo Kret do Brasil quer igualar a trajetória do presidente Lula

Claudio Leal

Notícia da Bahia: Leo Kret, a "danada", entrou para a política. "Dançarina do povo", a transexual mereceu verbete da Desciclopédia, a Wikipédia de araque. Numa agressão aos fatos, apresentam a baiana como Léopold von Schëiber Kretzwald. Cruz!

Provem o contrário, mas ela não é madame de mentir: dorme e acorda "mulher". E samba que samba.

Perguntem por Leo Kret nos subúrbios e pontos de ônibus de Salvador. Ouvirão uma resposta: "Leo Kret, a cretina?". Pois então, ela mesma. Nascida no bairro de Pernambués, virou dançarina de bandinhas chués até afinar o rebolado no grupo de pagode Saiddy Bamba. Sabe lá de onde vem o "y".

Há divergências quanto à grafia do nome. Leocrete, Leokrety, Leo Cret. Dúvida cretina, ora. Nas eleições 2008, assina-se Leo Kret (PR) - candidata a vereadora de Salvador. Deseja ver seu nome artístico no painel da Câmara.

Nos comícios do deputado federal ACM Neto (DEM), postulante à Prefeitura da capital baiana, a transexual se tornou a principal atração. Recebe mais aplausos do que o neto do ex-senador Antonio Carlos Magalhães. Pudera: além de discursar, Leo Kret tem estatura superior à do democrata, rebola para a multidão, trisca o chão quando assim pedem, chicoteia os cabelos e, respirou?, ainda dá suas cantaroladas.

Sensação da campanha baiana, Ela, a danada, a "cretina", afirma se inspirar no ex-ministro da Cultura Gilberto Gil. Com todo o respeito, pretende dividir-se entre a arte e a vida pública. "Continuaremos dançando", avisa, nem aí para a opção final de Gil.

Kret é a musa inspiradora do "Melô do beabá". O pagodeiro provoca e atiça a odalisca transmudada: "A fechação vai começar.../ Eu vou mostrar para você o meu mais novo beabá". Basta isso para Leo Kret - de novo, perdão, a "cretina" - jorrar suor:

"A... vocês vão ter que me aturar
E... porque eu sou quase uma mulher
I... vocês vão ter que me engolir
O... eu sou Leo Kret 'a melhor'
U... eu gosto da cor azul"

"O que é Leocrete, em termos de morfologia?", indaga o jornalista Pablo Reis, biógrafo informal desse hurricane de média proporção. "Um capítulo à parte no gongorismo visual que é a figura leocretiana está em sua sempre visível marquinha de biquíni. É uma linha esbranquiçada que desenha uma parábola nas laterais da cintura até o cóccix, denunciando uma tanguinha mínima, popularmente conhecida como fio-dental."

No subúrbio ferroviário e na península de Itapagipe, à beira da Baía de Todos os Santos, virou heroína das noites de pagode. As mães da ex-Tradicional Família Baiana tremem quando vêem seus filhos imitarem Leo Kret, num rebolado "trans". Nada assustador, sugere a letra do Saiddy Bamba:

"Quiu
Ela já se descobriu
Quiu quiu quiu
É Leo Kret do Brasil"

No comício na Praça João Martins, no bairro de Paripe, cerca de duas mil pessoas foram ver a transexual ao lado de ACM Neto. Fotografias dos dois já circulam em sites de humor.

- Léozinha é emblemática no atual espírito do tempo: alegorizando um tipo de política e de sexo (a tal da desconstrução dos gêneros e das orientações sexuais heteronormais do passado) que não passam de uma alegre esculhambação! - define o antropólogo baiano Roberto Albergaria.

Para Albergaria, a "Lady Boy" simboliza o circo da política baiana depois da morte do ex-senador ACM. A direita se une ao PT, os órfãos de ACM a Leo Kret. Identidades se diluem. "Aliás, as pesquisas dizem que mais da metade da população da nossa cornolândia não se interessa nadinha por eleição e quejandas embromações", arremata o antropólogo.

Por ter dançado a música "Bicha", a "danada" enfrentou a patrulha do Grupo Gay da Bahia (GGB). Consideraram a letra ofensiva. "Descaradinho, não adianta se encubar/ Todo mundo aqui já sabe/ Que você não é chegado à fruta". Crente em sua costela de Adão, ela venceu as resistências dos militantes. "Leo Kret dançando contra toda uma onda de preconceito e discriminação", gaba-se.

Em entrevista a Terra Magazine, a dançarina faz uma revelação de estremecer a República. A depender dos ventos eleitorais, Cristina Kirchner e Michelle Bachelet podem ganhar uma nova amiga:

- O povo, que me levou a ser candidata a vereadora, com certeza me levará a ser candidata à presidente... Imagina eu, Leo Kret do Brasil, a primeira presidenta transexual?

A Bahia de Ruy Barbosa, Marta Rocha, Irmã Dulce, Glauber Rocha e Caetano Veloso, também embarcou no mundo Leo Kret.

Nada mais educado do que ouvi-la.

***

Terra Magazine - Dá pra falar de seu sucesso nos comícios baianos?
Leo Kret - Tá sendo um arraso! (risos)

Começou no bairro de Paripe, certo?
Começou em Paripe e está penetrando em toda a Bahia e em alguns lugares do Brasil. Porque eu trabalho com uma banda. Agora, em Paripe, foi um comício que teve. Segundo os jornais, houve duas estrelas: eu, Leo Kret do Brasil, e mais uma personagem política, (o radialista Raimundo) Varela. Nem o ACM Neto foi citado.

É mesmo?
É... Quando nós chegamos, havia poucas pessoas e aí lotou a praça pra ver Leo Kret do Brasil, a danada! (risos)

E por que você escolheu ACM Neto pra ser seu prefeito?
Nós tínhamos uma formação política antes do convite que foi feito por uma pessoa do PR. Isso foi numa convenção partidária, não foi Leo Kret que escolheu. A convenção do DEM, PR e outros partidos que decidiu. Uma pessoa jovem e tudo mais.

Você tem simpatia por ele?
Claro, temos simpatias. Ele está defendendo as bandeiras dos GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros), dos artistas, e tem as propostas dele pra cidade. Ninguém pode negar a herança política que ele herda. Pode haver resistências, mas ninguém pode negar.

O que você acha do avô dele, o ex-senador Antonio Carlos Magalhães?
(risos) Era uma pessoa que era amada e odiada, né? Mesmo que algumas pessoas critiquem, era uma força política. Tanto que essa força política era chamada de "carlismo". Estavam seguindo a liderança dele.

Por que você entrou pra política?
Porque o povo pede. Toda a hora que a gente passa, o povo pede algo diferente. Os políticos que aí estão, quando se fala de política, são sempre dos jornais, dos crimes, das falcatruas... Quando a gente passa nas ruas, no meu trabalho de repórter nas TVs, com as comunidades carentes, solicitavam, pediam muito. Começaram a pedir minha candidatura. E me queriam como prefeita! Imagine!

Leo Kret prefeita de Salvador?
Ah, mas a gente vai lutar pra isso...

O que você ouve nas ruas?
Que eu sou a dançarina do povo e agora serei a vereadora do povo. Quero bater o recorde de votos da Bahia.

Você transfere voto pra ACM Neto? Vai pra todos os cantos na campanha...
Com certeza. A gente vai transferir muitos votos, sim. E a coordenação da campanha majoritária está percebendo isso. O clamor popular quando vê Leo Kret esquece as coisas negativas. A gente vai repetir o fenômeno que já aconteceu com Clodovil, e com outros artistas: Gilberto Gil, Mão Branca.

Como é que nasceu a Leo Kret?
(risos) Leo Kret surgiu nos finais de linha, nos bairros, nas populações carentes ou, como dizem aqui na Bahia, nos guetos de Salvador. Dançando com aquelas bandinhas - não pejorativamente, claro -, muitas delas de garagem, e desabrochou. Leo Kret dançando contra toda uma onda de preconceito e discriminação.

Mas de onde veio o nome "Leo Kret"?
Leo é parte de meu nome civil e "Kret" vem de cretina, de algumas coisas que as pessoas me chamavam com irreverência. Aí juntou Leo Kret.

Por que cretina?
(risos) Cretina porque a gente incorpora o personagem no palco, daquela personagem de irreverência, pra gente quebrar os tabus. A gente diz alguns versos durante os shows...

Diga um verso...
Unindo a música ao que as pessoas pensam lá embaixo. Se veste de Afrodite e fala algumas coisas. Mas a que tá cantando mais é "Leo Kret, a dançarina do povo, é a representante de fato, **024" (risos)

As pessoas te chamam de "travesti", mas você diz que se sente cada vez mais uma mulher. Como é isso?
A gente brinca com essa questão do povo. Mas, na realidade, nós somos transgêneros. Temos identidade feminina. E se a gente vai pegar as definições coletadas pelo coletivo de travestis transexuais, vai perceber que a definição de "travesti" é se transformar em alguns momentos. E a minha identidade feminina é diária. Eu durmo e acordo uma mulher. Ainda não operada, ainda não transgenitalizada. Mas eu acordo uma mulher. Se formos usar uma definição mais específica, eu seria uma transexual.

Você tem pretensão de ser, no futuro, prefeita de Salvador?
O povo, que me levou a ser candidata a vereadora, com certeza me levará a ser candidata à presidente do Brasil, né? Em breve, prefeita, deputada estadual, federal e presidente, imagino. Imagina eu, Leo Kret do Brasil, a primeira presidenta transexual?

Vai superar a trajetória de Lula, de retirante a presidente...
Com certeza. Uma homossexual, que saiu de um bairro periférico e estigmatizado, de uma cidade do Nordeste, assim como o presidente Lula, presidente do Brasil.

Se vencer, você vai continuar a dançar?
Continuaremos dançando. Seguiremos o exemplo de outros artistas como Gilberto Gil.

Mas Gil acabou optando pela carreira artística. Como você vai se dividir?
Vamos ter assim uma agenda, que vai ser definida, que concilie com as sessões. As sessões não são todos os dias, só alguns dias da semana, e os shows acontecem à noite. Dá pra conciliar bastante. Quando não der, pediremos desculpas aos nossos fãs, mas... Contaremos com a compreensão.

Quais os pedidos mais absurdos dos eleitores?
Além de pedirem pra eu dançar, a gente não ouve absurdo, absurdo, por incrível que pareça. As pessoas entendem que não estamos ali pra comprar votos, mas pra mostar as ferramentas de controle social. Temos que defender os GLBT, os artistas estigmatizados, principalmente os artistas de axé music e do pagode, que são discriminados mesmo que movimentem cifras milionárias, como a Ivete (Sangalo). Nem houve desrespeito. Houve irreverência de me chamar de "danada", de Leo Kret "cretina", nesse sentido...

Quem vai votar mais em você? Homens ou mulheres?
Agora eu não sei dizer! Porque assim: existe o público feminino do pagode, representado por mim, mas existe o público masculino que são os pagodeiros... Tá numa disputa enorme! Mas vamos ter que preparar uma pesquisa pra saber quem é que é!

Qual vai ser seu primeiro projeto?
Temos uma lei que proíbe a discriminação contra os homossexuais, de 1997. Essa lei nunca foi regulamentada. É como se não existisse aqui em Salvador. Quem discriminar, fica impune. A minha primeira lei é regulamentar essa lei e exigir que os órgãos públicos admitam homossexuais entre seus servidores. Outro projeto de lei é permitir que Leo Kret do Brasil seja Leo Kret, meu nome civil, pra que eu possa estar assim no painel da Câmara. Essa questão do parceiro/parceira de homossexuais, o sistema de previdência municipal...

Leo Kret vai revolucionar?
Vamos revolucionar. Porque não é Leo Kret dançarina. É uma comunidade por trás, viu?... Arraaaaaaasou! Adorei.

 

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