Atualizada às 17h04 Luiz Gonzaga Belluzzo
De São Paulo
Personagens outrora discretos no drama da crise financeira americana, as chamadas auction rate securities ganharam projeção no espetáculo de trapalhadas e malfeitorias made in USA. Na sexta-feira, dia 8 de agosto, o Wall Street Journal informou que o UBS A G, já encalacrado na crise do subprime, concordou, pressionado pelas autoridades, em comprar de volta US$ 19 bilhões de auction rates securities que venderam aos investidores.
Auction rate securities são títulos de dívida de longo prazo transformados pelos bancos em papéis líquidos que rendiam taxas de juros de curto prazo. As taxas eram periodicamente renegociadas em leilões mensais ou semanais, conforme o estipulado em contrato. O analista Daniel Shepard conta que no auge da euforia dos mercados, o valor do estoque desses títulos de dívida - calculado pelo valor de face - chegou a US$ 340 bilhões.
O avanço da crise financeira fez evaporar a liquidez das securities, enfaticamente garantida pelos bancos em seus esforços para convencer os investidores. A despeito das promessas, as auction rate securities não foram poupadas. A generalização da desconfiança travou o financiamento dos papéis. O pânico obrigou os responsáveis pela "intermediação" a postergar e fraudar os leilões de negociação da mercadoria, sempre oferecida aos clientes como líquida e segura.
Ken Pugh, supervisor de distribuição do jornal Sun Sentinel, viu suas economias de US$ 350.000 sumirem de suas aplicações no Bank of América. Apostou a grana nas indigitadas auction rate securities e foi à breca. O Bank of América informa que os títulos não "micaram", mas como estão ilíquidos não podem ser precificados. So far, so good.
Na quinta-feira, 7 de agosto, o Citigroup também entrou em acordo com o Procurador Geral de Nova York, Andrew Cuomo, e com a SEC (Securities Exchange Comission). O Citi se comprometeu a recomprar, ao valor de face, os títulos adquiridos por investidores individuais e pequenas instituições não lucrativas.
A diferença entre o preço a ser pago pelo Citi e o atual valor de Mercado dos papéis é estimado em US$ 500 bilhões. No entanto, diz Shepard, o anúncio da transação vai reduzir ainda mais a demanda, já minguada, por esse tipo de papel. Nessa toada, a liquidez do mercado se contrai e outras instituições financeiras serão obrigadas a levar a balanço os títulos desvalorizados. Não bastasse isso, o financiamento da recompra exigirá provavelmente a colocação de dívida num mercado desconfiado. No blog de finanças Seeking Alpha da Barrons, um comentarista furibundo dispara: "O dinheiro virá de Tio Ben (Bernanke) naturalmente. Até quando vai a farsa?"
Na ausência da ajuda, digamos, tempestiva do TioBen, os prejuízos dos bancos e brokers serão determinados pelo mercado, isto é, de quanto o banco vai obter na venda das securities. Uma gelada. O acordo firmado entre o Citi e as autoridades e reguladores cobre somente os pequenos investidores considerados pouco sofisticados. Os grandes investidores estão à espreita. Logo entrarão com processos para reclamar o ressarcimento dos prejuízos junto às Procuradorias e à SEC.
Atrás do Citi, marcha o banco Merryl Lynch que anunciou a recompra, a partir de janeiro de 2009, de US$ 30 bilhões de auction rate securities carregados por clientes de menor porte. As autoridades acusam as instituições financeiras de engambelar a clientela. Como já foi dito, os bancos vendiam as auction rate securities como se fossem títulos absolutamente líquidos, dinheiro vivo que rende juros. O desenrolar da crise revelou a inverdade.
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